quinta-feira, 28 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Medidas contra privilégios ajudam a emendar Judiciário

Por O Globo

Fim da aposentadoria compulsória como punição e contracheque único apontam caminho virtuoso

É um avanço que o próprio Judiciário e o Ministério Público comecem a tomar medidas para corrigir os privilégios descabidos usufruídos por juízes e procuradores. Dois exemplos desta semana mostram que, quando querem, as autoridades sabem impor disciplina a si mesmas. O primeiro é a decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) proibindo a aposentadoria compulsória como punição a magistrados que cometem infrações graves. O segundo é a criação de um contracheque único para juízes, procuradores e promotores, um primeiro e tímido — ainda que necessário — passo para conter os supersalários.

O relator do caso da aposentadoria compulsória, ministro Flávio Dino, foi certeiro ao classificá-la como punição que não pune. “Se o juiz vende uma decisão judicial ou mata alguém, ele tem de ser punido. Mas, se a punição é a aposentadoria compulsória, a punição é para quem? É para o contribuinte”, disse. Nos últimos 20 anos, a rotina de aposentar magistrados julgados culpados por ilegalidades repetiu-se 126 vezes. Juízes criminosos, em conluio com bandidos, sofriam como pena máxima o afastamento do cargo, mantendo vencimentos proporcionais ao tempo de serviço. Entidades sindicais tinham a desfaçatez de clamar pelo direito previdenciário adquirido. Em seu voto, Dino foi categórico: disse que a contribuição à Previdência paga pelo servidor público não garante benefício futuro. Lembrou que, no Executivo, há possibilidade de impeachment e, no Legislativo, de cassação de mandato, sanções que vedam remuneração. “A transferência precoce para a inatividade com o recebimento de proventos gera desequilíbrio entre os Poderes”, afirmou.

Em março, Dino já tivera o bom senso de anular uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) “punindo” com aposentadoria compulsória um juiz estadual da Comarca de Mangaratiba (RJ). O juiz pediu revisão ao CNJ, que confirmou o veredito, e, insatisfeito, levou o caso ao Supremo. Ao examinar os autos, a Procuradoria-Geral da República discordou e recorreu da decisão de Dino em março. Agora, os votos da Primeira Turma a confirmaram. O juiz que queria o emprego de volta acabou sem aposentadoria e foi o estopim para a sentença histórica, que afetará toda a categoria. No entendimento do STF, a Emenda Constitucional 103/2019, que reformou o sistema previdenciário, suprimiu a aposentadoria compulsória como punição ao não mencioná-la, como fazia emenda anterior, por isso deixou de haver fundamento para sua manutenção.

No caso dos supersalários, o avanço é menos significativo, mas não deixa de ter valor. O CNJ e o Conselho Nacional do Ministério Público determinaram a criação de um contracheque único para magistrados, procuradores e promotores. Sem isso, fica difícil até dimensionar o alcance dos extras agregados aos vencimentos, os proverbiais “penduricalhos”. Em março, o STF foi demasiadamente generoso ao criar regras para essas verbas indenizatórias que inflam os supersalários de juízes e procuradores. E nem assim a elite do funcionalismo se deu por satisfeita. Não faltaram tentativas de burlá-las, criando novas benesses. Padronizar os contracheques pelo menos aumentará a transparência. Ainda cabe ao Legislativo, contudo, rever a decisão do Supremo e aprovar uma legislação sensata para disciplinar os “penduricalhos”.

Operação contra Cláudio Castro revela contaminação do estado por esquemas

Por O Globo

Independentemente da relação com Vorcaro, custo Master ficará como legado do ex-governador

Em menos de duas semanas, o ex-governador fluminense Cláudio Castro foi alvo de duas operações policiais, sob acusação de envolvimento em esquemas distintos de corrupção, com duas personalidades que há algum tempo deixaram as páginas de negócios e celebridades dos jornais para frequentar o noticiário policial: Ricardo Magro — o dono do grupo Refit foragido em Miami, considerado o maior sonegador do país, com dívidas tributárias estimadas em R$ 26 bilhões — e Daniel Vorcaro — cujo Banco Master, liquidado em novembro, era o epicentro de fraudes e de um ecossistema de tráfico de influência suprapartidário, com ramificações múltiplas pelos três Poderes.

as acusações. É essencial enfatizar que ele ainda não apresentou sua versão para os fatos desvendados pela Polícia Federal (PF) — e deverá ter o amplo direito de defesa que a Constituição assegura a todos. É possível que convença a Justiça de sua inocência. Mesmo assim, é lamentável que seja o sétimo ocupante do Palácio Guanabara em tempos recentes a enfrentar problemas judiciais — quatro foram presos, um cassado e só um inocentado. As acusações que o atingiram expõem o ponto a que chegou a contaminação da máquina estadual por esquemas criminosos.

Além das denúncias de que Castro atuou para blindar e favorecer o Refit, a PF apresentou evidências persuasivas de vínculos suspeitos com as fraudes de Vorcaro. Pelas acusações, ele manteve no comando do fundo previdenciário dos funcionários do estado do Rio, o Rioprevidência, diretores comprometidos com as falcatruas. O fundo chegou a mudar normas de gestão para comprar algo como R$ 3 bilhões em papéis fajutos do Master, quando os apuros do banco já eram conhecidos. Castro, diz a PF, manteve encontros com Vorcaro em “sincronismo” com a liberação dos recursos do Rioprevidência. O dinheiro veio em boa hora para manter girando a roda de imposturas de Vorcaro. “Os elementos reunidos indicam, em tese, que Cláudio Castro mantinha vinculo próximo com Daniel Vorcaro e exerceu papel politicamente relevante para a viabilização dos aportes do Rioprevidência no Banco Master”, afirmou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, na decisão que autorizou a operação.

Já haveria crime apenas com o uso temerário dos recursos destinados a financiar a aposentadoria de 179 mil servidores ativos e dos 243 mil inativos ou pensionistas. A situação se torna ainda mais grave porque, em virtude da legislação em vigor, o Tesouro estadual é obrigado a cobrir qualquer rombo atuarial dos fundos previdenciários públicos, ainda que eles funcionem com autonomia como se fossem uma previdência privada. A conta, portanto, sobrará para o contribuinte fluminense, num momento em que o estado, com dívidas crescentes estimadas em R$ 225 bilhões, tenta se equilibrar entre regimes de recuperação fiscal para continuar a prover serviços básicos. Independentemente das conclusões da Justiça, o custo Master ficará como legado inequívoco da gestão Castro.

Homicídios concentrados

Por Folha de S. Paulo

Relatório mostra que 50% desses crimes ocorreram em 99 cidades e que Norte e Nordeste têm as maiores taxas

A pulverização de facções pelo país ajuda a explicar os dados; é preciso alocar recursos para reduzir discrepâncias e elevar resolução

Atlas da Violência, publicado na terça (26), revela desigualdades na incidência de assassinatos no país.
Segundo o levantamento, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, metade dos homicídios em 2024 ocorreu em apenas 99 cidades, o que representa 1,8% do total de 5.570 municípios brasileiros e 43,4% da população.

Em 2024, foram registrados 42.590 homicídios, o que equivale a uma taxa de 20,1 por 100 mil habitantes. Mas, de acordo com estimativa elaborada pelos pesquisadores, que considera as mortes violentas sem causa determinada que poderiam ter sido homicídios, o total chega a 49.673, e a taxa vai a 23,4 por 100 mil.

Tendências verificadas em estudos anteriores são confirmadas nesta última edição do Atlas, como a interiorização da violência letal intencional: municípios de médio porte (entre 100 mil e 500 mil habitantes) apresentaram taxa média de homicídios superior à de grandes cidades.

Dentre os 20 municípios com maiores taxas, 1 está no Centro-Oeste (Mato Grosso), 2 no Norte (Pará e Amapá) e 17 no Nordeste, sendo 2 em Pernambuco, 5 no Ceará e 10 na Bahia —Salvador é a única capital na lista.

Estados do Norte e do Nordeste têm os maiores índices, alguns com quase o dobro da média nacional, casos de Amapá (45,7 por 100 mil), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3). Já os de Sul e Sudeste possuem os menores, com São Paulo (6,6), Santa Catarina (8,1), Distrito Federal (10,3), Minas Gerais (12,8) e Rio Grande do Sul (15,2).

Segundo especialistas, a pulverização do crime organizado pelo país, principalmente no Norte e no Nordeste, ajuda a explicar as discrepâncias regionais e municipais, já que a chegada desses grupos tem impulsionado a letalidade com disputas violentas por controle territorial e poder.

Na região metropolitana de Fortaleza (CE), por exemplo, Maranguape tem pouco mais de 100 mil habitantes e vive sob o fogo cruzado de facções rivais. Sua taxa de assassinatos (87,2 por 100 mil) é a maior do país.

O diagnóstico do Atlas pode contribuir para a elaboração de estratégias de alocação racional de recursos para combater homicídios a partir das especificidades regionais e locais.

É preciso maior integração entre as três esferas de governo, com compartilhamento de dados e tecnologias, além de fortalecimento de inteligência para eliminar as estruturas financeiras que sustentam as facções.

A impunidade, que incita o crime, também precisa ser contida com incremento da investigação e do sistema de Justiça —pesquisa do Instituto Sou da Paz do ano passado mostrou que só em 36% dos casos de homicídios de 2023, ao menos um suspeito foi identificado até o final de 2024.

Papa apresenta credenciais políticas em encíclica sobre IA

Por Folha de S. Paulo

Leão 14 alerta para riscos da revolução tecnológica em curso, mas evita posição contrária à ciência

Pontífice também lamenta os séculos em que o Vaticano não combateu a escravidão e reafirma posicionamento crítico ao que representa Trump

Figura desconhecida até há pouco mais de um ano, Robert Prevost vai deixando a sombra do popular Francisco e afirmando uma identidade política como o papa Leão 14.

Após ensaiar um conflito aberto com Donald Trump devido às ofensivas armadas dos Estados Unidos, o primeiro pontífice americano apresentou suas credenciais. Na segunda-feira (25), publicou sua encíclica de estreia.

Tais documentos servem tanto como guia espiritual ao 1,4 bilhão de católicos no mundo quanto comentário moral acerca de temas prementes. Com sua "Magnifica Humanitas" ("Humanidade Magnífica", em latim), Leão 14 fez a segunda opção, e não sem simbolismo —a encíclica foi publicada no aniversário de 135 anos de uma famosa antecessora, "Rerum Novarum" ("Das Coisas Novas").

Naquele texto, Leão 13, predecessor de Prevost no uso do nome papal, dissecava desigualdades decorrentes da industrialização nascente. Abriu caminho para o que Pio 12 chamou de "doutrina social da Igreja" em 1950.

Com habilidade e um texto salpicado de citações eruditas e da cultura pop, com direito a "A Lista de Schindler" de Steven Spielberg e "O Senhor dos Anéis" de J. R. R. Tolkien, Leão 14 resume o trajeto até a atual revolução tecnológica da inteligência artificial.

O papa aborda os riscos de um avanço desenfreado, a começar pela ameaça aos empregos e pela criação de monopólios, chegando a tons mais sombrios: "Nenhum algoritmo pode fazer a guerra moralmente aceitável".

Apesar disso, Leão 14 não adotou catastrofismo ou ludismo ante o que vê como um avanço inevitável da ciência. Pediu regulação, mas deixou suas reservas mais severas para proponentes da migração da consciência humana para máquinas.

Prevost trouxe ao lançamento do texto um dos cofundadores da Anthropic, uma das líderes do setor, que tem se estranhado com Trump. Se isso prova a abertura proposta, também arrisca dar uma chancela da Igreja aos monopolistas que denuncia.

"Magnifica Humanitas" foca na IA, mas tem um escopo amplo e histórico: num ponto, Leão 14 lamenta os 18 séculos em que o Vaticano não combateu a escravidão. "Por isso, em nome da Igreja, eu sinceramente peço perdão."

O embate com Trump, nunca nominado, permeia o texto. O papa defende o multilateralismo e afirma não existir guerra justa.

Após os mui políticos 26 anos do polonês João Paulo 2º na Santa Sé, o alemão Bento 16 (2005-13) só abordou temas espinhosos em 1 de suas 3 encíclicas. Francisco (2013-25) foi mais prolífico, dedicando 2 de seus 4 textos a atualidades. A urgência de Leão 14 sugere que ele seguirá os passos do antecessor argentino.

O mordomo da Casa Branca

Por O Estado de S. Paulo

A embaraçosa imagem de Flávio com Trump, demonstrando toda a sua subserviência ao americano, só serve para mostrar força aos que, no campo da direita, duvidam de sua candidatura

O senador Flávio Bolsonaro empenhou-se em conseguir uma foto ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, com o objetivo de provar, aos que duvidam de sua candidatura no campo da direita, que é forte o bastante para ter acesso à Casa Branca, espécie de Meca dos reacionários de todo o mundo, mesmo sendo apenas um parlamentar brasileiro medíocre. Nesse sentido, pouco importa se o encontro durou um minuto ou uma hora, conforme diferentes versões. O que interessa, para o clã Bolsonaro, é que aconteceu e foi registrado numa imagem que pode dar sobrevida a uma candidatura questionada mesmo por alguns dos mais fiéis adeptos do bolsonarismo, graças aos enroscos de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista de um dos maiores escândalos da história recente do País.

Dito isso, a imagem vale muito mais do que mil palavras. Fora os fanáticos seguidores de Jair Bolsonaro, ninguém consegue enxergar ali alguém que pretende ser chefe de Estado no Brasil. Pelo contrário: na pose de mordomo da Casa Branca, Flávio transpira subserviência a Trump. Tal comportamento é o exato oposto do que se espera de um presidente da República, que representa o Estado brasileiro nas relações internacionais e, por isso, deve ser sempre altivo.

Mas ali Flávio Bolsonaro não representava o Brasil e, caso seja eleito, continuará sem fazê-lo. O único propósito de Flávio é representar sua família, sobretudo seu pai, hoje em prisão domiciliar em razão de uma tentativa de golpe de Estado. Por isso se comportou como um orgulhoso sabujo de Trump: para deixar claro que, uma vez presidente, colocará o Brasil a serviço do trumpismo. Coisas assim deveriam horrorizar os bolsonaristas que se dizem “patriotas”.

Mas o bolsonarismo que Flávio herdou do pai e que tenta manter, de maneira um tanto atabalhoada, não hesita em sacrificar os interesses brasileiros se isso representar a manutenção do poder do clã Bolsonaro. Ao lado de Flávio no encontro com Trump estava o irmão Eduardo, certamente o responsável pela visita. Deputado que perdeu o mandato por faltas, Eduardo, autoexilado no Texas, há tempos trabalha para envenenar as relações entre Brasil e EUA com o objetivo de fustigar Trump a intervir aqui em favor de Jair Bolsonaro.

Como se recorda, a traição dos Bolsonaros ao País funcionou num primeiro momento, quando Trump impôs draconianas tarifas comerciais ao Brasil como forma de pressionar o País a rever a condenação de Jair Bolsonaro. Depois, no entanto, o instinto transacional de Trump falou mais alto e ele percebeu que faria melhor negócio se dialogasse com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva – a quem chamou de presidente “dinâmico”. Mas esse revés não parece ter desanimado a família Bolsonaro, que continua empenhada em envergonhar e prejudicar o Brasil usando suas relações com a extrema direita americana para ter acesso a Trump e usar essa suposta proximidade com o presidente americano como trunfo eleitoral.

Todo esse esforço, contudo, resultou apenas numa foto que rapidamente serviu de matéria-prima para todo tipo de piada nas redes sociais. Não poderia ser diferente, considerando-se que nada a respeito desse encontro deve ser levado a sério, pois só serviu para dar um respiro a Flávio em meio ao escândalo de sua relação com Daniel Vorcaro. Se a campanha de Flávio tivesse produzido a imagem com inteligência artificial, ou se o aflito senador tivesse posado com um Trump de papelão, teria obtido o mesmo resultado e ainda pouparia o dinheiro da viagem a Washington.

Mas Flávio adicionou pilhéria à bazófia. Considerando-se que o senador mentiu seguidas vezes sobre suas relações com Daniel Vorcaro, é muito difícil acreditar em qualquer coisa que ele diga a respeito do encontro com Trump – ainda mais porque só temos a sua versão sobre a reunião. A julgar pelo que ele relatou aos jornalistas pouco depois do encontro, Flávio falou de tudo com o presidente americano, desde terras raras até crime organizado, passando por tarifas e a saúde do pai. E ainda deu dez minutos de lambuja para Trump comentar sobre as obras para o salão de baile na Casa Branca. Já a julgar pelo site da Casa Branca ou pelas redes sociais de Trump, que ignoraram o encontro, a coisa toda se resumiu mesmo à imagem embaraçosa de Flávio.

Um prêmio à má-fé e à imprudência

Por O Estado de S. Paulo

Ao propor que o FGC restitua aplicações de fundos de previdência no Master, Renan Calheiros quer socializar as perdas de investimentos que jamais deveriam ter sido realizados

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) acaba de apresentar um escandaloso projeto de lei que simplesmente subverte a natureza do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Se aprovada a aberração proposta pelo veterano representante de Alagoas, o FGC terá de cobrir integral e retroativamente, pasme o leitor, as aplicações feitas por Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) e entidades de previdência complementar de Estados e municípios no Banco Master, liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro do ano passado.

Coube ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, chamar a atenção para o risco não desprezível de o PL 2.502/2026 “provocar uma distorção sobre qual seja a finalidade do FGC”. Vindo de quem vem, o alerta deve ser ouvido com atenção.

O FGC foi concebido para proteger a poupança popular e evitar corridas bancárias em momentos de crise envolvendo instituições financeiras. É voltado ao varejo. Seu público-alvo são pequenos poupadores que, justamente por sua condição, não têm como avaliar riscos bancários altamente complexos. Daí por que o limite de cobertura do FGC seja de apenas R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.

É evidente que o caso dos fundos de previdência de Estados e municípios que desperdiçaram rios de dinheiro no Banco Master é completamente diferente. Por quais motivos o sr. Calheiros não fez essa distinção óbvia, é um mistério que só ele pode desfazer. Ora, a administração dos RPPS está a cargo de gestores profissionais, não raro indicados por prefeitos e governadores. Ao chamar de “equívoco” os investimentos temerários que alguns deles fizeram no Banco Master, o senador alagoano zomba da inteligência e da boa-fé alheias.

O problema envolvendo os investimentos de ao menos 18 fundos previdenciários em papéis podres do Banco Master, como mostrou o Estadão/Broadcast à época da liquidação, nunca foi uma mera falha de avaliação de riscos. Na grande maioria dos casos, tratou-se de uma decisão politicamente consciente – e potencialmente mal-intencionada – de canalizar recursos públicos para uma instituição financeira que já era objeto de escrutínio do BC por suspeitas de gestão fraudulenta.

A dimensão do escândalo Master, por si só, atesta a gravidade da proposta de Renan Calheiros. Dados do Ministério da Previdência apontam que os fundos públicos aplicaram ao menos R$ 1,8 bilhão em papéis emitidos pelo banco de Daniel Vorcaro. Só o Rioprevidência concentrou cerca de R$ 1 bilhão em letras financeiras no Master. A Amprev, do Amapá, administrada por um aliado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), aplicou outros R$ 400 milhões. O Instituto de Previdência de Maceió, base política de Renan Calheiros, investiu R$ 97 milhões.

É preciso doses cavalares de ingenuidade para ver apenas “equívocos” nessa sucessão de investimentos temerários no Banco Master, como se fossem meros lapsos administrativos. Como ingênuo o senador Calheiros não é, só pode ser desfaçatez, para dizer o mínimo.

No dia 26 passado, ao deflagrar uma nova fase da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal apontou “vínculo próximo” e “alinhamento político” entre Cláudio Castro, ex-governador do Rio, e Daniel Vorcaro para usar o Rioprevidência como fonte de liquidez do Banco Master justamente quando a instituição enfrentava crescentes dificuldades para operar. Mais bem dito: tudo indica que fundos de previdência de servidores públicos foram usados como instrumento de socorro político-financeiro a um banco quebrado, sabe-se lá sob quais contrapartidas aos mandatários que, na prática, controlavam esses fundos. É essa engrenagem criminosa que Renan Calheiros quer premiar?

Ao fim e ao cabo, o projeto do senador alagoano socializa os enormes prejuízos causados pelos RPPS ao FGC em operações eivadas de vícios e fraudes. Em vez de exigir a apuração rigorosa dos gestores e governantes envolvidos nessas operações, Calheiros, malgrado enfatize que não pretende eximir ninguém de responsabilidade penal, tenta transferir ao sistema de proteção ao pequeno investidor todo o custo de decisões de investimento que jamais deveriam ter sido tomadas.

Se isso ocorrer, o FGC terá sido sacrificado sob o altar das conveniências políticas do momento. Cabe ao Senado impedir esse desvario.

Militares acima de qualquer IR

Por O Estado de S. Paulo

Senado avaliza privilégio tributário para militares, conta que será paga pelos brasileiros comuns

O Senado resolveu dar um empurrãozinho em uma proposta que é pura desfaçatez: a isenção de Imposto de Renda (IR) para militares das Forças Armadas e forças auxiliares, independentemente de patente ou remuneração. A medida, que nasceu de uma sugestão popular, rapidamente encontrou padrinhos entusiasmados e virou projeto de lei formal.

É impressionante como algumas categorias se enxergam acima das demais, em uma espécie de elite apartada da sociedade brasileira, e acreditam ser merecedoras de privilégios negados ao restante da população. A ideia de que uma carreira pública deva ser dispensada de obrigações tributárias comuns apenas por considerar sua função mais relevante do que as demais não expressa reconhecimento institucional, mas uma visão de que o Brasil não é uma república, e sim um jantar onde alguns se sentam à mesa enquanto o resto da população lava a louça.

Senadores decidiram abrir espaço para discutir a criação de uma categoria blindada da tributação comum enquanto reformas estruturais seguem enterradas (da administrativa ao enfrentamento dos supersalários) e benefícios corporativos continuam encontrando caminho livre em Brasília. Certas pautas de limitado interesse público parecem percorrer os corredores do Congresso em marcha acelerada.

O parecer aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa sustenta que os militares merecem tratamento tributário diferenciado por exercerem uma carreira “singular”, com hierarquia, disciplina e restrições funcionais. O relator, o senador Hermes Klann (PL-SC), afirma que a isenção não configuraria privilégio, mas “reconhecimento institucional” à importância da categoria.

Se restrições funcionais bastassem para justificar privilégio tributário, não faltariam categorias aptas a reivindicar tratamento semelhante. Policiais, magistrados, diplomatas, garis, professores e médicos de emergência, para citar apenas alguns, também exercem funções essenciais e convivem com restrições. Nem por isso se cogita dispensá-los do dever básico de contribuir para o financiamento do Estado.

Os militares brasileiros já possuem um regime historicamente diferenciado. Ficaram de fora dos aspectos mais duros da reforma da Previdência aprovada em 2019, preservaram vantagens específicas e benefícios corporativos intocados há décadas. O histórico brasileiro mostra, aliás, que privilégios concedidos a determinadas carreiras raramente permanecem modestos, temporários ou fiscalmente sustentáveis.

Durante a sessão, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) sugeriu que, se mais brasileiros conhecessem a proposta, ela teria apoio ainda maior. Sugerimos à senadora que acompanhe as agruras dos brasileiros que pagam imposto, enfrentam filas em hospitais, escolas precárias e serviços públicos. Esses são os contribuintes que bancarão a isenção para os militares.

Discutir isenção ampla de IR para uma categoria específica revela uma inversão difícil de justificar, dentro de qualquer lógica republicana. O Senado deveria concentrar energia política em enfrentar desigualdades dentro do próprio Estado brasileiro, e não em aprofundá-las.

Para o mundo, é urgente um acordo entre EUA e Irã

Por Valor Econômico

A perspectiva de um acordo ronda o cenário há semanas, o que indica tanto sua possibilidade quanto as dificuldades em alcançá-lo

Findos três meses de guerra e um mês e meio de trégua instável, Estados Unidos e Irã indicam que podem estar perto de um acordo sobre o qual nada se sabe ao certo ainda. As cotações do petróleo, acima de US$ 100 há cerca de 30 dias, caíram ontem para US$ 95 o barril, depois de informações genéricas sobre prorrogação da trégua e indicações de que o Estreito de Ormuz, por onde escoam 20% do petróleo mundial, será reaberto em um mês. Junho pode ser um mês cruel no calendário da maior crise de oferta de petróleo da história, com a possibilidade de escassez de óleo e derivados e preços ainda mais altos. Isso acabará acontecendo se não houver ao menos uma perspectiva de que o abastecimento será em algum momento normalizado.

A falta de orientação estratégica de Donald Trump e seu caleidoscópio de metas, sempre mutante, tornam difícil saber o que os Estados Unidos querem afinal. O presidente americano entrou em uma aventura sem medir consequências ou objetivos negociáveis, afora a rendição do Irã. Com pesadas perdas, inclusive de líderes políticos e militares, o regime dos aiatolás resistiu à demonstração de um poderio militar muito superior ao seu, manteve razoável capacidade ofensiva, destruiu parte da infraestrutura de óleo e gás de países vizinhos e manteve o estreito fechado.

Trump entrou na guerra querendo o fim do programa de enriquecimento de urânio iraniano, a retirada de 440 toneladas de urânio com alto grau de beneficiamento, o desmantelamento de seu programa de mísseis e o fim do financiamento iraniano a grupos terroristas na região, como o Hamas e o Hezbollah. Ao matar no primeiro dia da ofensiva militar o líder supremo do regime, aiatolá Ali Khamenei, Trump cogitou também catalisar uma mudança iminente do regime, que não ocorreu. Ao contrário, os elementos mais radicais do regime iraniano assumiram o comando. Nenhum dos resultados aventados foi atingido.

O maximalismo das intenções americanas e o desfecho militar insuficiente no campo de batalha para cumpri-los tornam um possível acordo, se houver, uma caixa de surpresas. Para que Trump executasse tudo o que imaginou, seria necessário colocar tropas em solo iraniano, alternativa que excluiu por princípio.

As negociações giram em torno de alguns eixos óbvios. A detenção do programa nuclear iraniano, com garantias de que ele não visa à confecção de armas nucleares, é um deles. O Irã assinou acordo para isso com EUA e países europeus em 2015, mas Trump, em seu primeiro mandato, o renegou. A abertura de Ormuz sem controle ou pedágios por parte do Irã — o que seria a confissão de derrota americana — é outro. Os negociadores iranianos continuam jurando que seu programa é pacífico, mas sem mecanismos verificáveis e inspeções externas in loco, como ocorreu no finado acordo, suas palavras nada valem. A entrega do urânio com maior grau de pureza para um país neutro conta com resistência do Irã, mas, embora difícil, não é impossível.

Trump só gosta de acordos em que impõe as condições e que suas exigências sejam aceitas. O regime xiita iraniano, em um indício de que ainda detém capacidade bélica razoável de resistência, exige por seu lado indenização pelos danos causados pela guerra, fim das sanções americanas com liberação do dinheiro do país retido no exterior (US$ 24 bilhões) e controle de Ormuz. Há chance de que parte das sanções seja atenuada, mas quase nenhuma de que as demais exigências sejam atendidas.

Ainda que boa parte da infraestrutura fabril do país tenha sido aniquilada, e que a oposição aos aiatolás seja crescente — não à toa as execuções de opositores voltaram —, o tempo parece correr a favor do Irã. A popularidade de Trump, que se submeterá às eleições de meio de mandato em novembro, é baixa, com apenas 38% dos americanos aprovando seu manejo da economia e da guerra até agora.

Os estragos da guerra são altos e crescentes. Com alta de 51% dos combustíveis, os americanos gastaram US$ 41,5 bilhões a mais com o produto desde que o conflito começou, ou US$ 316 por família, segundo cálculos de especialistas da Brown University. A inflação anual em abril, de 3,8%, já pulou à frente da correção de salários, algo que se observa não apenas nos EUA, mas também na Europa. Os juros dos títulos americanos de longo prazo subiram. A zona do euro caminha para uma recessão leve. Os bancos centrais dos países desenvolvidos pararam de reduzir os juros e podem se ver obrigados a voltar a elevá-los em breve.

Apesar de sua retórica provocadora, Trump precisa encontrar uma saída para uma enrascada. Mas, em geral, a destruição praticamente cessou com a trégua, e os beligerantes agora conversam sem parar, o que é muito melhor do que nada. A perspectiva de um acordo ronda o cenário há semanas, o que indica tanto sua possibilidade quanto as dificuldades em alcançá-lo. Para o mundo, há urgência em sua conclusão, porque a ameaça de escassez de óleo e de outros insumos é agora mais presente do que nunca.

Faroeste contra as facções não costuma resolver

Por Correio Braziliense

Não é no faroeste das comunidades abandonadas que o Estado, em nome da sociedade, derrotará as protomáfias geradas e alimentadas por décadas de equívocos e conivência

A ideia de que os Estados Unidos classifiquem oficialmente como organizações terroristas as facções criminosas brasileiras volta à tona depois do encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump. Segundo o próprio relato sobre a reunião, o senador e pré-candidato ao Planalto insistiu com o anfitrião para que adote a definição.

De um ponto de vista estritamente prático, esse movimento teria como implicação que as forças militares e de segurança dos EUA estariam autorizadas, pela legislação norte-americana, a planejar e executar operações, inclusive em território brasileiro, contra Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras organizações criminosas.

À parte as discussões em torno da nossa soberania, vale examinar o histórico das experiências de adotar uma abordagem militar e bélica para enfrentar o fenômeno, universal e em expansão, do crime organizado. A história recente da América Latina, em particular no século 21, oferece ao menos dois exemplos que o Brasil deveria examinar com atenção.

A Colômbia despontou nos anos de 1980 como maior produtora e exportadora de cocaína, na maior parte destinada ao mercado estadunidense. Foi distinguida como alvo prioritário da "guerra às drogas" proclamada por Ronald Reagan, na época à frente da Casa Branca. A estratégia militar quebrou, nos anos de 1990, os cartéis de Medellín e Cali. Mas a economia doméstica do narcotráfico entranhou-se no interior abandonado, entrelaçada ao conflito armado com a guerrilha de esquerda. Hoje, o país segue como origem principal da cocaína consumida nas ruas dos EUA — e das grandes cidades europeias.

A desarticulação dos cartéis colombianos não apenas se mostrou inócua para estancar a oferta de drogas nos Estados Unidos — a parte que, ontem como hoje, se apresenta como interessada no combate ao narcotráfico. A posição dominante foi assumida, em boa parte, por organizações criminosas do México, até pelo acesso geográfico privilegiado ao mercado norte-americano.

Entre 2006 e 2012, o presidente Felipe Calderón declarou sua "guerra às drogas". No período, assistiu ao nascimento de uma facção formada basicamente por militares e policiais integrantes de uma unidade de elite instituída justamente para o combate frontal aos cartéis: à medida que avançavam no terreno, assumiam para si o comando das operações criminosas. A herança do processo contabiliza 60 mil mortos e mudanças apenas nos nomes de quem comanda o negócio: hoje, além de operar na Colômbia, os cartéis mexicanos operam nas regiões fronteiriças da Amazônia brasileira.

O crime organizado demonstra historicamente capacidade maior que a das forças de Estado para reciclar-se. No Brasil, assim como na Colômbia e no México, buscou e segue buscando meios para se inserir no tecido social legal, não apenas econômico, mas igualmente político e mesmo judicial. Os resultados recentes no combate às facções, por aqui, atestam que a frente mais promissora é a da inteligência, da investigação meticulosa.

Não é no faroeste das comunidades abandonadas que o Estado, em nome da sociedade, derrotará as protomáfias geradas e alimentadas por décadas de equívocos e conivência. A hidra a ser decapitada veste terno e gravata, tem CPF e CNPJ. 

Violência preocupa população e desafia autoridades

Por O Povo (CE)

O fato é que no decorrer dos anos, a situação da segurança pública deteriorou-se a tal ponto que passou a ser o assunto que mais preocupa a população. Cenário que desafia as autoridades, que não conseguem entender a complexidade do fenômeno

Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) traz uma notícia positiva quanto à redução da violência no país. Dados mostram que o ano de 2024 (estudo mais recente) trouxe o menor índice de assassinatos dos últimos 11 anos, com uma taxa de 20,1 homicídios por 100 mil habitantes. Em 2023 o número foi de 21,2 mortes por 100 mil habitantes.

O índice de queda pode ser um pouco menor, pois, segundo os organizadores do estudo, os dados fornecidos pelos estados são incompletos. Além do mais, o número de mortes ainda é muito alto, comparado à média dos países do G20, que gira em torno de 6,9 homicídios por 100 mil habitantes.

O Ceará está na contramão da tendência apresentada pela contagem em todo o País, com taxa de 34,3 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, sendo o quinto estado mais violento do Brasil. Em 2023, o número havia sido de 27,6 por 100 mil habitantes.

Além disso, Maranguape, na grande Fortaleza, segundo a pesquisa, é a cidade mais violenta do Brasil, com índice de 87,2 assassinatos por 100 mil habitantes. Para completar, quatro, entre as cinco cidades mais violentas do País, são cearenses. Além de Maranguape (1º lugar), constam Maracanaú (3º), Itapipoca (4º) e Caucaia (5º). Completa a lista o município de Jequié, na Bahia, em segundo lugar.

O governo do Estado pode justificar-se mostrando as várias providências implementadas na área da segurança pública, o que procede. Na atual gestão, foram executadas mais operações ostensivas, além da contratação de mais policiais, civis e militares, endurecendo o combate ao crime organizado.

Porém, mesmo considerando os dados oficiais, não se observa uma queda consistente no número de homicídios, ou algum projeto mais abrangente que possa fazer frente ao fenômeno da violência. A repressão e o enfrentamento ao crime organizado são necessários, porém, mostram-se insuficientes. Assim, resta ao governo destacar pequenas vitórias, como divulgar que, durante este ano, houve dois dias nos quais não se registrou nenhum homicídio em todo o Ceará.

O fato é que no decorrer dos anos, a situação da segurança pública deteriorou-se a tal ponto que passou a ser o assunto que mais preocupa a população. É um cenário que desafia as autoridades, que não conseguem entender a complexidade do fenômeno. No caso do Ceará, quando for divulgado o Atlas da Violência 2026, poder-se-á verificar se a política implementada pelo governo do Estado produziu o efeito esperado.

Esse alerta já foi feito várias vezes por especialistas em segurança pública, mas é preciso repeti-lo: na situação a que se chegou nenhum governador conseguirá resolver o problema da segurança pública nas divisas de seu estado. É necessária uma colaboração nacional, envolvendo a União, estados e municípios, além da Justiça, para a elaboração de um plano que possa reduzir a violência que assusta os brasileiros.

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