quarta-feira, 10 de junho de 2026

Campanhas põem o Pix nos palanques, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

PT e PL enganam o eleitor ao tomar para si uma ferramenta que não pertence a Lula nem a Bolsonaro

Melhor defesa do Pix seria o apoio à emenda que amplia a autonomia do Banco Central

Nesta campanha eleitoral, o Pix foi posto no palanque e assumiu o lugar que já foi do Bolsa Família e, antes disso, da caderneta de poupança como objetos de disputa e terrenos férteis à plantação de mentiras entre partidos e políticos adversários. A característica em comum entre eles é o caráter de unanimidade nacional.

No século passado, a moda era acusar o oponente de planejar o sequestro do dinheiro da poupança dos brasileiros. Foi assim na primeira eleição presidencial direta, quando Fernando Collor pregou a suspeição em Luiz Inácio da Silva, ganhou a parada e no dia seguinte à posse confiscou praticamente tudo de todos.

Depois veio a onda de espalhar que os problemas sociais —Bolsa Família à frente— seriam extintos caso o PT fosse derrotado. Não aconteceu, a população incorporou o patrimônio como seu de direito para sempre e, a partir daí, tais benefícios perderam muito do apelo eleitoral.

O Pix é a bola da vez na disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A campanha do presidente trata a ferramenta como símbolo da defesa da soberania nacional, e o grupo do senador atribui o mérito ao governo de Jair Bolsonaro (PL).

Ambos navegam no mar da mentira e da contradição ao se apropriar do sistema concebido pela expertise tecnológica de um Banco Central autônomo, sob a presidência de Ilan Goldfajn, em 2018.


Dois anos depois, foi oficialmente lançado na gestão de Jair Bolsonaro, que, à época, nem sequer sabia do que se tratava. Achava que o Pix tinha algo a ver com aviação civil.

Já Lula incorre na incoerência de exaltar o fruto mais visível da autonomia do BC contra a qual o próprio presidente se posicionou mais de uma vez. Na eleição de 2014, a estratégia do PT de demolição da candidatura de Marina Silva, então no PSB, incluiu acusá-la de "entregar o país aos banqueiros" por defender a independência do Banco Central.

Lula e Flávio têm a chance de se redimir agora, quando tramita no Senado emenda que amplia autonomia do BC e põe o Pix sob o manto da Constituição.

 

 

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