O Globo
O encontro de Flávio com Donald Trump não
estanca a crise, mas é inegável que mais ajuda do que atrapalha
Aos trancos e barrancos, Flávio Bolsonaro tem conseguido lidar com a sangria envolvendo o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para, diz ele, financiar o filme sobre o pai. O encontro com Donald Trump não estanca a crise, mas é inegável que mais ajuda do que atrapalha. A situação de Flávio também é melhor hoje, entre os donos do dinheiro, do que era ontem. Depois de reagir mal ao lançamento da candidatura do senador e às conversas com Vorcaro divulgadas pelo Intercept Brasil, a Faria Lima parece, pouco a pouco, se acomodar, novamente, ao nome dele como opção a Lula.
Se não aparecer pelo caminho nenhuma
festinha, carona em jatinho ou detalhe sobre financiamento imobiliário em
Brasília ou no Texas, a tendência é a retomada da situação pré-crise. Mas uma
nova variável embaralha essa equação: Alexandre de Moraes.
O tamanho do estrago que a relação
Flávio-Vorcaro pode causar na candidatura do PL depende dos próximos passos de
Moraes em relação ao pedido de Lindbergh Farias (PT-RJ) para incluir o senador
e Jair Bolsonaro no inquérito que apura a coação, por parte de Eduardo
Bolsonaro, nos Estados Unidos. Segundo a denúncia da procuradoria, Eduardo
trabalhou por tarifas contra o Brasil e por sanções às autoridades que
investigaram seu pai na trama golpista. O que a crise do “Dark Horse” trouxe de
novo — e pode ser alvo do inquérito — é a possibilidade de desvio do dinheiro
do Master para bancar a coação: o que era, em tese, para o filme pode ter ido
parar nas mãos de Eduardo.
Já se sabe que, pelo menos, R$ 60 milhões
dados por Vorcaro, segundo Flávio para financiar “Dark Horse”, fizeram um giro
internacional inexplicável até agora. Saíram de um fundo em reais e passaram a
outro fundo de um advogado de Eduardo nos Estados Unidos, depois de uma
operação de câmbio. Em dólar, fizeram escala numa conta, também lá fora, ligada
à produtora brasileira. Finalmente, voltaram ao Brasil, em reais, após nova
operação de câmbio. Nessa operação, alguns milhões podem ter tomado residência
permanente nos Estados Unidos. Se isso ocorreu, na prática Vorcaro bancou a
coação contra o STF. Daí a nova frente de investigação.
Aliado de Moraes, o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, dirá se é favorável a essa nova linha de apuração no
inquérito de coação que, por sinal, já virou denúncia e está na fase de
alegações finais. Se for favorável, Moraes se tornará relator de parte da
investigação do Master, hoje com André Mendonça. Seria uma situação
questionável, uma vez que a mulher dele manteve contrato de R$ 130 milhões com
o banco, além de Moraes ter trocado mensagens com o banqueiro no dia da prisão.
O ministro Gilmar Mendes, em entrevista a Renata Lo Prete, disse que Moraes não
compõe a Primeira Turma, que julga o caso Master, do contrário haveria um
“impedimento fático”. Mas Moraes pode entender que o contrato com sua mulher
não é motivo de suspeição e assumir a nova frente de investigação.
A chapa poderia voltar a esquentar para
Flávio. Os mais cínicos, no entanto, apostam que tudo pode ficar como está. No
ano que vem, se fortalecidos no Senado, bolsonaristas insistirão no impeachment
de ministros do STF. Diante dessa perspectiva, talvez seja mais conveniente
deixar a investigação sobre o dinheiro “Dark Horse” em banho-maria.

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