Folha de S. Paulo
'Dark Horse' ficará no noticiário, imagem não
dará voto e jogo de Lula com americano parece intacto
Pré-candidato demonstra amadorismo com
obscura viagem, ganhando memes e desconfiança em troca
A trajetória política de Jair
Bolsonaro a partir de sua encarnação como candidato antissistema em
2018 sempre buscou emular a de Donald Trump,
por mais díspares que sejam a origem e a história pregressa de ambos.
Bolsonaro já chamou o republicano de ídolo, e
sua gestão notabilizou-se por uma
infrutífera adulação da Casa Branca. As franjas da direita radical
global e brasileira mantêm, de todo modo, estreito contato.
Houve uma notável sincronia com atraso de dois anos na vida de ambos os líderes no poder. Trump elegeu-se na vaga populista de 2016; Bolsonaro surpreendeu o Brasil em 2018.
O americano foi derrotado por um adversário
tradicional em 2020, enquanto o brasileiro perdeu para Lula (PT) em
2022. Fora do poder, Trump foi objeto de escrutínio judicial e sofreu uma
condenação penal, só para dar a volta por cima no pleito de 2024.
Aqui
o ciclo se quebrou, porque no Brasil condenados não podem ser presidentes.
Assim, da cadeia, Bolsonaro ungiu seu primogênito Flávio, senador pelo PL do Rio, como
poste para disputar novamente o Planalto neste ano com Lula.
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Mesmo com o petista de volta ao comando do
país, Trump permaneceu como personagem da vida política brasileira. No ano
passado, os Bolsonaros cometeram um dos maiores erros de avaliação de sua
carreira ao apostar que o tarifaço livraria o patriarca da prisão e desgastaria
Lula.
Lograram
o oposto, e o petista ainda conseguiu o malabarismo de faturar alguns
pontos de avaliação positiva com sua campanha ufanista devido à ameaça à
soberania expressa por Trump e ainda estabelecer um diálogo com o americano,
revertendo boa parte da guerra comercial e suspendendo a punição abusiva a
Alexandre de Moraes.
As fotografias de Lula com o republicano
contam eleitoralmente, pois dizem aos minguados eleitores-pêndulo que poderão
decidir a eleição que o petista agiu em favor do país, embora mantenha seu
usual antiamericanismo de palanque.
Em seu favor, Trump é impopular por
aqui: segundo
o Datafolha, 70% dos brasileiros foram contrários ao seu ataque contra
o Irã.
Sob intenso fogo político desde a revelação
de que pediu dinheiro para o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro para supostamente bancar uma hagiografia filmada sobre seu
pai, Flávio achou que retomar o espírito de 2016 seria uma boa ideia.
Organizou às pressas uma obscura viagem a
Washington e divulgou ter ficado 1 hora e 40 minutos com Trump, além de
apresentar fotos do encontro. É um teatro tardio, que por ora só
atraiu memes e desconfiança até sobre sua autenticidade.
O caso "Dark Horse"
não sairá do noticiário. A foto não ganhará nenhum voto novo além da bolha
bolsonarista, que já escolheu qualquer nome indicado por Jair. Nada indica uma
reversão na sorte de Lula com sua campanha passivo-agressiva de relacionamento
com Trump. Significativamente, o republicano nada disse no dia da reunião.
Flávio buscou
marcar uma diferença com Lula ao dizer que tratou de segurança pública
com o republicano. Até aí, mirou certo, dada a inconstância e a fragilidade do
PT no trato do tema.
Só que o pré-candidato pode ter atirado no pé
ao propor a denominação das facções criminosas como terroristas, na contramão
da postura do petista no recente encontro com Trump.
Se os EUA comprarem a ideia, que já
namoraram, poderão reanimar
a campanha de Lula sobre soberania devido ao risco de ingerência em
assuntos internos brasileiros. E, mais uma vez, os Bolsonaros ficarão com a
pecha de traidores.
Por fim, a viagem foi marcada por amadorismo
em vários níveis. O veto a questionamentos e a gaguejante declaração lida no
celular falam mais sobre sua pretensa imagem presidencial do que a gravata com
cores nacionais berrantes envergada, que remetia ao ícone
bolsonarista Luciano Hang.

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