O Estado de S. Paulo
Os executivos e seus patrões são os mais alienados de todos. Sob seu poder, a exploração ganhou notas inéditas de sadismo
A encíclica de Leão XIV sobre a inteligência artificial (IA), intitulada Magnifica humanitas (Magnífica humanidade), a primeira de seu pontificado, atraiu as câmeras de TV e as primeiras páginas dos diários do mundo. Editoriais esmerados a elogiaram. Comentaristas anotaram com precisão que o sumo sacerdote não sataniza nem glorifica os algoritmos sagazes. De fato, esse é um dos pontos fortes do documento, que, em lugar de polemizar, pede um pouco de juízo aos seres humanos, sobretudo aos que se ocupam da programação das novíssimas ferramentas e aos que são donos das empresas detentoras das patentes. Entre os méritos da escrita papal, os editoriais destacaram a serenidade. O argumento evolui sem angústia, mas também sem deslumbramento, sem aflição, sem se refugiar na autoajuda, sem raiva, mas sem condescendência. A leitura nos traz conhecimento e, de sobra, reaviva o espírito.
Mas os registros jornalísticos não realçaram
o que há de mais magnífico no texto: o diagnóstico atordoante que ele nos traz.
Com inteligência bem-informada e crítica, ao lado de uma sabedoria incomum,
Leão XIV nos apresenta um cenário, eu diria, terrível. Prudente – prudente no
sentido grego da palavra –, detecta o risco de que as transformações da era
digital produzam mais desigualdade. “O poder técnico, se não for equilibrado,
não nos torna mais capazes: tornanos mais sós e mais expostos a lógicas de
domínio e de exclusão”. Indo mais longe, acusa “a idolatria do lucro, que
sacrifica os mais fracos” e alerta para perigos de enorme proporção, algo que
nunca se viu: “O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita,
predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir
e orientar para o bem comum”.
O papa exige regulação e, com igual ênfase,
anota que apenas a regulação não bastará. Se as big techs dessem ouvidos, ainda
que moucos, a essa mensagem, fechariam imediatamente suas atividades para
balanço – não balanço econômico, mas balanço ético.
A cada parágrafo, Leão XIV procura
referenciar-se na Rerum novarum (Das coisas novas), a encíclica de Leão XIII
publicada em 1891, que deu base para o que se entende, hoje, como a “doutrina
social” da Igreja. No final do século 19, o Vaticano procurava olhar para as
injustiças produzidas pelas iniquidades da exploração industrial do trabalho
humano. Hoje, passados 135 anos, o que temos é o agravamento da mesma “questão
nova”, mas numa escala incomparavelmente mais assombrosa e mais desumana. O
papa sabe disso muito bem. Peço licença para citar mais um trecho:
“Em muitos casos, no contexto digital, o
controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade de
computação não é prerrogativa dos Estados, mas sim de grandes sujeitos
econômicos e tecnológicos. (...) Quando um poder desta magnitude se concentra
nas mãos de poucos, ele tende a tornar-se opaco e a fugir ao controle público,
aumentando o risco dum desenvolvimento distorcido que gera novas dependências,
exclusões, manipulações e desigualdades.”
O problema, no entanto, não acaba aí. As tais
transformações digitais não se resumem à oferta desmesurada de artefatos de
comunicação para usufruto das multidões. Sobre isso, há coisas que o papa não
disse e que, modestamente, vou lembrar aqui.
Os computadores e a internet,
definitivamente, não são uma “mídia”, ou uma “nova forma de mídia”. Muito além
disso, essas tecnologias constituem novos meios de produção que abrem as
porteiras para outro tipo de fabricação de valor. Uma criança de quatro anos de
idade “brincando” com um “joguinho” na tela do celular não está se
“divertindo”, como os pais acreditam: ela está trabalhando para as plataformas,
está gerando valor para um negócio que opera na escala dos trilhões de dólares.
Essa criança de quatro anos está sendo explorada do mesmo modo que, há 150
anos, outras crianças eram exploradas nas fábricas em Londres, em jornadas que
se estendiam por mais de 14 horas.
O trabalho alienado no bojo das revoluções
digitais (as novas revoluções industriais) não se resume à chamada “uberização”
da mão de obra, que engoliu motoboys, motoristas de táxi e os exilados no home
office. Há um trabalho que ainda não foi bem descrito e bem quantificado: o
trabalho do olhar e da atenção. Olhando para a tela, a Magnifica humanitas
trabalha para sedimentar signos que carregam valor. Olhar é trabalhar e
trabalhar de modo desumanizado. O dinheiro que brota dessa nova engrenagem não
deixa os executivos das plataformas descansarem: eles precisam gerar mais
“janelas de oportunidade” – você conhece a conversa. Não é mais a técnica que
trabalha para eles – eles é que trabalham para a técnica (que é o capital
encarnado).
Por isso a técnica não para, e não vai parar,
mesmo que seus agentes se convertam ao catolicismo. Os executivos e seus
patrões são os mais alienados de todos. Sob seu poder, a exploração ganhou
notas inéditas de sadismo.
Isso o papa não disse e, talvez, nem precise
dizer. E o que nós agora vamos fazer com a encíclica? Fazer de conta que foi só
mais um sermão?

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