quinta-feira, 28 de maio de 2026

O que deve afetar Lula x Flávio durante o recesso da Copa e das festas juninas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Relações com gente de gangues financeiras e políticas são risco para o jogo bolsonarista

Fiasco de público de medidas eleitorais e piora discreta da economia são risco para Lula 4

A política brasileira é mais e mais um caso de polícia. Também está sujeita, faz mais de década, a infecções por vírus espalhados por mídias sociais. Um bicho ruim criado em laboratórios políticos suprarreais pode abater a popularidade de um governo. A mentira do pix e o medo de impostos feriu Lula no início de 2025, ferida que ainda sangra.

Não houvesse tantos casos de polícia ou vírus políticos, seria menos arriscado dizer que a política politiqueira vai em breve entrar em recesso por causa de Copa, festas juninas e férias pré-eleitorais. Também por causa disso, o povo vai prestar ainda menos atenção a esse mundo de costume pouco interessante e cada vez mais repulsivo.

O recesso deve começar com três vertentes de dúvidas maiores.

Uma delas é o que vai resultar das investigações das relações do pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com pelo menos duas gangues político-negocistas. Trata-se aqui, claro, da gangue que tinha um banco, a Master-Vorcaro, e daquela que mandava no governo do estado do Rio de Janeiro sob o ex-governador Cláudio Castro, da turma de Flávio.

Em outra vertente, a dúvida é saber se por aí vão correr águas que elevem o nível de prestígio e de votos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por exemplo, qual deve ser o efeito da agora provável aprovação e implementação em breve da redução da jornada ("fim da 6x1")?

Tal projeto passou do desprezo oficial e do establishment para realidade muito provável em ano e meio, um espanto. A conta aqui é feita com base na data de apresentação da proposta de emenda à Constituição (PEC) da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), ideia aliás muito difundida por meio de militância digital. A PEC que vai enfim a voto não é a de Hilton, como se sabe, mas é dela o filme que deu origem à série, história que foi decididamente encampada por Lula 3 apenas em fevereiro deste ano.

A PEC de redução de jornada vai levar água para o moinho de Lula 4? Apesar de apoiada por 71% do eleitorado (diz o Datafolha), a mudança afeta trabalhadores sob contrato formal e que trabalham mais de 40 horas, minoria grande, mas minoria. Afeta também pequenos empresários. Vai levar tempo para saber do saldo econômico da medida.

Quanto ao saldo político inicial, Lula 3 vai levar a fama e votos do "fim da 6x1"? A não ser que sobrevenha efeito defasado, a isenção do IR com tributação dos mais ricos (imposto, aliás, até agora um fiasco) não aumentou prestígio e votação de Lula 4. O resto da penca de subsídios e transferências extras de renda também não rendeu, até agora.

Está aí a dúvida maior: propaganda eleitoral e efeito cumulativo ou defasado das medidas mais ou menos eleitorais de Lula vão fazer efeito prático? Vão furar a barreira do antilulismo encarniçado e do desânimo com o envelhecimento da conversa luliana?

Uma terceira questão é o velho possível efeito da "economia", ao que não se tem prestado muita atenção. As taxas de juros que agravaram dívidas ficarão altas a perder de vista, haverá mais inflação e o número de pessoas empregadas crescerá mais devagar. A piora deve ser marginal (pequena, dada a situação presente), mas a eleição por ora se afigura apertada.

Afora no caso das relações perigosas ou repulsivas de Flávio Bolsonaro, que podem explodir (ou não) a qualquer hora, não vamos solucionar essas dúvidas antes do prazo final para a direita e para o registro de chapas, em meados de agosto.

 

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