O Estado de S. Paulo
Cabo de guerra camufla expectativa de estourar a corda do Master em cima de integrantes da Corte
À luz do dia, ninguém concorda com
supersalários. Nem defende a falta de regramento mínimo na conduta de
autoridades. Nem combate propostas para deixar o Judiciário mais eficiente.
Ainda assim, esses temas alimentam a crise interna que habita o Supremo
Tribunal Federal (STF) desde o ano passado.
Enquanto alas distintas da Corte seguram essas bandeiras, tentam camuflar a falta de explicações convincentes sobre a participação de ministros nos negócios de Daniel Vorcaro. Desviar o foco desse assunto agora é mais eficaz para garantir a sobrevivência de ministros no próprio cargo do que para reaver a credibilidade do Supremo.
Quando a investigação sobre o Banco Master
bateu às portas de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, integrantes da Corte
pegaram em armas para se defender, proteger os aliados e tentar – cada um ao
seu modo – salvar a instituição. As armas se resumem à defesa do código de
ética, da reforma do Judiciário e do corte dos penduricalhos pagos a juízes.
O presidente do Supremo, Edson Fachin, que
não tem proximidade nem com Moraes nem com Toffoli, defende um código de ética
para orientar o comportamento dos ministros da Corte. Ele teria se incomodado
com o derretimento da imagem do tribunal a partir do comportamento de colegas.
O contra-ataque veio também em forma de
proposta. Flávio Dino, que não é aliado de Fachin, publicou artigos na imprensa
com ideias para uma reforma do Judiciário. O problema é que Dino não tem caneta
para encampar a proposta. Ele dependeria da iniciativa do presidente do
tribunal – que, por sua vez, elogiou o colega, mas nada fez de concreto por
ora.
Para Dino e aliados – Moraes e Toffoli, por
exemplo –, o tribunal não precisa de um código de ética, porque já existe um
que rege a magistratura. Esse grupo aposta em outra ferramenta de moralização
do Judiciário: a guerra contra os penduricalhos.
Não foi coincidência o grupo mais refratário
à ideia do código de Fachin ter dado decisões simultâneas e convergentes sobre
penduricalhos. Dino, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Moraes conseguiram,
assim, desviar as atenções para uma causa nobre em meio à tensão sobre o
Master.
Mas a imagem do STF não será recauchutada
ainda que vinguem, ao mesmo tempo, a reforma do Judiciário, o código de ética e
a desidratação dos contracheques dos juízes. A crise não termina enquanto
ministros da Corte resistirem a emprestar transparência e idoneidade aos
próprios atos. Isso inclui esclarecer até que ponto cada um está envolvido com
o escândalo do Master.

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