domingo, 26 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preocupante cobertura vacinal global insuficiente

Por O Globo

Brasil tem se recuperado nos últimos anos, mas ainda não atinge as metas em vários imunizantes

São inquietantes os dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre a cobertura vacinal global. Houve melhora em 2025, mas não o bastante para fazer o mundo voltar às taxas observadas em 2019, antes da pandemia. Uma das referências utilizadas para mensurar o estágio de vacinação de populações é a Vacina Tríplice Bacteriana (DTP). No ano passado, 90% das crianças no mundo receberam pelo menos uma dose e 85% completaram as três previstas. Embora tenha havido melhora na comparação com 2024, a cobertura global se mantém abaixo da registrada em 2019.

Análise das situações: relações de força. Antonio Gramsci*

É o problema das relações entre estrutura e superestrutura que deve ser posto com exatidão e resolvido para que se possa chegar a uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período e determinar a relação entre elas.  É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações (verificar a exata enunciação destes princípios).

[“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para sua existência.  Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que estes objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização” (Prefácio à Crítica da economia política )] [23]. 

A América contra si mesma, por Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

O grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo

A comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte, no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que findou em 1989.

Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista.

Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A guerra cultural promovida pelo Maga produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas

“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.

Trump e Milei em campanha no Brasil, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Sem coligações internas, Flávio pede ajuda da direita, mas qual direita? A internacional

O senador Flávio Bolsonaro lançou a candidatura à Presidência no seu pior momento, com o barco fazendo água, falta de material e fuga de mão de obra para consertar as avarias. Adernando, sem rumo e sem apoio político interno, ele pediu “união” da direita nacional, mas recorre à ação da direita internacional. Ou, mais diretamente, à ingerência externa nas eleições brasileiras.

A presença de Javier Milei à convenção deste sábado é um troféu dessa estratégia, mas o que mais pesa é a presença oculta de Donald Trump, que atacou o Brasil com mais 37,5% de tarifas e tentou enviar dois funcionários do Departamento de Estado para bisbilhotar o processo eleitoral e o TSE, sem sucesso. Não por coincidência, a tentativa ocorre dias depois de Flávio repetir o erro do pai que decretou sua inelegibilidade, reunindo embaixadores estrangeiros para mentir sobre o processo eleitoral e pedir “observadores internacionais” em outubro.

Disputa eleitoral: sobram desafios e faltam ideias, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Planos e projetos provavelmente logo aparecerão, mas o atraso já é assustador, como seria até mesmo num tranquilo país escandinavo

Num quadro global de brutalidade, incerteza econômica, protecionismo e insegurança inflada pelas pretensões imperiais de Donald Trump, o Brasil tem conseguido evitar conflitos, manter a estabilidade política e sustentar a atividade econômica, o emprego e uma inflação tolerável, embora distante da meta de 3%.

Os números mostram um mercado de trabalho em condições favoráveis no trimestre encerrado em maio, com desocupação abaixo de 6% e nos mais baixos níveis da série iniciada em 2012. O quadro é manchado pela informalidade, pelo subemprego e pelas condições da camada inferior da classe média e dos grupos pobres. Mas a pobreza extrema foi quase erradicada há alguns anos e pouquíssimos brasileiros ainda enfrentam a fome.

Tempo contra Flavio, por Merval Pereira

O Globo

Ainda podem surgir fatos novos que inviabilizem a candidatura de Flavio, e essa insegurança política só terminará se ele conseguir chegar ao segundo turno

A pesquisa do DataFolha que deu uma vitória para o presidente Lula de cinco pontos percentuais sobre Flavio Bolsonaro no segundo turno, portanto fora da margem de erro, teve o dom de dar alento aos dois candidatos. Lula abriu vantagem mais folgada, mas Flavio, apesar de tantos escândalos e brigas domésticas, manteve a competitividade. A pesquisa não pegou a “reconciliação” entre a madrasta Michelle e o candidato do PL, o que pode indicar que Flavio pode melhorar sua posição se recuperar os votos das mulheres e evangélicos que perdeu ao confrontar Michelle.

Flávio Bolsonaro resiste nas cordas, por Elio Gaspari

O Globo

O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos sonhos de Lula

Flávio Bolsonaro foi para a convenção de seu partido, o PL, e só dele. Uma tragédia: o Centrão declarou-se neutro, leia-se aberto a um entendimento com outros candidatos, inclusive Lula. O bolsonarismo dinástico levou a direita para as cordas. O que se apresenta como uma situação de estabilidade de fato o é, mas o filme tende a terminar com Lula no Planalto pela quarta vez. O esfarelamento partidário de Flávio faz desta a campanha dos seus sonhos.

Em maio Lula havia ampliado de 3 para 9 pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio (40% a 31%). O Datafolha de sexta-feira indica que a vantagem seria de 6 pontos (48% a 43%). Um empate técnico, com Lula a três pontos da maioria absoluta. Se não acontecer nada, Lula ganha a eleição. Em agosto de 1989, Lula patinava e um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola era fava contada. Lula tomou o lugar de Brizola e foi derrotado.

Medo e delírio em Maceió, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-seminarista, tesoureiro de Collor usava citações em latim ao dissertar sobre corrupção

“Na longa noite em que seria morta, Suzana Marcolino foi ao salão de beleza Liu’s, no centro de Maceió, pintou as unhas na cor renda — discreta variação do branco — e pediu um leve corte nos cabelos”. É assim, com tintas de Garcia Márquez, que Xico Sá inicia a crônica de uma morte anunciada: a de Paulo César Farias, o PC. Ele e a namorada Suzana foram encontrados com balas no peito na manhã de 23 de junho de 1996. Era o fim trágico do maior vilão da Nova República: o tesoureiro responsável pela ascensão e queda do presidente Fernando Collor.

É preciso entender o que os números querem dizer, por Dorrit Harazim

Por O Globo

Por mais essenciais que sejam, estatísticas acabam passando ao largo de quem não tem tempo para dar vida a abstrações

Cada nova edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública merece atenção e esquadrinhamento, sobretudo porque o retrato final continua a apontar para uma sociedade doente — doente de violência. Não foi diferente na semana passada, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Publica divulgou os dados do seu 20º levantamento nacional. No geral, houve melhora considerável: pela primeira vez em duas décadas o número de mortes violentas por 100 mil habitantes ficou abaixo de 20. Em 2017, era bem pior: 31,2 mortes por 100 mil habitantes. Soa pouco? No Japão, esse índice fica em 0,3; na Itália e Coreia do Sul, não chega a 0,7; e nos Estados Unidos, estacionou em torno de 4,0 por 100 mil habitantes.

Sombra de Bolsonaro e Milei refletem isolamento de Flávio, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador assume sobrenome em evento com ares de festa de família, com direito a fantasma digial do pai

Protagonismo inédito a presidente estrangeiro em convenção é coerente com a submissão ao trumpismo

A convenção do PL que ratificou o nome de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência neste sábado (25) foi um espetáculo inusual em que o senador fluminense enfim abraçou seu sobrenome e destacou como grande cabo eleitoral um presidente impopular de nação estrangeira.

Sem grandes novidades retóricas a apresentar, Flávio comandou um evento com ares de festa de família —do tipo lacrimosa para fotos, dado o emprego de lenços para enxugar suas lágrimas em São Paulo.

"Eu sei a responsabilidade que meu sobrenome carrega. Eu te amo [meu pai]", discursou o agora candidato, que enfrenta uma estagnação nas pesquisas eleitorais. No mais recente levantamento do Datafolha, ele marca 32% ante 40% no primeiro turno contra o presidente Lula (PT).

Flávio prova que Ustra e Banco Master são faces da mesma moeda, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Discurso de Flávio Bolsonaro reforça seu alinhamento com a estratégia golpista do pai

Atuação do senador desafia a divisão entre bolsonarismo radical e centrão

Para quem gosta de dividir a direita entre fisiológicos do centrão e radicais bolsonaristas, Flávio Bolsonaro é um problema: é tão golpista quanto o pai e tão, digamos, enrolado quanto os Ciros Nogueiras deste mundo.

Em nome da responsabilidade jurídica, devo dizer que ainda não está provado que Flávio Bolsonaro é ladrão.

Tudo o que sabemos é que Flávio empregava parentes de um miliciano que participavam de um esquema de rachadinha, pagou por uma mansão com empréstimo camarada do Banco de Brasília (o mesmo do caso Master), pediu 130 milhões para o dono do Banco Master para fazer um filme que ninguém até agora explicou como pode custar tudo isso, certificou-se de que o dinheiro circularia pelos Estados Unidos, onde seu irmão Eduardo conspira contra o Brasil, e, descobrimos esta semana, emitiu notas fiscais por serviços prestados ao ecossistema Master.

Mais que nunca, pensar, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

A razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial ao mistério do mundo

As máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica

IA anda à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.

Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.

O país dividido, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra impacto eleitoral de mudanças sociodemográficas registradas entre 2002 e 2022

Os menos escolarizados apoiam mais o PT; população com ensino médio pende mais para a direita

Vinte anos não é pouco na vida de uma pessoa, mas é um intervalo de tempo relativamente curto na história de um país. É por isso que impressiona quanto o Brasil mudou nas duas décadas que separam a primeira eleição de Lula, em 2002, da mais recente, em 2022. Essas mudanças são o cerne de "O País Dividido", do cientista político Jairo Nicolau.

O perfil sociodemográfico do país passou por transformações importantes. O Brasil ficou mais velho, mais instruído e menos pobre. O eleitorado feminino se tornou preponderante. A proporção de evangélicos cresceu significativamente, à custa da fatia de católicos. Nicolau mostra, com base empírica e não em achismos, o impacto que essas transformações tiveram no voto.

Candidatos enfrentam o dilema de ir, ou não, aos debates, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Indo, o favorito se arrisca a perder a liderança por obra de ataques, tropeços e imprevistos

Não indo, vira personagem oculto da cadeira vazia e transmite imagem de arrogância e covardia

O dilema é recorrente entre candidatos favoritos nas pesquisas, ainda mais quando presidentes: ir ou não ir aos debates. Portanto, normal que a equipe de Luiz Inácio da Silva (PT) divulgue que ele cogita não ir. Segundo a conta do custo-benefício, o balão serve de ensaio ao teste.

Indo, o candidato se arrisca a tropeços que o façam perder a liderança e aos ataques dos demais oponentes que o coloquem numa posição de isolamento, mas também pode ganhar a parada e consolidar o favoritismo.

Poesia | Grande são os Desertos, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Gal Costa - Folhetim, de Chico Buarque