Valor Econômico
“Ninguém dorme, ninguém dorme”, é o estado de nervos na capital federal
Um político experiente, que circula entre
Brasília e São Paulo, com trânsito nos três Poderes e no setor produtivo,
depois de ouvir muito, resumiu assim o estado de nervos na capital federal:
“Ninguém dorme, ninguém dorme”.
Nada mais apropriado para descrever Brasília em tempos de crise do Banco Master do que uma frase que remete à ópera “Turandot”, de Giacomo Puccini. No ato final, o príncipe Calaf canta a ária “Nessun dorma” - “Que ninguém durma”, em livre tradução. A princesa Turandot proíbe que os súditos durmam naquela noite enquanto não descobrirem o nome do príncipe. Do contrário, todos morrerão e ela teria de se casar com ele.
A ária foi imortalizada pelos tenores
italianos, como Luciano Pavarotti e Andrea Bocelli - este último, teria sido
contratado para a festa privada de Daniel Vorcaro em Taormina, na Sicília, que
teve custo estimado de R$ 222 milhões, segundo o g1. Tradicionalmente, duplas
sertanejas e grupos de pagode embalam as festas e jantares de políticos em
Brasília. Nunca, entretanto, as trágicas árias italianas combinaram tanto com o
Planalto Central.
Em meio a noites insones, as atenções se
voltam nesta sexta-feira (13) para o início do julgamento na Segunda Turma do
Supremo Tribunal Federal (STF) que poderá confirmar, ou revogar, a decisão do
ministro André Mendonça que levou à segunda prisão de Vorcaro, desta vez em 4
de março. A análise que pode ser concluída em um dia, ou até em uma semana,
aguarda os votos dos ministros Gilmar Mendes, Luiz Fux e Nunes Marques. Há
intensa torcida nos bastidores pela soltura do banqueiro, diante do temor que
paralisa a capital de que ele negocie uma delação.
A percepção quase unânime é de que sem
dúvida, a crise do Banco Master é o maior escândalo político e financeiro do
país em 136 anos de República. Na noite de terça-feira (10), nos corredores
vazios do Senado, a coluna esbarrou em um dos quadros políticos mais
experientes do Legislativo, e ouviu dele a seguinte reflexão sobre a atual
conjuntura: o clima é de “barata voa”, ninguém sabe o que fazer, com quem
conversar, em quem confiar.
A coluna indagou se esse ambiente lembrava os
tempos da Operação Lava-Jato, com operações rotineiras da Polícia Federal
contra políticos do alto escalão e empresários influentes, mas ele reagiu: “A
Lava-Jato é um departamento perto da crise do Master porque tem braços para
todos os lados, pega todos os Poderes, pega governadores, pega o Banco Central,
ninguém escapa”, alegou.
Impera na Praça dos Três Poderes o sentimento
generalizado de apreensão e desconfiança, e não há clima para se votar nada.
Circulam rumores de novas operações da Polícia Federal quase diariamente, e
ninguém sabe o que sairá dos sucessivos vazamentos de movimentações financeiras
do Master e da Reag Investimentos, ou qual nome de político ou autoridade
surgirá nas novas transcrições de mensagens de aplicativos.
O governo esperava avanços no Senado das
indicações do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo, de nomes
para diretorias do Banco Central, da PEC da segurança pública, mas a
comunicação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), está
interditada. O chefe do Legislativo reclamou a interlocutores das constantes
operações da PF em sua base eleitoral.
Nesta semana, agentes da PF flagraram o
segundo suplente de Alcolumbre, o empresário Breno Chaves Pinto, fazendo saques
vultosos em dinheiro. Ele é investigado em suposto esquema de fraudes em
licitações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). No
mês passado, o alvo da PF foi o então presidente da Amapá Previdência, Jocildo
Silva Lemos, pela aplicação de R$ 400 milhões do fundo de previdência dos
servidores estaduais no Master. A nomeação dele foi atribuída a Alcolumbre, que
desmentiu.
Pesquisas confirmaram a crise institucional.
Entre escândalos do Master e pagamentos imorais de penduricalhos, em especial,
o Supremo e o Poder Judiciário como um todo enfrentam crise de imagem e
confiança. Segundo o Datafolha, o índice de brasileiros que não confiam no
Supremo chegou a 43%, maior taxa registrada desde o início da série, em 2012.
Má notícia para a democracia brasileira, que foi preservada pelo STF no
histórico julgamento da tentativa de golpe de Estado. A crise fragiliza as
instituições, contribui para a imagem de vítima que Jair Bolsonaro cultiva e
ajuda a impulsionar seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na corrida
presidencial.
Flávio
As novas rodadas de pesquisas divulgadas nesta
semana surpreenderam até mesmo generais da pré-campanha de Flávio Bolsonaro.
Uma liderança do PL admitiu à coluna que esperava esse desempenho do filho do
ex-presidente por volta de maio - ou seja, faltando ainda dois meses. Primeiro,
o Datafolha trouxe o empate técnico do senador com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva no segundo turno. Quatro dias depois, na quarta-feira (11), a
Quaest agravou o quadro para o PT, trazendo um empate numérico, com os dois
adversários pontuando 41% em eventual segundo turno. Nesse cenário, aumenta a
curiosidade quanto ao “posto Ipiranga” de Flávio. Esta fonte do PL disse que
ele está ouvindo muita gente, mas ainda faltou dar o “match”, como se deu com
Paulo Guedes em 2018. O time de consultores inclui Mansueto Almeida, Campos
Neto e Daniella Marques

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