Revista Veja
O cenário será ainda mais desafiador que o de 2023
Não é a primeira vez que escrevo uma carta ao futuro presidente. Em 2021, afirmei nesta coluna que o eleito de 2022 teria menos poder — fosse quem fosse. O ambiente institucional havia mudado: orçamento impositivo, emendas turbinadas, autonomia do Banco Central. O mandato iniciado em 2023 encontraria condições muito diferentes das de FHC em 1995 ou de Lula em 2003. A palavra final pertenceria ao Legislativo e ao Judiciário. Sem ainda usar o termo, antecipei os contornos da pentarquia que governa o Brasil — Executivo, Legislativo, Judiciário, Banco Central e mídia.
Nesta segunda carta, três constatações. A
primeira: boa parte do que previ aconteceu. A segunda: com intensidade maior do
que previa. A terceira: o cenário futuro é ainda mais desafiador. O mandato de
Lula foi tumultuado. O Judiciário avançou no exercício do poder. O Legislativo
oscilou entre submeter-se e rebelar-se — chegou a rejeitar uma indicação ao
STF. O julgamento do 8 de Janeiro aprofundou a polarização. E dois
megaescândalos (Master e INSS) sacudiram a
política.
“Desejo ao novo governante não apenas sorte,
mas que tenha método, disciplina, diálogo e coragem”
No presente, os paradoxos. Lula não consolida
seu favoritismo, apesar de ter despejado mais de uma centena de bilhões de
reais neste ano e de exercer o poder há quase dezoito anos: lidera no primeiro
turno por pouco e tem dificuldade no segundo. Flávio, de resiliência admirável,
tampouco captura todo o antipetismo. Quase 30% do eleitorado não quer nenhum
dos dois — e não há terceira via competitiva. Mais grave: inexiste diálogo
institucional. Lula fez uma guerra por procuração contra o Legislativo usando
o STF;
o Congresso prioriza agendas eleitorais; o Judiciário oscila entre o ativismo e
a negação de sua crise de credibilidade.
Quais desafios enfrentará o futuro
presidente? Divido em seis vertentes. A fiscal: a dívida bruta atingiu 81,1% do
PIB (maior nível desde 2021) e a Selic segue em 14,25%. Sem corte proativo de
despesas, seguiremos com juros altos e desconfiança crescente. A institucional:
a composição do Congresso será decisiva para a governabilidade. No campo
externo: recompor a relação com os Estados Unidos.
Não há propostas que estimulem investimentos.
Pelo contrário: 232 empresas brasileiras já produzem no Paraguai sob a Lei de
Maquila, e o Brasil foi o país da América Latina que em 2025 mais perdeu
milionários que mudaram o domicílio fiscal, uma prova de desconfiança crescente
nas instituições do país. Existem ainda sérias dúvidas acerca da reforma
tributária, como o sistema será implantado no ano novo e os impactos no setor
produtivo. A nova reforma tributária agrada, sobretudo, aos advogados, pelo
volume crescente de disputas que irá ocorrer.
Outro tema é a segurança: o crime organizado
movimentou 453 bilhões de reais na economia formal em um único ano — mais que o
PIB de Santa Catarina. Impõe-se uma abordagem law and order, com a criação do
Ministério da Segurança Pública. Por fim, existe a imperiosa necessidade de uma
reforma administrativa: um governo com 36 ministérios não funciona. A
racionalidade impõe redução da estrutura e uma coordenação interministerial que
inexistiu neste governo e no anterior. Ao futuro presidente, não desejo apenas
sorte, mas que tenha método, disciplina, diálogo e coragem. A pentarquia não
perdoa improvisos.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

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