Por Marcus Lopes / Valor Econômico
Em “Sociedade digital”, o pensador espanhol
mostra que a comunicação digital transformou para sempre o modo de viver e
conviver em sociedade
Em 1986, menos de 1% da informação mediada no
planeta estava armazenada em formato digital, índice que hoje supera os 99,5%.
O número de usuários de internet ao redor do globo terrestre saltou de 2,6
milhões, em 1990, para 5,3 bilhões em 2022. Já a quantidade de contas de
telefonia celular passou de 23.500, em 1980, para mais de 8 bilhões em 2020,
segundo dados do Banco Mundial.
Em poucas décadas, as populações que vivem
nas mais diferentes partes do planeta presenciaram a transformação de uma
realidade analógica para a digital, com reflexos em todos os setores da sociedade.
Da organização espacial das cidades aos conflitos geopolíticos entre nações, a
comunicação digital transformou para sempre o modo de viver e conviver em
sociedade, conforme demonstra o sociólogo espanhol Manuel Castells em
“Sociedade digital”.
Um dos maiores estudiosos da internet e mobilizações sociais da atualidade, Castells analisa a rede e os seus efeitos na comunicação e nas relações entre as pessoas, desde a década de 90. Efeitos que, conforme demonstra no livro, foram potencializados com o lançamento do iPhone, em 2007, pela Apple. O aparelho desenvolvido pela equipe de Steve Jobs é considerado como a tecnologia-chave para uma nova esfera da interação entre as pessoas e a comunicação em massa.
O livro é dividido em partes que abordam
temas muito discutidos na atualidade e com impacto direto sobre todos nós, como
as fake news, o trabalho remoto, as mudanças no mercado financeiro por conta
das criptomoedas e os impactos das big techs e das redes sociais sobre a
sociedade. Em linguagem densa e acadêmica, mas acessível ao leitor, o autor
mostra as relações de causa e efeito proporcionadas pela tecnologia em cada um
dos assuntos abordados.
Ao partir da constatação de que se trata de
um processo irreversível, Castells coloca os desafios produtivos, éticos e
morais impostos pela sociedade digital, ao mesmo tempo que toma o cuidado para
não vilanizar ou endeusar a tecnologia. É preciso, isso sim, mostrar os efeitos
da digitalização na dinâmica social e possíveis caminhos para que os meios
tecnológicos sejam utilizados como fator de desenvolvimento político, econômico
e, principalmente, social.
Exemplo disso é a educação a distância (EAD).
Amparado em estudos acadêmicos e pesquisas, Castells defende o ensino
presencial ao mostrar que o ensino remoto é mais benéfico às instituições de
ensino que o promovem, dadas as características do modelo, do que aos alunos
matriculados. Por outro lado, o EAD pode ser uma ferramenta válida aos alunos
que desejam o aprimoramento profissional em uma segunda graduação ou em cursos
de extensão.
A sala de aula virtual também é um formato
eficiente para levar o ensino formal a áreas remotas. “Sendo assim, é essencial
melhorar a qualidade, a metodologia e a infraestrutura de conectividade para
uma implementação frutífera da educação e capacitação vocacional em grande
escala”, escreve o autor, frisando a necessidade de garantir o acesso dos
estudantes de baixa renda a essa infraestrutura tecnológica.
A exclusão digital advinda da desigualdade
social é uma das grandes preocupações do acadêmico. Mas não basta garantir
apenas a conectividade universal, independentemente de classe social, gênero,
nacionalidade ou raça. Para Castells, que cita a Agenda 2030 das Nações Unidas
para universalização do acesso à internet, a inserção digital deve vir
acompanhada de um sentido para o usuário, de forma que a tecnologia atenda aos
seus anseios e desejos proporcionados pela conectividade.
A desigualdade social e econômica, na visão
do pensador, deságua em outro problema crescente da sociedade moderna: a
polarização política, cujas raízes estão na crise de legitimidade das
instituições tradicionais que ditaram os rumos da humanidade por muitos
séculos, incluindo a igreja e o próprio Estado. Sem a mediação de instituições
confiáveis capazes de gerenciar conflitos e garantir o bem-estar da população,
o choque de valores e interesses parece ser irreconciliável. “O fim da
confiança conduz a uma era de incertezas”, escreve Castells.
A incerteza coletiva, a ansiedade individual e a desconfiança permanente nas instituições e nas elites desaguam na internet, espalhando rumores e desinformação. “Vivemos na era da pós-verdade, e um componente-chave dessa desorientação mal-informada é a distorção da realidade num sistema de autocomunicação de massa com pouca regulamentação.”
É importante destacar, entretanto, que a
internet não é, necessariamente, a causa da polarização, e sim uma forma de
aprofundá-la. “A polarização ideológica e política na sociedade fica
concentrada na atividade de minorias vocais que se agarram às suas crenças em
espaços dedicados e lutam sem parar contra visões contrárias.”
Pesquisas feitas nos Estados Unidos, entre 1996 e 2016, mostram que, embora a polarização tenha aumentado em todas as faixas etárias, o aumento foi muito maior entre as pessoas com mais de 65 anos do que entre os jovens entre 18 e 39 anos. “Descobrimos que a polarização aumentou mais entre os grupos menos propensos a usar a internet e as redes sociais”, afirma Castells.

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