quinta-feira, 28 de maio de 2026

O fator Trump, por Merval Pereira

O Globo

Encontro com Trump reforça a imagem de Flavio e o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral

Se o encontro do pré-candidato à Presidência da República do PL, senador Flávio Bolsonaro, com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, não tivesse nenhuma importância, não provocaria tantos comentários e suposições por parte dos petistas. O encontro com certeza reforça a imagem dele — tanto que os petistas inventaram que a foto dos dois na Casa Branca é fruto de inteligência artificial. Não é qualquer um que tem acesso ao presidente americano, e sem dúvida foi uma boa jogada política — nada fundamental, mas o mantém na disputa, no foco da campanha eleitoral.

Nunca antes candidatos a presidente do Brasil correram atrás de um presidente americano para obter seu apoio. Houve momento em que Lula, ainda tachado de comunista por seus adversários, enviou um nome de peso, o então ministro nomeado para a chefia da Casa Civil, José Dirceu, para esclarecer que o novo governo pretendia manter boas relações com Washington. O pragmatismo petista em relação aos Estados Unidos nunca impediu, porém, que a política externa brasileira privilegiasse governos de esquerda ou de tradição comunista, como a China, com seu capitalismo estatal, e até a Rússia, que de comunista não tem nada, mas mantém tradição de se opor aos Estados Unidos.

Hoje, com o comportamento errático de Trump, e a mania de intervenção noutros países, é preciso equilíbrio para manter uma relação respeitosa, mas não subserviente, com os Estados Unidos, e o governo petista soube agir com prudência e altivez diante do ataque americano à economia brasileira, insuflado por bolsonaristas que aproveitam o fato de estarem autoexilados por lá para estimular o governo trumpista a retaliar o governo brasileiro. A demonstração de prestígio que Lula tem exibido depois que Trump encantou-se por ele foi um dos êxitos de sua política externa e neutralizou a campanha promovida por Eduardo Bolsonaro e seus acólitos.

Flávio fez bem em responder com esse encontro pessoal com Trump, dando também demonstração de prestígio pessoal que não apenas amorteceu o impacto da relação dele com Lula, como mudou o foco da discussão, embora não apague o caso Vorcaro de sua biografia, nem evite que explique os muitos buracos em sua versão. Se não acontecer nada de novo, pode ser que o episódio seja superado, porque, segundo as pesquisas, parte grande dos eleitores se manteve fiel, e outros, hoje decepcionados, podem voltar.

Mas, se novos fatos mostrarem que o filme sobre Jair Bolsonaro era apenas uma desculpa para pegar dinheiro de Vorcaro, a situação complica muito. Pelo menos por ora ele neutralizou os efeitos negativos que surgiram inevitavelmente daquela conversa. Foi ruim porque é a voz dele. Também é inexplicável ele ter ido pessoalmente encontrar Vorcaro já de tornozeleira eletrônica depois de ter saído da cadeia. Teremos talvez as delações de Vorcaro, que aparentemente se dispôs a falar mais, e de seus parentes, inclusive o pai. Quando parentes são presos, acabam forçando uma delação mais aprofundada, na tentativa de salvá-los.

Interessante que, entre as acusações que se fazia à Operação Lava-Jato, estavam as “alongadas” prisões preventivas e a prisão de parentes para forçar o acusado a fazer delação. É a mesma coisa que fazem agora. Por fim, a anunciada união entre os candidatos Romeu Zema e Ronaldo Caiado numa mesma chapa pode aumentar a competitividade dentro da direita, abrindo um novo caminho a quem desistiu de Flávio. A falta de consistência das outras candidaturas de direita é fator que facilitou a vida dele. Mas é Flávio quem continua sendo o candidato mais sólido desse segmento do eleitorado. Quem for para o segundo turno enfrentar Lula terá apoio do eleitorado de direita, especialmente se o presidente for realmente para a esquerda mais desabridamente.

 

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