sábado, 13 de junho de 2026

IA é o novo polvo Paul, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Deixamos de lado os experts para confiar à IA a previsão sobre o vencedor da Copa de 2026

Na Copa do Mundo de 2010, o polvo Paul ficou famoso por prever corretamente todos os resultados da seleção alemã. Polvo, vidente, sinais no céu, cartas de tarô – nós sempre buscamos algo ou alguém para nos dizer o futuro.

Hoje, o nosso Oráculo de Delfos se transformou em tecnologia. O ganhador da Copa de 2026 está sendo urgido por ferramentas desenvolvidas para selecionar ações em Bolsas de Valores. Deixamos de lado a opinião de experts como técnicos, ex-jogadores e jornalistas esportivos e passamos o bastão para especialistas em fatores de risco, regressões estatísticas e modelos probabilísticos.

Pode parecer exagero, mas não é. Nos últimos anos, bancos, fundos e pesquisadores passaram a aplicar ao futebol métodos originalmente criados para o mercado financeiro e, recentemente, entraram nesse jogo modelos de IA e os mercados de apostas. O objetivo é simples: descobrir quem tem maior probabilidade de levantar a taça. Alguns desses modelos acertaram vencedores com precisão impressionante. É o caso do estrategista de mercado Joachim Klement, que ficou conhecido porque criou um modelo inspirado em fatores usados em finanças para prever Copas do Mundo. O modelo acertou Alemanha (2014), França (2018) e Argentina (2022).

O mais curioso é que seu criador não estava tentando provar que os economistas conseguem prever o futuro. Estava

fazendo uma sátira da pretensão dos modelos econômicos. Em 2026, ele aposta na Holanda. Outros modelos baseados em algoritmos apontam como campeã a Espanha, enquanto as casas de apostas preferem França e Argentina.

A divergência talvez diga mais sobre nossa relação com o futuro do que sobre o futebol. Afinal, se nem as máquinas concordam, por que continuamos procurando previsões com tanta convicção? Pela nossa dificuldade em conviver com a incerteza. Bilhões de pessoas estão buscando previsões sobre quem levantará a taça. Economistas construindo modelos. Algoritmos calculando probabilidades. Bets transformando expectativas em preços. No entanto, neste momento, a bola está rolando. Um desvio, uma expulsão ou um pênalti improvável poderão derrubar em segundos meses de cálculos e milhões de linhas de dados.

Talvez essa seja a verdadeira lição da Copa. O problema nunca foi a falta de informação. O problema é que confundimos probabilidade com certeza. A Copa talvez seja a melhor metáfora do século 21: nunca tivemos tantos dados para prever o futuro – e nunca estivemos tão conscientes de que ele continua nos escapando. Quanto ao vencedor de 2026? Eu continuo preferindo a velha irracionalidade da esperança. Afinal, certas previsões pertencem à estatística. Outras, à torcida. Brasil hexacampeão. •

Nenhum comentário: