quarta-feira, 10 de junho de 2026

Transparência vacinal, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Mortes e efeitos adversos graves relacionados ao imunizante do Butantan contra a dengue precisam ser investigados

Sucesso da vacinação na redução de óbitos no planeta depende de confiança do público em cientistas e autoridades

Até que se saiba melhor o que acontece com a vacina contra a dengue produzida pelo Butantan, é preciso mesmo seguir os protocolos, suspender a imunização e investigar os casos de efeitos adversos graves e óbitos. É exatamente isso que as autoridades estão fazendo. Ponto para elas. A pior coisa que poderiam fazer seria varrer o problema para debaixo do tapete.

Aritmeticamente, até faria sentido. Se a relação causal entre as duas mortes em investigação e a vacina for mesmo confirmada —o que ainda não aconteceu—, seus benefícios ainda seriam superiores aos estragos causados pela dengue no Brasil. Os dois óbitos entre os 500 mil imunizados até agora representam uma letalidade de 0,0004%, ou 4 mortes por milhão. Num ano tido como controlado, como foi 2025, o risco combinado de um brasileiro contrair dengue, desenvolver um quadro grave e morrer foi de 8 por milhão. Mas, num ano epidêmico, como foi 2024, essa taxa sobe para 30 por milhão.

O imunizante, pelos estudos até aqui publicados, oferece uma proteção de 79,6% em relação aos casos sintomáticos e de 89,2% contra os quadros graves. Ou seja, num ano não epidêmico, as mortes pela vacina ficariam abaixo dos da moléstia correndo sem imunizantes, mas o fármaco ainda nos pouparia de milhares de internações e doses incalculáveis de mal-estar. Num ano epidêmico, o placar ficaria esmagadoramente favorável ao imunizante.

Um ditador consequencialista benigno até poderia ficar tentado a ignorar os dados da farmacovigilância e seguir com a imunização. Provavelmente ninguém perceberia. Mas isso seria um erro. Vacinas são o presente mais valioso que a ciência já deu à humanidade. Segundo um estudo da Lancet, elas salvaram, só nos últimos 50 anos, 154 milhões de vidas no planeta. Esse pequeno milagre é possível não apenas porque conseguimos produzir imunizantes eficazes mas também porque as pessoas se dispõem a usá-los. E isso depende da confiança do público em cientistas e autoridades, que só se materializa quando há transparência.

 

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