quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

E Lula ainda diz que isto não é campanha...

Leandro Colon e Flávia Foreque
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Na véspera, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a imprensa por atribuir tom eleitoral às medidas anunciadas no Encontro Nacional de Prefeitos. Ontem, último dia do evento, todos os holofotes da festa se concentraram na chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ungida por Lula para concorrer pelo PT à sua sucessão. A ministra discursou, anunciou subsídios para famílias pobres comprarem a casa própria, elogiou a plateia e arriscou uma convocação: “Nós precisamos de vocês”. O público parece ter gostado e houve até quem comparasse os estilos de Dilma e do chefe. “O discurso dela foi técnico, mas com informação”, resumiu o prefeito da cidade baiana de Tibagi, Sinval Silva (PMDB). No hall de entrada do Centro de Convenções, administradores municipais se apertaram em frente ao estúdio improvisado, onde tiravam fotografia e, por R$ 30, levavam um santinho feito à base de montagem, em que aparecem ombro a ombro e sorriso aberto ao lado do presidente da República e de sua fiel escudeira.

Vai um santinho eleitoral aí?

Prefeitos pagam para aparecer ao lado das imagens de Dilma e Lula. Dirigindo-se a cerca de 3,5 mil representantes de municípios, ela fez discurso de palanque e anunciou detalhes do plano de habitação

Aministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, teve ontem um dia de candidata. Ao encarar os 3,5 mil prefeitos que estavam em Brasília, ela fez um discurso técnico, mas com efeito político e eleitoral. Ciente de que precisará do apoio deles numa eventual campanha, Dilma disparou elogios aos presentes e fez uma revelação: a faixa de renda de quem será beneficiado pelo novo plano de habitação do governo federal. O programa, segundo ela, vai atender a quem recebe entre dois e dez salários mínimos (R$ 930 a R$ 4.650). Se a intenção era alegrar os prefeitos, Dilma conseguiu. A habitação tem sido ponto fraco dos municípios.

A esperada aclamação como candidata do PT não aconteceu, mas a ministra saiu do encontro aplaudida. Dilma, aliás, foi destaque num estande em que era possível fazer uma fotomontagem com a imagem dela e do presidente Lula. Os prefeitos fizeram fila para comprar uma. O serviço foi oferecido pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Na marcha dos prefeitos em abril do ano passado, a mesma lembrança foi vendida, mas apenas com a imagem de Lula. O preço era de R$ 20. Agora, foi acrescentada na mesma foto a ministra da Casa Civil, preferida do presidente para sucedê-lo na eleição de 2010. E o preço subiu para R$ 30.

Na avaliação das autoridades municipais, o discurso dela foi mais objetivo do que o de Lula. “Foi técnico, mas com informação”, avaliou o prefeito de Tibagi (BA), Sinval Silva (PMDB). Dilma deixou para o fim os detalhes sobre o plano de habitação. Até então, sabia-se da projeção de construir um milhão de casas, com subsídio do governo para quem entrar no programa. Ontem, a ministra foi além: revelou a faixa de renda e a ideia de estender o subsídio a todos os beneficiados, inclusive para os que ganham o teto (R$ 4.650). “Queremos que as pessoas tenham condições de pagar o aluguel e a prestação da casa. O subsídio será proporcional. Quanto maior a renda, menor será”, disse.

A ministra fez a defesa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e despejou elogios aos prefeitos: “Nós precisamos de vocês”. A resposta foi imediata. Prefeito de Ipiaú, na Bahia, Deraldino Araújo (PMDB) engrossou o coro de contentes. “Foi um discurso objetivo que aproximou o governo federal do municipal.”

Fotomontagem

Desde o início da manhã de ontem, uma tenda na área externa do Centro de Convenções oferecia a oportunidade de fazer uma fotomontagem com a imagem da ministra e do presidente Lula. A fotografia era entregue na hora. Apesar do preço salgado, R$ 30, houve fila. “Alegra o olhar”, incentivava o fotógrafo. O profissional não soube dizer quando a foto da ministra foi tirada. “Mas com certeza foi depois da plástica”, brincou.

E não foram apenas os políticos que se interessaram pelo mimo. O bancário Januário Rodrigues Neto pagou R$ 90 para garantir o registro de toda a família. “Eu pretendo colocar num álbum e guardar de recordação”, disse. Esse não vai ser o mesmo destino da foto do prefeito de Arenópolis (GO), Antônio Paião de Campos. “Vou mostrar para meus eleitores e familiares”, disse. “Ela traz um pouco de credibilidade porque é a candidata do presidente. E se amanhã for eleita, para a gente é bom”, concluiu.

“Foi a verdade”
Depois de criticar na terça-feira o noticiário que denunciava o “saco de bondades” do governo para atrair prefeitos à campanha de Dilma Rousseff, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, ao chegar ao Palácio do Itamaraty, que a imprensa escreveu a verdade. “Vocês não escreveram maldade. Nem bondade nem maldade. Foi a verdade”, afirmou Lula, sem explicar a que se referia. Bem-humorado, Lula negou que estivesse irritado com a imprensa. “Apenas comentei fatos relevantes”, afirmou. “Faz muito anos que não tenho raiva. Aprendi que quando a gente tem raiva só a gente sofre. Porque a pessoa de quem a gente tem raiva não fica nem sabendo”, respondeu o presidente.

Um dia na capital

Do Centro de Convenções, onde foi possível curtir um coquetel oferecido ao fim do primeiro dia de evento, muitos dos prefeitos que vieram a Brasília para o encontro nacional com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se jogaram aos prazeres oferecidos pela noite candanga. Depois de uma passagem rápida pelo hotel, para mudar o visual terno-gravata-pasta 007 por trajes mais despojados, a maioria deles iniciou a maratona noturna pelas churrascarias, onde muitos partidos ofereceram jantares.

A direção do Partido Progressista, por exemplo, fechou um restaurante do centro da capital, para receber seus correligionários. O convescote atraiu prefeitos, primeiras-damas e vereadores. Teve deputados federais e até ministro. Márcio Fortes, comandante da pasta das Cidades, prestigiou o evento. De lá, Fortes seguiu para a festa do PT, numa casa de eventos do Setor de Clubes Sul, onde também estavam reunidos muitos dos administradores e legisladores municipais. Ali perto, numa famosa churrascaria às margens do Lago Paranoá, havia mais confraternização.

Era prefeito para todo lado na cidade. Em grupos de quatro, cinco ou mais, muitos deles circularam a pé pelas calçadas do Setor Hoteleiro Sul, famoso ponto de prostitutas e travestis. Tomar uma cervejinha comprada na loja de conveniência de um posto de gasolina nas imediações e acompanhar todo o burburinho virou passatempo para alguns. Houve até quem arriscasse uma xavecada nas “meninas”.

Taxista
No ponto de táxi, a presença de tantos “estrangeiros” na capital era só satisfação. A rotatividade foi alta na noite dessa terça-feira. “Tem corrida pra todo lado: barzinho na Asa Sul, Asa Norte, Pontão… e até pra aqueles lugares”, enumerou um taxista, 30 anos. “Aqueles lugares” são as boates com shows de striptease localizadas na Asa Sul e no Setor de Indústrias Gráficas (SIG).

A reportagem fez uma ronda por volta da meia-noite para conferir como estava a frequência nos “inferninhos” da capital. Pelo visto, os “turistas” que se arriscaram no roteiro se preocuparam com a discrição: grupos menores, de dois ou três, para não chamar a atenção.

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