sábado, 23 de maio de 2026

Bolsonarismo vivo, por Flávia Oliveira

O Globo

Jair escolheu o filho e vai com ele, na vitória e na derrota

A relação — pessoal e financeira — do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro cobrou seu preço na pesquisa Datafolha pós-revelação do áudio e das mensagens pelo Intercept Brasil. À primeira vista, quem se beneficiou com o episódio foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na briga por um quarto mandato. De uma semana para outra, a distância entre o incumbente e o filho içado a candidato pelo pai condenado pela trama golpista aumentou de 3 para 9 pontos percentuais na simulação de primeiro turno. O bolsonarista perdeu competitividade, não posição. A pouco mais de dois meses da formalização das chapas, não parece haver fato capaz de tirar o Zero Um da disputa.

O mundo político e o próprio PL bem que flertaram com a inviabilidade da candidatura de Flávio. Em vão. O senador pediu milhões a Vorcaro para, segundo alega, financiar a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Cobrou parcelas, quando a fonte secou. E, diante de correligionários desolados, dias atrás, admitiu ter visitado o dono do Banco Master em casa, em São Paulo, após ele passar dez dias preso, em novembro de 2025. Tudo tornou-se público depois de ele negar conhecer o protagonista da maior fraude bancária da História —um homem disposto a devolver R$ 60 bilhões num acordo de delação premiada ainda não formalizado — e de vestir camiseta atribuindo o escândalo diretamente a Lula.

Desmascarada a mentira, ainda assim, o único filho presidenciável de Bolsonaro apareceu no Datafolha com 17% de intenção de voto na consulta espontânea (quando não há cartela de nomes exibida ao eleitor), ante 28% de Lula; 31% ante 40% na pesquisa estimulada; e 43% ante 47% na simulação de segundo turno. Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO), que se apresentaram como opções a Flávio à direita, ficaram na irrelevância em que já estavam, não mais de 4% das intenções de voto.

Antes da pesquisa, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, já havia voltado atrás na ideia de substituir Flávio. O partido tem o dinheiro, mas capital eleitoral quem tem é Bolsonaro. Jair escolheu o filho e vai com ele, na vitória e na derrota. Uma eleição, sublinha o cientista político Fábio Vasconcellos, doutor pelo Iesp e professor na Faculdade de Comunicação da Uerj, não define apenas quem ganha, mas quem liderará a oposição.

Com quase um terço das intenções de voto em Flávio no primeiro turno, quantos deputados e senadores o PL será capaz de eleger? E quanto isso representa em recursos dos fundos partidário e eleitoral? O Brasil parece conviver com três movimentos políticos absolutamente sólidos: o lulismo, o bolsonarismo e o antipetismo. Os dois últimos, não raro, se sobrepõem, como sugerem simulações de segundo turno que emprestam competitividade a candidatos quase inexpressivos na primeira rodada.

É por isso que Flávio, salvo hecatombe, seguirá candidato. Em dezembro, anunciada a escolha do pai, poucos levaram a sério as chances do filho. Até o episódio Vorcaro, ele crescia a ponto de ameaçar a reeleição de Lula. É possível que o projeto de chegar ao Planalto esteja sepultado. O bolsonarismo, não.

Carlos Bolsonaro, em postagem crítica aos aliados de ocasião numa rede social, escreveu que “o Brasil conta mais uma vez somente com as tias do zap e os tios do churrasco”. Referia-se, para bom entendedor, à base eleitoral que o pai amealhou e segue a ele leal. É um contingente que vota em Bolsonaro ou em quem ele indicar, com ou sem escândalo, com ou sem golpismo, com ou sem ataques a minorias, à ciência ou à cultura.

Da suspeita de traição vem a escolha monárquica de manter na descendência o protagonismo. Bolsonaro leva em conta confiança, sobrenome e sangue, diz Vasconcellos. Só os filhos conjugam os três atributos; Michelle, a esposa, tem o sobrenome, mas não tem o DNA e, talvez, nem a confiança.

— Ficaria surpreso, se abrisse mão do Flávio. Bolsonaro precisa continuar sendo visto como um agente político significativo, relevante. Caso contrário, o campo da direita passaria a outro nome — completa.

O pouco apreço pela democracia é variável nada desprezível. Bolsonaro duvidou do sistema eleitoral e da credibilidade das urnas eletrônicas até quando venceu em 2018, no segundo turno. Fez o mesmo quando perdeu, quatro anos atrás. Liderou a trama golpista, foi condenado e vê seu grupo político tramar por alívio de penas e anistia. É certo, à moda trumpista, farão o mesmo se o escolhido for mal em 2026. Não chegou ao segundo turno? Fraude. Perdeu a eleição? Fraude. Importante, para o bolsonarismo, é continuar a existir.

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