Folha de S. Paulo
Talvez por prepotência, bolsonaristas acharam
que sobreviveriam às redes sociais defendendo o pagamento por hora
Basta conversar com um caixa de supermercado
para entender por que só 22 deputados votaram contra redução da jornada
Sensível ao termômetro
das redes sociais, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) percebeu
rapidamente a cilada que é a PEC que autoriza a contratação
por hora trabalhada, apresentada pelos bolsonaristas em reação ao
fim da escala 6x1.
Correu para o plenário para dizer que sempre defendeu o fim da "maldita" escala e continuaria do lado do trabalhador. Cleitinho admitiu estar apanhando —o que os outros 40 signatários da PEC alternativa ainda hesitam em fazer.
Autor da proposta, o coordenador da
pré-campanha de Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) à
Presidência, Rogério
Marinho (PL-RN), disse que, se o pagamento por hora for
aprovado, o empregado poderá trabalhar o quanto quiser, inclusive 50 horas por
semana.
Como 7 vezes 7 são 49, a esquerda achou a
senha que faltava para atacar: eis a escala 7x0. O baque foi tão grande que o
próprio Marinho diz estar sendo vítima de fake news. Romário (PL-RJ) também
tenta explicar o inexplicável: assinou a PEC porque é a favor do
debate sobre ela, mas não a favor dela.
Não sei se por prepotência, falta de opção
política (ou de conexão com o povo), a direita achou que conseguiria
constranger o governo insistindo no discurso de que até apoia uma redução na
jornada, desde que isso implique a devida redução salarial.
Como se já não estivesse nas entrelinhas, o
pagamento por hora virou
bandeira da Fiesp, da CNI, do dono da Havan... "Mas seu salário
vai ser achatado e você vai precisar fazer bico", dizem os críticos do fim
da escala 6x1. Boa parte desses trabalhadores já não ganha perto do piso, como mostrou
o Ipea?
Em resposta à deputada Júlia Zanatta (PL-SC),
o gari Raimundo Nonato expressou o que talvez esteja na cabeça de outros tantos
brasileiros: do meu dia de folga, faço o que eu quiser. Inclusive bico.
Basta conversar com um caixa de supermercado
para entender por que só 22
dos 513 deputados tiveram coragem de votar contra a diminuição
da jornada de trabalho. É raro em Brasília, mas às vezes a narrativa encontra
resistência na realidade.

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