O Globo
Políticos, na situação ou na oposição,
parecem considerar um direito inalienável gastar dinheiro público para ganhar
eleições
Os preços do diesel e da gasolina caíram em
maio, na comparação com abril. É o que mostra o IPCA, índice oficial de
inflação, medido pelo IBGE. Considerando apenas esses dados, se poderia dizer
que deram certo as medidas do governo de zerar impostos e conceder subsídios
aos combustíveis. Os consumidores deveriam estar satisfeitos, dando votos ao
governante que distribuiu as bondades, no caso o presidente Lula.
Será?
Nessa junção de economia e política, as coisas nem sempre são o que parecem. Tome-se o caso do óleo diesel. Em maio, depois das medidas postas em prática pelo governo, o preço caiu exatos 2,34%. Ocorre que, nos meses anteriores, a alta havia sido bem maior — 13,90% em março, mais 4,46% em abril, acumulando quase 19%.
O caminhoneiro, se notou a pequena queda de
maio, estará mais convencido de que o diesel continua caro. O índice de
inflação pode ter caído, mas o produto ainda é caro. E o governo federal gasta
mais de R$ 30 bilhões em renúncia fiscal e pagamento de subsídios para agradar
à categoria dos caminhoneiros, normalmente mais alinhada à direita.
No caso dos subsídios à gasolina, os números
são menores, mas o enredo é o mesmo. Preços em alta em março e abril, o governo
se assusta e baixa medidas que levam a uma pequena queda em maio. O combustível
continua caro. No total, essas medidas podem custar até R$ 40 bilhões,
dependendo do período em que sejam aplicadas.
Considerando as demais políticas aplicadas
pelo governo — de aumento de gastos e concessão de crédito subsidiado —, o kit
eleitoral para este ano já passa dos R$ 200 bilhões. E subindo. A mais recente
medida prevê R$ 4 bilhões em crédito barato para entregadores de aplicativos
comprarem motos. E não é certo que isso se traduza em votos. Mesmo porque há
outros atores gastando.
Senadores e deputados já não têm muita
preocupação com a despesa pública. Quando veem Lula abusando do Orçamento com
objetivos claramente eleitorais, encontram aí um bom motivo para buscar seu
pedaço. Só na semana passada, o Congresso encaminhou a votação de bondades que
podem custar outros R$ 200 bilhões aos cofres públicos.
O governo reclama do que chama de “bomba
fiscal”. Tem razão. Mas só parcialmente. Somando os gastos eleitorais do
Executivo, só os mais recentes, mais as despesas previstas no Congresso, temos
uma superbomba que passa dos R$ 400 bilhões. E tudo bem?
Parece que nos acostumamos a esse tipo de
coisa. Nas análises políticas e econômicas independentes, a gente sempre
encontra a tese de que ano eleitoral é isso mesmo, um momento de gastança. Políticos,
estejam no Executivo ou no Legislativo, na situação ou na oposição, parecem
considerar um direito inalienável — esse de gastar dinheiro público para ganhar
suas eleições. É ingenuidade esperar algum controle do Judiciário. Lá, eles
estão mais preocupados com seus penduricalhos.
Está aí o maior problema da economia
brasileira: o desajuste fiscal, o crescimento da despesa sempre acima da
receita. Todo ano, o Orçamento fecha no vermelho, obrigando o governo a tomar
mais dinheiro emprestado para tapar os buracos. Resultado: a dívida pública já
bate nos 80% do PIB, e subindo. Está muito acima dos países emergentes com grau
de investimento concedido pelas agências de classificação de risco.
O atual governo Lula tem aumentado seus
gastos na faixa de mais de 5% ao ano, descontada a inflação. Um governo no
vermelho e com dívida alta tem de pagar juros elevados para se financiar. Esse
juro alto, como a taxa básica atual de 14,5%, torna-se referência para todo o
mercado. E um empecilho ao crescimento sustentado.
Em julho de 1994, o real entrou em
circulação. E o Brasil se livrou da hiperinflação que nos assolava havia anos.
Por um breve momento no governo FHC e no Lula 1, houve algum ajuste fiscal.
Depois, tudo desandou. Verdade que houve um brevíssimo ajuste no governo Temer,
mas foi um ponto fora da curva. E assim estamos hoje diante do maior desafio:
equilibrar as contas
públicas. Desgraçadamente, não há consenso político nessa direção.

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