quinta-feira, 11 de junho de 2026

Dez Brasis para pagar a conta das pautas-bomba do Senado, por Julia Duailibi

O Globo

Cada um pensa na própria fogueira, e o Tesouro que lide com o incêndio na floresta

Em ano de eleição, uma máxima da política brasileira segue impiedosa: farinha é pouca, meu pirão primeiro. Nos últimos dias, o Senado, tido como “casa da moderação”, pôs para andar diferentes pautas-bomba como se não houvesse amanhã. Os senadores até se esforçam para imprimir caráter republicano às votações, mas a verdade é uma só. A preocupação que os norteia hoje, independentemente da conta bilionária que fica para o país, é a reeleição.

Num consórcio que vai do PL ao PT, cada senador faz um cálculo particular, segundo o qual tudo bem aprovar uma pauta-bomba aqui e outra acolá, desde que elas o ajudem a se segurar na cadeira por mais oito anos. Ninguém vê tamanho empenho para aprovar pautas de interesse coletivo como a PEC da Segurança.

De nada adiantou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, irem até os senadores anteontem para pedir, na prática, que tenham responsabilidade fiscal, uma vez que as pautas-bomba podem ter impacto fiscal de R$ 270 bilhões nos próximos anos. No dia seguinte à visita, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovava o aumento do piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas de R$ 3.636 para R$ 13,6 mil para jornada de 20 horas semanais. Um impacto de R$ 47 bilhões em um ano. E essa é apenas uma das mais de 30 categorias que, apadrinhadas por diferentes senadores, pressionam por piso salarial ou reajuste, a ponto de o próprio presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), nesta semana, admitir em plenário: “Ou votamos todas ou não votamos nenhuma”.

São garis, fisioterapeutas, enfermeiros e outros profissionais que servem o país e devem ser remunerados dignamente. Seria muito bom que todas as demandas deles pudessem ser atendidas, mas a realidade não é essa, e os homens públicos deveriam saber lidar com as restrições do mundo real. Não dá para atender a todo mundo ao mesmo tempo, porque fulano ou beltrano quer se eleger. Cada um pensa na própria fogueira, e o Tesouro que lide com o incêndio na floresta.

“Não estamos falando de problema de eleição. Estamos falando de um segmento que carrega o Brasil”, disse a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) ao defender a aprovação de outra pauta-bomba ontem no Senado. A renegociação das dívidas dos produtores rurais pode, segundo o governo, ter impacto de mais de R$ 800 bilhões em 13 anos. O agro também presta enorme contribuição ao país, assim como agentes comunitários de saúde, médicos, enfermeiros e garis. Tem levado o crescimento da economia muitas vezes nas costas. Mas o que vale para os outros setores vale também para o agro: o orçamento é finito.

É difícil convencer um político a ter responsabilidade fiscal quando está em jogo seu instinto de sobrevivência eleitoral. Até Alcolumbre, que tem interesse em atender aos senadores para pavimentar sua reeleição à presidência da Casa em 2027, manifestou-se sobre o impacto das demandas: “Não dá para criar dez Brasis para pagar a conta”.

A melhor definição, no entanto, foi feita, reservadamente, por um dos parlamentares mais influentes do país: “Quer quebrar o Brasil? Reúna os senadores”.

  

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