Folha de S. Paulo
PT e PL enganam o eleitor ao tomar para si
uma ferramenta que não pertence a Lula nem a Bolsonaro
Melhor defesa do Pix seria o apoio à emenda
que amplia a autonomia do Banco Central
Nesta campanha eleitoral, o Pix foi
posto no palanque e assumiu o lugar que já foi do Bolsa Família e,
antes disso, da caderneta de poupança como objetos de disputa e terrenos
férteis à plantação de mentiras entre partidos e políticos adversários. A
característica em comum entre eles é o caráter de unanimidade nacional.
No século passado, a moda era acusar o oponente de planejar o sequestro do dinheiro
da poupança dos brasileiros. Foi assim na primeira eleição presidencial direta,
quando Fernando Collor pregou a suspeição em Luiz Inácio da Silva, ganhou a
parada e no dia seguinte à posse confiscou praticamente tudo de todos.
Depois veio a onda de espalhar que os
problemas sociais —Bolsa Família à frente— seriam extintos caso o PT fosse derrotado.
Não aconteceu, a população incorporou o patrimônio como seu de direito para
sempre e, a partir daí, tais benefícios perderam muito do apelo eleitoral.
O Pix é a bola da vez na disputa entre Lula (PT)
e Flávio
Bolsonaro (PL). A campanha do
presidente trata a ferramenta como símbolo da defesa da soberania nacional, e o
grupo do senador atribui o mérito ao governo de Jair
Bolsonaro (PL).
Ambos navegam no mar da mentira e da contradição ao se apropriar do sistema
concebido pela expertise tecnológica de um Banco Central autônomo,
sob a presidência de Ilan Goldfajn, em 2018.
Dois anos depois, foi oficialmente lançado na gestão de Jair Bolsonaro, que, à
época, nem sequer sabia do que se tratava. Achava que o Pix tinha algo a ver
com aviação civil.
Já Lula incorre na incoerência de exaltar o fruto mais visível da autonomia do
BC contra a qual o próprio presidente se posicionou mais de uma vez. Na eleição
de 2014, a estratégia do PT de demolição da candidatura de Marina Silva,
então no PSB, incluiu acusá-la de "entregar o país aos banqueiros"
por defender a independência do Banco Central.
Lula e Flávio têm a chance de se redimir agora, quando tramita no Senado emenda
que amplia autonomia do BC e põe o Pix sob o manto da Constituição.

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