Revista Veja
Eleitores já não confiam no governo, no Congresso nem no Judiciário
Nunca tantos desconfiaram tanto do governo, do Legislativo e do Judiciário. Há
uma miríade de sondagens de opinião demonstrando que, para a maioria dos
eleitores, os governos têm sido ruins, o Supremo
Tribunal Federal não merece confiança e o Congresso representa
mal o povo. Na média, quase sete em cada dez brasileiros que vão às urnas em
outubro julgam de forma negativa os políticos, inclusive aqueles que aparecem
vestindo togas nos plenários dos tribunais superiores.
Quatro décadas depois da redemocratização, as utopias estão pulverizadas, a conexão dos representantes com os representados está rarefeita e o Estado passou a ser dirigido como se fosse propriedade privada. Esse processo de liquefação política tem contornos bem delineados em dois livros recém-lançados.
No instigante A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia, Joaquim Falcão retrata a origem e a evolução de uma espécie nova de regime político, um tipo “de populismo sem líder definido”: a oligarquia dos Três Poderes que nasce, se alimenta, se apropria e atua para se perpetuar no domínio do Estado.
É o jogo principal, ele acha, e o mais
peculiar do Brasil hoje. No olhar de Falcão, desenha-se um governo de poucos
para muitos, em que castas se reproduzem no Executivo, no Legislativo e no
Judiciário. Se unem, celebram pactos para autopreservação, se escondem e se
revelam, por exemplo, em episódios como o da corrupção do Banco Master.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro e associados
atravessaram os últimos oito anos empenhados em luxuoso investimento na
construção de uma rede de proteção no governo, no Congresso e no Judiciário.
Vorcaro está preso, mas o caso Master segue travado na falta de respostas
objetivas e detalhadas ao menos a duas perguntas-chave: como e por que se
permitiram fraudes em série por quase uma década, e para onde escoou a grana
dessa maracutaia bilionária?
“Eleitores já não confiam no governo, no
Congresso nem no Judiciário”
Falcão vê no enredo do Master com os Três
Poderes um indicador relevante de ameaça da oligarquia estatal ao Estado de
direito, sobretudo porque envolve parentelas e aliados da elite em Brasília,
nas capitais e nos principais colégios eleitorais de dezoito estados. Levanta a
hipótese de um conluio “em que um Poder deixa de controlar o outro,
propositadamente”, numa engrenagem de autoproteção e enriquecimento, com
garantia de reprodução de um mesmo benefício para todas as autoridades — como
se vê na novela dos penduricalhos salariais e no padrão de altíssima
concentração da renda nas folhas de pagamento do setor público.
Essa percepção é senso comum, demonstra o
livro O Novo Perfil Eleitoral do Brasil — Como Pensa e Como Vota o
Brasileiro. Os cinco autores (Paulo Bracarense, Sinoel Batista, Eros
Nascimento, Adriana Silva e Matheus Cabús) mergulham em pesquisas inéditas,
conduzidas durante um ano com 36 grupos de 246 eleitores em paralelo a outra
com 2 242 eleitores em
todas as regiões, sob patrocínio da Fundação João Mangabeira, que é
vinculada ao Partido Socialista Brasileiro (PSB).
Não sobram dúvidas sobre o colapso da
representatividade. Nada menos que 115 milhões de eleitores (73% do total)
consideram que seus interesses são mal representados pelo Congresso. Pouco mais
de 82 milhões (52%) repudiam o desempenho dos juízes e dizem não confiar no
Supremo Tribunal Federal. É paradoxal, mas 118,5 milhões (75%) reivindicam mais
democracia, enquanto 94,8 milhões (60%) acham que “o Brasil precisa de um líder
forte que não dependa do Congresso”. Mais de dois terços do eleitorado julga a
desigualdade social e de oportunidades como o principal problema nacional; no
entanto, a maioria (55%) ainda aposta no mérito individual como fator essencial
para ascensão social.
O realismo da sobrevivência na desconfiança é a chave dos livros A Oligarquia… e O Novo Perfil Eleitoral…, que se complementam. Ambos demonstram que não foi o eleitor que perdeu o mapa, a bússola e o rumo na construção de uma sociedade democrática. O fiasco é dos governos que transformaram o país em fábrica de pobreza. É também do Judiciário, percebido como politizado, elitista e zeloso do espírito de casta. E tem a contribuição dos partidos e do Congresso, onde 594 deputados e senadores não apenas se desconectaram do interesse público como passaram a atuar como empreendedores individuais. O eleitor, certamente, é o que menos culpa tem nessa liquefação política. Volta às urnas em dez semanas na esperança de, mais uma vez, conseguir empurrar a própria história.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

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