sábado, 23 de maio de 2026

O mundo está se abrasileirando, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O mundo rico começa a descobrir que estabilidade monetária não é algo permanente

O mundo rico passou décadas ensinando estabilidade monetária ao resto do planeta. Entre os anos 1990 e 2020 prevaleceu um ambiente relativamente estável – a chamada Grande Moderação – sem eliminar crises ou recessões. O que mudou naquele período foi a forma como os mercados passaram a reagir aos choques: após cada crise, inflação e juros tendiam a cair, enquanto bancos centrais estabilizavam o sistema com liquidez abundante. A crise de 2008 reforçou essa lógica. O problema atual é diferente.

Guerras, tarifas, fragmentação geopolítica, envelhecimento populacional, transição energética e déficits públicos elevados passaram a produzir choques mais inflacionários e juros mais altos e voláteis. O mundo desenvolvido não está aprendendo a conviver com crises – sempre conviveu com elas. Está aprendendo a conviver com crises inflacionárias em um ambiente de dívida elevada e menor previsibilidade monetária. E isso mudou até mesmo a lógica da proteção financeira.

Por muito tempo, os títulos públicos americanos funcionaram como porto seguro quase automático em períodos de turbulência. Agora, nem mesmo os títulos protegidos contra a inflação – os TIPS (Treasury Inflation-Protected Securities) – conseguem reproduzir a sensação de segurança que esses papéis transmitiam no passado.

Essa situação tem levado grandes investidores a preferir hedges reais, não financeiros. Buscando porto seguro indireto via: commodities, petróleo, ouro, ações de energia, infraestrutura, empresas com poder de repasse de preços – em vez de TIPS. A lógica é simples: se a inflação nasce de guerras, energia cara e fragmentação global, ativos reais talvez ofereçam proteção mais eficiente do que títulos públicos indexados.

Isso aproxima o mundo do ambiente em que mercados emergentes vivem há tempos. Podemos entender o Brasil como “prévia imperfeita” do futuro. Nós sempre fomos tratados como uma exceção, um país instável. O mundo rico não virou Brasil. Mas começou a descobrir algo que já sabíamos: estabilidade monetária não é algo permanente – e preservação de riqueza deixou de ser um detalhe técnico para ser uma necessidade existencial.

Mesmo os títulos do Tesouro atrelados à inflação podem oscilar violentamente, juros reais mudam preço de tudo e a marcação a mercado importa. O mundo rico sempre recomendou disciplina monetária aos emergentes. Agora, começa a descobrir os prazeres da volatilidade cambial, dos juros imprevisíveis, da inflação resiliente e da marcação a mercado. Bem-vindos ao clube. O Brasil não exportou estabilidade ao mundo. Mas talvez tenha exportado experiência em sobreviver sem ela.

 

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