Nova tarifa dos EUA requer aliança do setor privado
Por O Globo
Parceria entre exportadores do Brasil e
importadores americanos é a melhor estratégia para pressionar Trump
A política protecionista do presidente
americano Donald Trump teve
novo capítulo nesta sexta-feira, quando passou a valer uma tarifa de até 12,5%
para 60 países, o Brasil inclusive. A alegação é de omissão na imposição e no
cumprimento de proibição de importação de produtos feitos a partir de trabalho
forçado. O argumento é que parceiros comerciais americanos compram produtos de
países com práticas trabalhistas deletérias, incentivando a competição desleal
e prejudicando os Estados Unidos.
Entre os atingidos estão Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia e a União Europeia (UE). A fragilidade das acusações é evidente, pois a maioria dos atingidos segue as regras internacionais, e não existe uma negligência disseminada em escala global. Para as mercadorias brasileiras, a última sobretaxa se soma aos 25% anunciados na semana passada, também com justificativas débeis. Ao governo brasileiro resta continuar buscando uma negociação aceitável. Os exportadores, porém, têm outra alternativa. Podem considerar a viabilidade de se associar a importadores americanos para questionar as decisões em tribunal nos Estados Unidos ou tomar outras medidas que façam Trump reconsiderá-las.
No ano passado, ele impôs as barreiras do
primeiro tarifaço, usando como base uma lei de emergência da década de 1970 que
não mencionava o termo tarifas. Ao examinar a questão em fevereiro deste ano, a
Suprema Corte tornou nulos os decretos de Trump. O presidente, segundo a
maioria dos ministros, tinha extrapolado suas atribuições. Incansável na
disposição de manter a agenda protecionista, a Casa Branca partiu para o plano
B e recorreu à aplicação da seção 301 da Lei de Comércio, que autoriza o
governo a apurar a existência de práticas desleais e prejudiciais. A partir de
investigações realizadas por técnicos do Escritório do Representante Comercial
dos Estados Unidos (USTR), o governo decide o que fazer. Foi esse o caminho
seguido na tarifa anunciada na semana passada e na de ontem.
Para defender a imposição de sobretaxa de
25%, o USTR fez uma lista de acusações. Entre os alvos, o Pix. A instituição
americana afirmou que o Banco Central brasileiro “desfavoreceu provedores de
serviços de pagamentos eletrônicos dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que
favorece seu sistema nacional”. Ora, tal interpretação não faz o menor sentido.
Em relatório recente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) enalteceu o sistema
de pagamento brasileiro, que descreveu como “catalisador de inclusão e
concorrência”. Outro argumento usado pelo governo americano foi o desmatamento
no Brasil, sendo que nos últimos anos tem havido uma redução drástica da área
destruída.
A judicialização, é verdade, tem os seus
riscos. É pequeno o número de vezes em que medidas tomadas com base em análises
do USTR foram revertidas. Processos no Tribunal de Comércio Internacional, que,
apesar do nome, tem jurisdição apenas no território americano, podem resultar
em custos altos e se estender por muito tempo. Tudo isso deve ser pesado. O
caminho da Justiça pode ser tortuoso. O certo é que Trump só mudará de rumo por
pressão interna. Por isso a aliança entre exportadores brasileiros e
importadores americanos é a melhor estratégia à disposição.
Uso do impedimento semiautomático no futebol
brasileiro é um avanço
Por O Globo
Tecnologia, usada na Copa do Mundo e em ligas
estrangeiras, dá mais rapidez às checagens
A despeito do atraso, é bem-vinda a adoção do
impedimento semiautomático, a partir deste sábado, na Série A do Campeonato
Brasileiro. Prometida pela CBF no
ano passado, a novidade, que dá maior rapidez e transparência às checagens,
estreia com a competição já em andamento. Não há dúvida de que representará um
avanço em relação ao modelo atual, em que se leva um tempo enorme para traçar
as linhas das posições dos atletas, retardando a partida. Nada mais frustrante
para jogadores e torcedores do que pausar a comemoração do gol à espera do
veredito do VAR.
É verdade que não será exatamente igual ao
sistema usado pela Fifa na Copa do Mundo, em que um sensor na bola, aliado a
outras ferramentas tecnológicas, permitia saber quase imediatamente se o
jogador estava impedido. Mas é provável que melhore bastante. A empresa que
presta serviço à CBF é a mesma que atua na Premier League, da Inglaterra, além
de ligas da Bélgica e do México. O modelo é usado em pelo menos 65 estádios no
mundo todo. Nas arenas onde foi implantado, houve redução média de 33% no tempo
de análise em relação ao VAR tradicional.
O sistema funciona com um aparato tecnológico
que inclui câmeras de última geração instaladas nos estádios e um software que
rastreia os atletas e a bola em tempo real, captando cem quadros por segundo.
Assim, são identificados os jogadores de ataque e de defesa mais próximos da
linha de fundo e o ponto do último contato com a bola. Tudo precisa ser
validado pelo VAR.
A tecnologia representa um ganho para o futebol, embora,
por vezes, seja criticada sob alegação de interferência excessiva. Mas trata-se
de uma tentativa de tornar as decisões mais justas. Na Copa de 1986, pré-VAR, o
craque argentino Diego Maradona fez um gol de mão que foi validado pela
arbitragem (ele chamou de “a mão de Deus”).
Esses avanços tecnológicos são bem-vindos,
mas resolvem apenas parte do problema. A maior responsabilidade continua sendo
dos árbitros. E aí a situação se complica. No último Brasileirão, erros
grosseiros acabaram monopolizando as atenções em detrimento do jogo. Nem
quadros da Fifa escaparam de punições pelas patacoadas. Houve casos em que,
mesmo chamados pelo VAR, mantiveram a decisão. É preciso prepará-los melhor
para atuar com e sem a ajuda da tecnologia.
Iniciada a implantação do impedimento semiautomático, a CBF deverá agora acelerar a adoção de outras regras que se mostraram bem-sucedidas na última Copa. Uma delas é o combate à “cera”, as manobras feitas pelos atletas para retardar o jogo quando estão em vantagem, com medidas como os cinco segundos para cobrar lateral e tiro de meta, dez segundos para sair de campo em substituições, e um minuto fora de campo após atendimento médico. Por ora, a expectativa é que a norma seja implementada a partir da 23ª rodada do Brasileirão. É fundamental que o país adote as melhores práticas em vigor no mundo. Quem mais ganhará com isso é o torcedor, que assistirá a partidas mais justas e menos enfadonhas.
Fogo recua, mas El Niño e Europa acendem
alerta
Por Folha de S. Paulo
Queda de 58% na área incendiada no Brasil em
2025 decorre da redução do desmatamento e de clima favorável
Situação no bioma amazônico contrasta com a
do cerrado, que sofre assédio mais intenso do agronegócio sequioso por novos
campos e pastagens
O retrospecto da governança ambiental no
Brasil não recomenda excesso de otimismo com boas notícias, como o recuo de 58%
na área florestal queimada em 2025. Com o advento de um
potente El Niño, este e o próximo ano poderão reeditar as cenas
dantescas ora observadas na Europa.
Há o que comemorar, decerto. A queda
acentuada de 302 mil km² em 2024 para 127 mil km² incinerados no ano passado se
deveu em grande parte à reversão dos incêndios na amazônia,
sempre foco de bastante atenção por ser a maior floresta tropical do planeta e
abrigar tesouro sem par de biodiversidade.
O próprio clima parece
ter contribuído, assinalou Ane Alencar, diretora de ciências do Instituto de
Pesquisa da Amazônia (Ipam) e coordenadora do MapBiomas Fogo, programa que
produziu os dados animadores.
A época de chuvas se atrasou de 2024 para
2025 e invadiu os meses de abril e maio, dificultando a ignição de queimadas
num bioma cuja umidade natural já torna a mata pouco inflamável.
Concorreu ainda para o resultado a redução de
11% no desmatamento da
Amazônia Legal no mesmo período. Muitas vezes o fogo se alastra para a floresta
desde as leiras de troncos e galhos sobre o solo, depois queimadas para
eliminação de resíduos. Resultado: menos focos de ignição junto à mata menos
seca.
A situação no bioma amazônico contrasta com a
do cerrado,
savana no centro do Brasil que sofre assédio mais intenso do agronegócio sequioso
pela abertura de novos campos e pastagens. Com metade da área total do
congênere mais chuvoso ao norte, ele concentrou 69% de todo o território
queimado no país no ano passado.
Se a variação do clima contribuiu para conter
a inflamabilidade da floresta amazônica, no futuro próximo poderá acarretar o
oposto. A chegada do El Niño —fenômeno causado pelo aquecimento acima do normal
das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial— deverá reduzir a
precipitação no Norte, ressecando a vegetação.
A repetição de estiagens severas e incêndios
mais e mais intensos, nos últimos anos, aumenta a vulnerabilidade ao fogo.
Tudo somado e subtraído, a perspectiva não
autoriza relaxar políticas públicas de controle do desmatamento e de queimadas
—antes o contrário.
Embora não seja possível atribuir diretamente
ao El Niño a onda de calor que varreu a Europa, causando dezenas de milhares de
mortes, ela criou condições propícias para incêndios que assolam França e
Espanha, principalmente, no momento.
Nada menos que 2.544 km² já sucumbiram
às chamas nos
países mediterrâneos, superfície 70% maior que a da capital
paulista. O dado que alarma a Europa se esfuma, entretanto, quando cotejado com
os 127 mil km² engolidos pelas chamas no Brasil —uma área equivalente à metade
do estado de São Paulo.
Nem os bairros nobres escapam
Por Folha de S. Paulo
Avanço do crime organizado em áreas centrais
das capitais do RJ e de SP expõe limites do policiamento
Em São Paulo, Pinheiros lidera registros de
roubos de celulares; facções já não vivem só do tráfico e ocupam novos espaços
nas ruas
A violência assume
formas distintas conforme o território. Na cidade de São Paulo,
homicídios concentram-se nas periferias, enquanto furtos e roubos, em regiões
mais centrais.
O que chama atenção, porém, é o avanço da
criminalidade em áreas historicamente vistas como mais seguras, tanto na
capital paulista quanto no Rio de
Janeiro.
Segurança é direito de todos. O Estado,
porém, nunca a garantiu de maneira igualitária. Agora, revela-se incapaz de
assegurá-la até em bairros que contam com maior presença do poder público e
melhores condições econômicas.
Dois episódios recentes ilustram tal quadro.
No Rio, a prefeitura anunciou neste mês o envio de 320 agentes municipais para
fiscalizar a orla entre o Leme e o Leblon. A medida pretende combater comércio
irregular e conter a atuação de facções que, segundo as autoridades, passaram
a cobrar taxas ilegais de ambulantes para explorar o calçadão.
Em São Paulo, embora os indicadores gerais de
criminalidade tenham caído, o afluente bairro de Pinheiros lidera os registros
de roubos e furtos de celulares no primeiro trimestre de 2026, com
média de 23 ocorrências diárias, alta de 8% em relação ao mesmo
período de 2025, segundo levantamento da Folha com base em dados da
Secretaria de Segurança Pública do estado.
Os dois casos evidenciam um fenômeno comum: o
avanço do crime
organizado sobre atividades legais e ilegais da economia.
Facções já não vivem só do tráfico de drogas.
Também exploram comércio ambulante, serviços clandestinos, extorsão e redes de
comercialização de celulares roubados, ampliando sua influência sobre a vida
cotidiana.
Mais policiamento ostensivo pode inibir
delitos ocasionais, mas não basta para enfrentar organizações criminosas
estruturadas. A resposta passa por inteligência policial, políticas integradas
entre forças de segurança, investigação financeira e capacidade de desarticular
as redes que sustentam essas atividades.
As disputas entre facções figuram entre os
principais vetores da violência na América Latina, região que concentra 41
das 50 cidades mais violentas do mundo, segundo relatório da ONG
mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal. O Brasil
dificilmente escapará dessa realidade enquanto tratar o crime organizado apenas
com ações emergenciais.
Quando até bairros tradicionalmente protegidos passam a sentir seus efeitos, fica ainda mais claro que o desafio deixou de ser localizado e exige uma estratégia permanente de Estado.
O PCC está dentro da PM de SP
Por O Estado de S. Paulo
Operação do MPSP aponta estreita relação
entre coronéis da cúpula policial paulista e membros da facção. Não há política
de segurança pública que sobreviva a esse tipo de contaminação
A Operação Janus, deflagrada na terça-feira
passada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), expôs como o Primeiro
Comando da Capital (PCC) lava dinheiro e resolve suas querelas por meio dos
chamados “tribunais do crime”. É trabalho de investigação sério, fruto da
abnegação de servidores comprometidos com o melhor interesse público e de anos
de acúmulo de provas colhidas em operações anteriores, como Bazaar, Recidere e
Salus et Dignitas, por exemplo. Mas o que a Operação Janus revelou de mais
perturbador, por incrível que pareça, não está nas ruas. Está dentro do Estado
– mais especificamente, na cúpula da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP).
Segundo o Gaeco, dois operadores do núcleo
financeiro do PCC, presos no curso da operação, mantinham relação estreita com
os coronéis Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho. Este último,
pasme o leitor, é ex-comandante-geral da PM-SP e da Rota – a mais reconhecível
tropa de elite da polícia de São Paulo. Mensagens obtidas pelas autoridades
indicam que um dos membros do PCC buscava dinheiro “para pagar a polícia”. Uma
planilha típica do esquema de propina conhecido como “ticketagem” registra
pagamento a um coronel identificado como “Patrício”. Um grupo de WhatsApp
intitulado “Aniversário General”, com diálogos entre o PCC e a cúpula da PM
paulista, sugere um convívio indecente, para dizer o mínimo, entre criminosos e
agentes supostamente a serviço da lei.
Nenhum dos coronéis citados foi alvo direto
desta fase da Operação Janus. É bom que se registre isso porque suspeita,
apuração e condenação são coisas distintas num Estado de Direito, e este jornal
não antecipa a culpa de ninguém. Mas também nunca houve espaço para ingenuidade
nesta página. As suspeitas que recaem sobre os policiais militares, levantadas
pelo MPSP, são gravíssimas.
Se organizações criminosas de contornos
mafiosos como o PCC cresceram a ponto de disputar à bala território com o
Estado brasileiro, é porque encontraram, ao longo do tempo, espaço dentro do
próprio aparato estatal para prosperar. Não há outra explicação racional. E o
preço da leniência ou da cumplicidade nunca foi baixo, assim como alta é a
conta que recai sobre a sociedade: por mais bem formulada que seja, jamais
haverá política de segurança pública que sobreviva a esse tipo de contaminação.
Noutras palavras: pouco adianta reforçar efetivos, comprar equipamentos, criar
varas judiciais especializadas ou aperfeiçoar leis de combate ao crime
organizado se no topo da cadeia de comando das forças públicas houver quem
venda seus serviços ao inimigo.
Um só oficial disposto a se associar ao PCC
ou simplesmente fechar os olhos em troca de propina compromete o esforço de
milhares de outros policiais que cumprem seu dever com honestidade e sob risco
de sua própria vida. Ou seja, a corrupção policial é uma violência abominável
contra o cidadão comum, mas também contra os próprios colegas do corrupto.
Faz tempo que o PCC deixou de ser uma
quadrilha de assaltantes e traficantes de drogas escondida nos porões do
sistema carcerário paulista. É uma organização mafiosa com sofisticação
financeira, presença na economia formal, na política institucional e, como
mostrou a Operação Janus, com capacidade para cooptar policiais nos escalões
mais altos da segurança pública de São Paulo. Enfrentar essa ameaça exige, em primeiro
lugar, que o Estado volte o seu olhar para dentro com a mesma disposição que
emprega suas forças armadas contra o crime nas ruas – sobretudo nas periferias
da capital paulista.
Por meio de nota, a PMSP afirmou ter
participado da operação e reiterou seu compromisso com o combate ao crime
organizado. É o mínimo. Espera-se, contudo, que a corporação demonstre, com
transparência e rigor, que não hesitará em depurar seus próprios quadros,
sobretudo em posições de comando. Espírito de corpo nessa hora é o mesmo que
cumplicidade com o PCC.
Se há algo de auspicioso nessa história
sombria, é constatar que o MPSP e boa parte da PM paulista foram capazes de
desvendar essa teia criminosa com destemor. Ainda há servidores que honram o
múnus público. E é neles que reside a esperança de que o Estado consiga, um
dia, expulsar de suas entranhas os bandidos que se travestem de guardiões da
lei.
Flávio deve explicações ao País
Por O Estado de S. Paulo
Como candidato, Flávio precisa esclarecer seu
envolvimento com Vorcaro, cuja investigação acaba de ser autorizada pelo STF.
Não basta dizer que se trata de relação privada
É gravíssimo o fato de um investigado pela
Polícia Federal concorrer à Presidência da República. Pois é o que temos para o
momento. Anteontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça
determinou a abertura de inquérito para apurar o repasse de R$ 61 milhões do
dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
dinheirama supostamente destinada a financiar um filme sobre o ex-presidente
Jair Bolsonaro. A principal suspeita é de corrupção, entre outros crimes.
É digno de nota que a ordem tenha sido dada
por Mendonça, indicado ao STF pelo próprio Jair Bolsonaro. Há anos, o clã
Bolsonaro repete a cantilena da “perseguição política”. Esse episódio a
desmonta. Um ministro indicado pelo pai do investigado, com respaldo da
Procuradoria-Geral da República, não hesitou em autorizar as apurações contra o
filho de quem o levou à mais alta corte de Justiça do País. É, no mínimo, uma
demonstração de independência de Mendonça, e torna ainda mais ridículo o
discurso dos Bolsonaros segundo o qual eles são vítimas dos inimigos
encastelados no establishment, que eles dizem enfrentar.
Também convém registrar que Flávio não é
culpado de nada até que se prove o contrário. Este jornal tem a defesa do
Estado de Direito como um de seus valores mais caros. Mas, como candidato a
presidente, o senador precisa explicar ao País a natureza de seu envolvimento
com Vorcaro. Flávio não pode simplesmente alegar que se trata de relação
privada, na qual ninguém teria o direito de se meter. Ora, quem pretende
governar o Brasil precisa mostrar, da forma mais transparente possível, que não
tem nada a esconder.
Em postagens em suas redes sociais e
numa live transmitida
na noite do dia 23 passado, Flávio reagiu às suspeitas que recaem sobre ele
dizendo que fez apenas negócios privados – como se isso o isentasse de
escrutínio. Ora, quem não deseja que seus negócios privados sejam
esquadrinhados pela Justiça, pela imprensa e pela opinião pública deve ficar
longe da vida pública. Não se pode ter o melhor dos dois mundos. Não se pode
lucrar com transações privadas e, ao mesmo tempo, reivindicar privacidade
separando essas transações do exercício do múnus público.
Em maio, quando veio a público o áudio em que
Flávio, de viva voz, pede diretamente a Vorcaro o repasse de R$ 134 milhões –
dos quais recebeu cerca de metade –, o senador primeiro negou que tivesse
qualquer relação com o banqueiro. Depois, confrontado com as provas, Flávio
admitiu que pediu dinheiro mesmo, mas exclusivamente para bancar o tal filme
sobre o pai.
Considerando-se que o filme teria custado
três vezes mais que o premiado Ainda
Estou Aqui, considerando-se as muitas suspeitas de lavagem de
dinheiro contra Flávio Bolsonaro e considerando-se a quantidade de vezes que o
senador mentiu sobre sua relação com Vorcaro, abundam dúvidas sobre a real
destinação de parte dessa dinheirama.
Há mais de dois meses, Flávio prometera
apresentar “em 30 dias” uma demonstração contábil de como o dinheiro foi
empregado na produção do filme. Como sabemos, a tal planilha de gastos segue um
mistério.
A isso se soma outro fato que demanda
esclarecimentos: a emissão de notas fiscais pelo escritório de advocacia do
senador em favor de empresas ligadas ao Banco Master. Flávio alega que tudo não
passou de prestação regular de serviços advocatícios. Pode ser. Mas, se assim
foi, nada mais simples do que detalhar publicamente que serviços foram esses.
Não pode haver zonas de sombra sobre as atividades de quem aspira ao Palácio do
Planalto.
Flávio Bolsonaro não é um advogado nem um
empresário qualquer. É um senador e candidato à Presidência da República. A
dimensão de sua ambição requer uma envergadura moral e política correspondente
– a começar pela demonstração de um compromisso irrestrito com a transparência.
Por ora, o que se tem é uma candidatura que não se dedica a outra coisa senão a
desmentir uma profusão de denúncias.
O País exige respostas. E quanto mais Flávio
demorar a dá-las, mais pesarão sobre seus ombros as suspeitas que ele insiste
em classificar como “perseguição política” – tese puída pelo excesso de uso por
políticos enrolados com a Justiça.
É mesmo inaceitável
Por O Estado de S. Paulo
Acidente com trem em SP demanda ação firme do
governo, mas rever privatização seria absurdo
Diante do gravíssimo problema ocorrido em um
trem da Linha 12 (Safira), anteontem em São Paulo, os estatólatras
apressaram-se em culpar as privatizações pelo acidente, como se o serviço fosse
uma maravilha antes da concessão. Tal exploração política não surpreende, mas é
obviamente absurda.
Dito isso, o que aconteceu é absolutamente
inaceitável, como bem disse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas –
que anunciou a retomada temporária das Linhas 11 (Coral), 12 (Safira) e 13
(Jade) pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) por pelo menos 90
dias, conforme prevê o contrato de concessão. Além disso, Tarcísio criou um
gabinete de crise e exigiu investigações rigorosas contra a concessionária
Trivia Trens.
É preciso mesmo que o governo estadual atue
com firmeza para que acidentes como esse não voltem a se repetir e para que,
caso ocorram, haja um plano de contingência eficaz – o que não se viu no
episódio de quinta-feira, quando os usuários do trem, além do contratempo,
enfrentaram sérios riscos à sua segurança graças ao resgate absolutamente
improvisado.
Usuários sem orientação por parte dos agentes
da Trivia Trens passaram a circular pelos trilhos. De acordo com o
diretor-presidente da Agência de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp), André
Isper, “passageiros descendo na via é algo que não pode ocorrer”. Segundo ele,
foi “dada uma orientação errada e isso só já justificaria a nossa intervenção”.
Nas redes sociais, passageiros relataram
dificuldades para embarcar, catracas travadas e plataformas lotadas em diversos
pontos. O caos e o pânico só não resultaram em uma tragédia de maior proporção
porque a Polícia Militar atuou para retirar passageiros idosos e com
dificuldade de locomoção das estações, além de terem orientado o fluxo de saída.
Ademais, uma série de falhas após o acidente,
causado por uma pane elétrica seguida de incêndio, acabou por afetar boa parte
do transporte público da capital, gerando um cenário de confusão.
A situação nas Linhas 11, 12 e 13, além do
Expresso Aeroporto, só foi normalizada no final da manhã, um pesadelo para os
milhões de paulistanos que dependem do transporte público para se locomover.
A intervenção do governo paulista em uma
concessão na área de mobilidade é inédita no Estado, mas nesse caso era a única
medida adequada. Não é possível ficar inerte diante das cenas de desespero dos
paulistanos num trem pegando fogo.
Mas a temporada eleitoral tende a obnubilar a razão em situações como essa. Que fique claro: a eventual incompetência de uma concessionária de serviço público, como nesse caso, não autoriza ninguém a concluir que a iniciativa privada seja intrinsecamente incapaz de oferecer segurança e conforto aos usuários. Como não poderia deixar de ser, contudo, o candidato do PT ao governo, Fernando Haddad, correu a dizer que, se eleito, vai “rever os contratos” da concessão – senha para a reestatização. O nome disso é atraso.
A metástase do crime organizado
Por Correio Braziliense
A Operação Metástase revela uma cadeia
perversa no qual o prejuízo financeiro se soma ao risco sanitário e ao
sofrimento de pacientes que não podem esperar pela reposição dos produtos
A Operação Metástase, deflagrada pela Polícia
Civil do Rio de Janeiro, mais uma vez demonstra que o crime organizado há muito
deixou de se limitar ao tráfico de drogas. A investigação desarticulou uma
organização especializada no roubo de medicamentos oncológicos e
imunossupressores de alto valor, alguns destinados ao Sistema Único de Saúde
(SUS). O grupo teria movimentado mais de R$ 33 milhões em apenas um ano e
participado de pelo menos 40 roubos de cargas nos seis meses anteriores à
operação. Cinco pessoas foram presas e 97 mandados de busca e apreensão foram
cumpridos no Rio de Janeiro, em São Paulo, Goiás e Pará.
As cargas eram levadas ao Complexo da Maré,
com suporte territorial e armado atribuído, pela investigação, ao Terceiro
Comando Puro, que controla parte da favela. Os medicamentos eram interceptados
durante o transporte e encaminhados para áreas protegidas por criminosos
armados. Depois, passavam por um processo de armazenamento, separação,
fracionamento e redistribuição. A organização aliciava funcionários de
transportadoras para obter informações sobre rotas, horários e conteúdo das
cargas.
Em seguida, empresas de fachada,
intermediários, entregadores e "laranjas" davam aparência legal aos
produtos. Foram identificadas 25 empresas supostamente integrantes dessa
engrenagem. Algumas teriam comercializado os medicamentos com hospitais
privados e até com instituições públicas, por meio de processos de contratação
nos quais os preços abaixo dos praticados regularmente no mercado
proporcionavam uma vantagem ilícita.
Do roubo à reinserção da mercadoria na
economia formal, esse percurso demonstra o grau de sofisticação alcançado pelo
crime organizado. Trata-se de um complexo criminoso que opera com obtenção de
informações, armazenamento, transporte, contabilidade, distribuição, comercialização
e gestão financeira.
Os medicamentos oncológicos e
imunossupressores são destinados a pacientes em situação de grande
vulnerabilidade e precisam ser transportados e conservados sob condições
rigorosas. Portanto, não se está diante somente de um crime patrimonial contra
transportadoras, hospitais ou laboratórios, mas de uma ameaça direta à saúde
pública.
Primeiro, o Estado perde uma carga adquirida
com recursos públicos; depois, os produtos de origem criminosa retornam ao
próprio sistema por meio de fornecedores de fachada. É uma cadeia perversa no
qual o prejuízo financeiro se soma ao risco sanitário e ao sofrimento de
pacientes que não podem esperar pela reposição dos produtos. As operações
policiais não serão suficientes para impedir a repetição do esquema.
Notas fiscais, licenças sanitárias,
movimentações bancárias e registros logísticos precisam ser cruzados para
identificar empresas recém-criadas, fornecedores sem estrutura compatível com o
volume negociado e mudanças atípicas no padrão de compras. Auditorias
periódicas devem conferir estoques, prescrições, recebimentos e aplicações. As
transportadoras, por sua vez, precisam aprimorar protocolos de segurança e
restringir o acesso interno a informações sobre cargas sensíveis. Roubos devem
ser imediatamente registrados em uma base nacional acessível às polícias.
A lista de cuidados é longa, mas vital. A Operação Metástase deixa evidente que secretarias de Saúde, hospitais, ambulatórios, laboratórios públicos, compradores privados e agentes reguladores precisam reforçar e aperfeiçoar os mecanismos de controle de medicamentos, desde o fabricante à aplicação.
Brasil registra a menor taxa de insegurança
alimentar
Por O Povo (CE)
Um quarto da população mundial, segundo a
FAO, enfrentou insegurança alimentar moderada ou grave em 2025. Conflitos no
Oriente Médio e choques nos preços de energia e fertilizantes contribuíram para
o agravamento do problema
Relatório "O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026",
divulgado nesta semana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e
a Agricultura (FAO), trouxe uma importante notícia para o Brasil.
O País alcançou a menor taxa de insegurança
alimentar severa desde o início da série histórica da FAO. Segundo o documento,
o índice caiu para 0,6% da população no triênio 2023-2025, consolidando a saída
do País do Mapa da Fome, retirando cerca de 16,7 milhões de brasileiros
da situação de privação alimentar grave.
O índice ficou abaixo de 2,5%, a proporção
limite da população em vulnerabilidade alimentar para um país ficar
fora do Mapa da Fome. O percentual de pessoas que não pode pagar por uma
alimentação saudável também apresentou queda no Brasil, ficando em 21,1% no
triênio encerrado em 2025.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência
Social, Família e Combate à Fome (MDS) atribui os resultados positivos a vários
fatores econômicos. Informativo do MDS cita alta do Produto Interno Bruto (PIB)
no triênio, redução do desemprego, controle da inflação e o rendimento
médio mensal familiar per capita, que alcançou R$ 2.264, em 2025, maior valor
da série histórica (desde 2012), de acordo com o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE).
Em nível mundial, também houve avanços no
número de pessoas que saíram da insegurança alimentar. Segundo a pesquisa, a
proporção da população mundial em situação de fome diminuiu para 7,8% em 2025,
frente a 8,1% em 2024 e 8,6% em 2022. Em números absolutos, corresponde a cerca
de 645 milhões de pessoas afetadas pela fome em 2025, menos 14 milhões em
relação ao ano anterior e menos 43 milhões em 2022.
Em 2025, um quarto da população mundial,
segundo a FAO, enfrentou insegurança alimentar moderada ou grave. Conflitos
no Oriente Médio e choques nos preços de energia e fertilizantes
contribuíram para o agravamento do problema.
A melhoria é lenta, porém sustentada, mas a
FAO alerta que o avanço ainda é frágil, insuficiente e distribuído de forma
desigual entre os Estados, comprometendo o alcance dos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS), até 2030.
Apesar dos progressos globais, a recuperação
permanece desigual entre regiões. Ásia, América Latina e Caribe registraram
melhorias constantes nos últimos anos. A África concentra o maior número
absoluto de pessoas com fome, num contexto de rápido crescimento populacional.
Mesmo com os avanços, ainda existe um número inaceitável de pessoas vivendo com dificuldade em ter acesso a alimentos, no Brasil e no mundo, como registra o documento da FAO. Além disso, tanto a desigualdade entre regiões quanto as internas, verificadas em cada país, são problemas que precisam ser enfrentados - como no Brasil, no qual a pobreza diminui, mas a desigualdade permanece.

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