segunda-feira, 6 de julho de 2015

Meta do 'novo PMDB' é conquistar Presidência

Alberto Bombig e Caio Junqueira – O Estado de S. Paulo

Enquanto busca ampliar desgaste de Dilma, partido trabalha para construir imagem de "realizador" e "anti-PT", de olho em candidatura própria em 2018.

Com ou sem Dilma Rousseff, o PMDB decidiu que vai trabalhar para manter-se no poder a partir de 2018, mas trocando o Palácio do Jabuti, sede da Vice-Presidência, pelo do Planalto. A despeito da crise que engole a atual gestão da presidente e dos rumores de encurtamento do mandato dela, os líderes peemedebista traçaram um projeto para ter um candidato forte na disputa pela Presidência daqui a três anos e meio.

Se Dilma permanecer até o fim de seu mandato, o caminho do PMDB rumo ao Planalto passará pelas gestões de Renan Calheiros (AL) e de Eduardo Cunha (RJ) nos comandos das duas Casas do Congresso e pela administração do prefeito Eduardo Paes no Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Antes de falar em nomes, a cúpula peemedebista acha que precisa utilizar essas três frentes para imprimir uma imagem de partido "pragmático", capaz de criar um terceira via entre a polarização tucano-petista das últimas décadas.

A intensa agenda imposta por Cunha e Renan no Legislativo, aliada ao sonhado sucesso dos Jogos, daria ao partido a oportunidade de construir um discurso "realizador" em 2018. Se isso der certo, o mais provável é que Paes e Cunha disputem a indicação para ser o candidato.

Até lá, Cunha e Renan devem trabalhar para manter Dilma fragilizada, pois uma presidente fraca significa um Executivo fraco, o que abre espaço para um Legislativo forte, avaliam. A estratégia dos dois é desgastar Dilma mediante sucessivas derrotas no Congresso.

A pauta de Cunha e de Renan busca o apelo popular, setorial e "federativo". Enquanto isso, Cunha cresce e se consolida como o "anti-PT". Segundo apurou o Estado, ele encomendou uma pesquisa de intenção de voto para presidente na qual aparece com 5%. Esse porcentual aumenta quando o nome do PSDB é Geraldo Alckmin (SP), e não Aécio Neves (MG).

No caso de Cunha, porém, antes de qualquer pretensão eleitoral, ele tem de ser inocentado na investigação dos desvios e da corrupção na Petrobras, em que é acusado de ter recebido dinheiro do esquema. Quanto a Renan, também implicado nesse caso, o próprio partido avalia que ele tem uma imagem desgastada.

Serra e empresários. Outra alternativa discutida dentro do PMDB inclui uma aproximação com o senador José Serra (PSDB-SP). Veterano em disputais presidenciais (ficou em segundo em 2002 e em 2010), ele garantiria ao PMDB uma candidatura competitiva e agregaria ao partido, ao qual já foi, inclusive, filiado, o discurso da "experiência" para lidar com momentos de turbulência política e econômica – o PMDB ainda precisa conquistar a confiança do empresariado nacional.

Serra mantém bom relacionamento com o PMDB no Congresso, mas a missão de convencê-lo a deixar o PSDB ainda é o maior entrave para esse "plano b". Serra tem respondido às sondagens com afirmação de "ainda é cedo para falar sobre 2018".

Temer. O próximo passo do projeto peemedebista de voltar ao Planalto após o fim da gestão Sarney (1985-1990) é a saída do vice-presidente Michel Temer da função de articulador político de Dilma. O grupo do vice não estaria disposto a esperar as eleições de 2018.

O combinado é que Temer deixe a função após o recesso parlamentar para que o PMDB posso discutir com mais desenvoltura uma eventual saída de Dilma da Presidência. A avaliação entre os líderes peemedebistas é de que "a crise atual é a própria presidente" e de que Temer funciona como uma proteção a Dilma. Por esse raciocínio, sem Temer, Dilma ficaria desprotegida e abriria um canal de comunicação para que ela mesma possa ouvir sugestões sobre a possibilidade da renúncia. Renan e Cunha são contra a estratégia.

2016 será laboratório para ruptura eleitoral

• Dirigentes do PMDB pregam Lançamento de candidatos próprios nas capitais, reduzindo as alianças locais com o PT.

Daniel Carvalho – O Estado de S. Paulo

O discurso separatista cada vez mais forte do PMDB nacional já começa a apresentar reflexos no mapa eleitoral que se desenha nas capitais para 2016. Se em 2012 a legenda marchou ao lado do PT em oito capitais no 1.° turno, esse número deve cair ao menos 50% no próximo ano. Levantamento do Estado em todas as 26 capitais brasileiras mostra que a tendência é de que haja aliança em quatro delas. Em 15, PT e PMDB devem ficar em lados opostos. A situação é indefinida em sete capitais.

A ideia entre lideranças do PMDB é de que a cisão se inicie pelas duas cidades de maior eleitorado no Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro, e contamine as demais capitais. A intensa agenda legislativa que os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pretendem imprimir no segundo semestre com vistas a aliviar a situação financeira de Estados e municípios se insere nessa estratégia de criar um discurso para atrair prefeitos para a legenda, que detém o maior número de gestões municipais do País.

Em São Paulo, a sigla trabalha com três nomes: Gabriel Chalita, atual secretário de Educação da gestão Fernando Haddad (PT) e candidato derrotado no 1.° turno em 2012; Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e segundo lugar nas eleições pelo governo do Estado em 2014, e o deputado estadual Jorge Caruso. "Não vamos deixar de dialogar com os outros partidos, mas a tendência é ter candidatura própria", disse o deputado Baleia Rossi, presidente do diretório paulista do PMDB.

O vice-presidente Michel Temer, que é presidente nacional do PMDB, defende cautela antes do rompimento e ainda analisa as reais condições de vitória.

O líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani, também acredita que não será difícil para o partido explicar ao eleitorado no Rio o rompimento com o PT. "O PMDB está no governo para garantir a governabilidade. Não está como um aliado entusiasmado. Acho que a população tem compreendido bem isso." Pupilo de Cunha e filho de Jorge Picciani, presidente da Assembleia Legislativa do Rio e do PMDB fluminense, o deputado federal quer disputar a prefeitura carioca, mas terá de enfrentar a disputa interna com outro possível candidato, o deputado federal licenciado Pedro Paulo, secretário-executivo de Coordenação de Governo do atual prefeito carioca e seu padrinho político, Eduardo Paes (PMDB). O PT tem a vice-prefeitura do Rio e está dividido quanto à manutenção da aliança.

O descolamento do PT e do Planalto também começa a afetar o debate em outras capitais. "Temos boa relação com o PT, mas a imagem do partido está muito desgastada", disse o deputado João Arruda (PR). O PMDB paranaense deve lançar o filho do senador Roberto Requião, Requião Filho, à prefeitura de Curitiba. Nas últimas eleições, PT e PMDB foram aliados em oito capitais: Maceió, Manaus, Goiânia, São Luís, Cuiabá, Belo Horizonte, Rio e Aracaju. Em São Paulo, Chalita apoiou Haddad no 2.° turno.

Agravamento da crise política ameaça o mandato de Dilma

Raymundo Costa – Valor Econômico

BRASÍLIA - Cercada pelo parlamento, afastada dos movimentos sociais e no curso de um arrocho fiscal que suprimiu direitos trabalhistas e previdenciários, quando prometeu exatamente o contrário na campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff aposta suas últimas fichas no PMDB, a fim de recuperar governabilidade e se manter no cargo, onde está mais fraca a cada dia. O compromisso do PMDB, segundo seus dirigentes, é com a aprovação do ajuste fiscal e só depois analisar o leque de alternativas.

Dilma ampliou os poderes do vice-presidente Michel Temer, presidente do PMDB, na coordenação política, o que não é levado muito a sério pelos próprios pemedebistas. O vice agora pode também cobrar diretamente dos ministérios a nomeação das indicações partidárias para os cargos no primeiro escalão. As nomeações acertadas por Temer ou param na Casa Civil ou são boicotadas pelos próprios ministros de cada área. O resultado é a rebelião da base nas votações.

"O problema é que o governo não cumpre nada", disse um dos integrantes da coordenação política ao Valor. "O Aloizio [Mercadante, ministro da Casa Civil] segura o que o Michel combina com as bancadas e o Joaquim Levy [ministro da Fazenda] não libera emendas. Tem prefeituras em estado lastimável". O argumento que o ministro usa para não pagar, segundo esse líder, é que o Orçamento agora é impositivo para as emendas parlamentares. Ele não teria muito a fazer. Mas as demandas da base concretamente se referem aos restos a pagar dos exercícios de 2013 e 2014.

A crise já é discutida pelas cúpulas dos principais partidos, inclusive da oposição - o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deve ter um papel importante nas discussões. É consensual que a crise do governo se acelerou na última semana, após a delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, e da popularidade da presidente despencar para a casa de um dígito nas pesquisas. O afastamento da presidente é hoje uma possibilidade maior que um mês atrás, quando Temer conseguiu reunir uma maioria para aprovar as medidas do ajuste fiscal, ao preço de ceder algumas mudanças.

Não fosse a aprovação do ajuste - falta ainda votar a medida das desonerações -, Dilma teria perdido de vez o controle da agenda do Congresso, que lhe impõe derrota em cima de derrota. Para ficar apenas em duas delas, Dilma perdeu o poder de indicar pelo menos mais quatro ministros do Supremo tribunal Federal, com a aprovação da PEC da Bengala, e na semana passada o Senado aprovou um aumento para o Judiciário que põe em xeque o ajuste fiscal. "A presidente está perdendo as condições de governar", disse o senador José Serra (PSDB), mais sobretudo com a liberalidade fiscal do Congresso, nos últimos dias.

Do ponto de vista de aliados da presidente, a situação de Dilma se complica objetivamente por uma crise que se desdobra em três níveis. Num deles estão as manobras do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em parceria com o PSDB do senador Aécio Neves, candidato derrotado por Dilma na eleição de 2014, para desgastar e inviabilizar o governo. Cunha é a voz mais influente na defesa do afastamento de Temer da coordenação política. Argumento: ele é parte da solução do problema.

Outro nível é a Operação Lava-Jato. Ao fazer sua delação premiada, o empreiteiro Ricardo Pessoa definitivamente complicou o governo e o PT, ao colocar dinheiro da corrupção na Petrobras na reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, mas também na da presidente Dilma em 2014. Aliados de Dilma reconhecem que foi um erro a nomeação do ministro Edinho Silva (Comunicação de Governo, tesoureiro da campanha), citado na delação. Levou a Lava-Jato para dentro do Palácio do Planalto.

O terceiro nível é o ministro do STF Gilmar Mendes, relator de uma ação de impugnação da chapa Dilma-Michel feita pelo PSDB por abuso de poder econômico na campanha presidencial. Mendes estaria pronto para ouvir pessoas no âmbito da Lava-Jato, inclusive o dono da UTC, segundo informações chegadas ao PT. Há uma preocupação grande com as planilhas entregues por pessoa em sua delação premiada: relaciona a oposição, o fato é que os mais prejudicados serão o governo e o PT.

No quadro de agravamento da crise, já se discute as hipóteses para a sucessão antecipada de Dilma. A solução considerada menos traumática é que o cargo seja assumido pelo vice Michel Temer. Isso ocorreria no caso de a presidente renunciar ou sofrer o impeachment. No caso de impedimento, Dilma seria o segundo mandatário a ser afastado pelo Congresso num espaço de 30 anos de democracia contínua, o mais longo já vivido no país.

A pior solução seria a impugnação da chapa Dilma-Michel, o que deixaria o governo nas mãos de Eduardo Cunha - o presidente da Câmara é o segundo na linha sucessória -, num momento em que o deputado está particularmente forte. Cunha teria de convocar novas eleições, num prazo de 30 dias, se a impugnação da chapa ocorrer antes da metade do mandato, numa conjuntura delicada de um país dividido. Além disso, Cunha não é confiável para as elites políticas. Se o afastamento da chapa ocorrer depois da metade do mandato, o Congresso elege diretamente um sucessor.

A aposta de Dilma é o PMDB, apesar de suas divisões internas. A presidente ainda pode tentar mudar todo o ministério para se recompor com o Congresso, o que é improvável no caso de um governo fraco e agonizante, mas possível se recuperar popularidade.

De imediato, seria necessário unir o PT e se acertar com Lula. O problema, segundo um líder, é que "Dilma está cercada por um grupo que hostiliza o Lula e o Lula por um grupo que hostiliza a Dilma. E um não tem a humildade de se aproximar do outro".

Dilma demonstra impaciência e passa a questionar Levy em reuniões

Natuza Nery – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Joaquim Levy tem recebido pouca atenção da presidente. Recentemente, um funcionário notou que nem os incontáveis e-mails diários ela anda respondendo.

Nas reuniões internas de governo, o ministro da Fazenda passou a ser constantemente questionado pelos colegas e pela própria chefe. A discordância aumentou à medida que a crise econômica acelerou a queda na popularidade de Dilma Rousseff.

Auxiliares definem o "climão". Há apenas seis meses no cargo, Levy foi parar na "geladeira". Trata-se de um destino comum para quem convive com a presidente. Quando ela se aborrece com algo, manda o assessor para a "Sibéria", como se brinca no Planalto, até que sua paciência seja restabelecida.

Ministros explicam que tem sido difícil para ela renegar as suas próprias convicções para devolver, com um ajuste fiscal que fatalmente condenaria em tempos normais, a estabilidade econômica. A situação política, dizem, acentua essa ansiedade.

Quem observa as discussões do Executivo afirma que Levy costumava ganhar a maioria das disputas internas. Agora, tem obtido bem menos vitórias.

Recentemente, foi contrário a diversos pontos do plano de exportações. Não ganhou todos e, incomodado, não foi ao evento do anúncio. O comportamento turrão, contam assessores presidenciais, não vem agradando.

Mais e mais, o ministro tem deixado reuniões de governo antes de elas terminarem. Não raro, aparece atrasado. O hábito surpreende aos que perseguem a pontualidade com medo de pitos da chefe.

Cansada de ouvir "não" do auxiliar, e envenenada por queixas de ministros classificando-o de "arrogante" e "solista", por nunca dividir a bola, Dilma começou a transparecer alguma insatisfação.

Nos bastidores, Levy já foi visto se referindo ao PT como "aquela agremiação". Também não esconde, por vezes, o aborrecimento com o partido do governo, contrário a várias medidas do ajuste fiscal.

Em reunião de coordenação, grupo que reúne presidente, ministros e líderes do Congresso, o governo quebrava a cabeça sobre o que fazer com a criação de alternativa ao fator previdenciário, que terá forte impacto futuro sobre os cofres públicos.

Levy, como de hábito, reagiu às propostas. Dilma retrucou no ato. "Estou aqui tentando encontrar uma solução. O que você quer que eu faça, Levy?", indagou ela ao ministro, conforme contaram três pessoas presentes.

Há meses, o titular da Fazenda repete em conversas reservadas que o governo precisa dar a mensagem de dificuldade, e não de otimismo, pois o cenário é muito difícil.

"Aviso o que dá para ficar de pé e o que não adianta prometer", disse a um interlocutor ouvido pela reportagem.

Pescaria
Dono de agenda cheia, Levy imprimiu um ritmo grande de trabalho à sua equipe. Outro dia, liberou os secretários do ministério às 4h. Duas horas depois, estava de volta.

Não por acaso, é frequentemente flagrado "pescando" em reuniões. No governo, há quem relacione tal ritmo com a embolia pulmonar identificada na semana retrasada.

A "pescaria", contudo, não é a válvula de escape de Levy. Quando está no Rio, e estressado, costuma desaparecer por uma hora. Para encontrá-lo, basta ir à baía de Guanabara. Lá estará o ministro, feliz, com seu "Fusquinha". Não, Levy não tem um Volks vintage, nem sua nova encarnação modernizada. "Fusquinha" é seu barco a vela.

Outro dia, reagindo a rumores de redução iminente da meta do superavit primário, o dono do "Fusquinha" apressou-se para alertar: "Não pode é deixar o barco bater nas pedras".

Troca de partido cresce entre senadores

Vandson Lima - Valor Econômico

BRASÍLIA - A decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF) de que a regra da fidelidade partidária não se aplica a mandatos majoritários desencadeou no Senado mais de uma dezena de negociações de parlamentares para trocar de legenda.

De malas prontas para o PMDB, o ex-governador do Mato Grosso, senador Blairo Maggi, que está no PR, puxa a fila dos que se viram livres para seguir outro rumo político. "No meu caso, não tenho pretensão de voltar a ser governador, nada disso. Vou para o PMDB porque quero um partido sem dono, maior, com mais influência nas grandes questões nacionais", diz. O dono do PR ao qual Maggi se refere é Valdemar Costa Neto, ex-deputado federal condenado no escândalo do mensalão.

As pretensões do PMDB de ter candidatura própria a presidente nas eleições de 2018 são levadas em conta pelo senador. Ele se diz ciente do burburinho corrente na cúpula da sigla que aponta José Serra (PSDB-SP) como candidato ideal na disputa pelo Palácio do Planalto.

"Tem vários nomes no PMDB que seriam fortes, mas é claro que uma ida do Serra coloca a conversa em outro patamar. Aumenta muito a chance de vencer. Sou totalmente favorável", atesta. Uma eventual migração de Serra, no entanto, é vista como um movimento a ser feito mais adiante.

O PMDB, diz Maggi, não desistiu ainda de filiar Marta Suplicy ao partido, em que pese a iminente ida da senadora ao PSB.

O partido, aliás, é o mais ativo nas negociações no Salão Azul, por onde transitam os senadores entre seus gabinetes, a Câmara e o plenário da Casa: além de Marta, o PSB já acertou a adesão da ex-tucana Lúcia Vânia (GO) e negocia com pelos menos mais três nomes: Alvaro Dias (PSDB), rompido com o correligionário e governador do Paraná, Beto Richa; e dois senadores considerados as "noivas" mais disputadas do parlamento: os petistas Paulo Paim (RS) e Walter Pinheiro (BA). Insatisfeitos com o rumo da política econômica tocado pelo governo Dilma, os senadores, ambos filiados ao PT há aproximadamente três décadas, avaliam as ofertas de desembarque.

Paim recebeu convites de praticamente todas as legendas, inclusive do PSDB, feito pessoalmente pelo presidente do partido, Aécio Neves (MG). Diz que sua propensão é aceitar o desafio em uma sigla nova, como a Rede, da presidenciável Marina Silva, mas não descarta o PSB.

"Conversei com a Marina e claro que me atrai a possibilidade de construir um partido com outra proposta, outras prioridades" diz. "Minhas diferenças são principalmente com o governo Dilma, mas também com o PT, que deveria se pautar por levar o governo para outro caminho que não esse, de ajuste fiscal nas costas do trabalhador somado a distribuição de cargos", avalia.

Pinheiro é outro cujas sondagens não cessam. Do PSD, do também senador baiano Otto Alencar, ao PRB, foram vários convites. Até o PTB, de Fernando Collor, procurou-o. Caso deixe o PT, o que só deve ocorrer a partir de 2016, o caminho natural seria o PSB.

Presidente do PSB, Carlos Siqueira vislumbra que a sigla, que conta com seis senadores e agregará mais duas com Lúcia Vânia e Marta, pode chegar a uma dezena. "Nosso partido tem um espaço a ocupar nesse momento da vida política brasileira. Fomos atrás de alguns senadores com bandeiras do nosso gosto, mas temos sido até mais procurados do que estamos procurando", garante.

Além dos nomes citados, Siqueira diz que há outros, mas que "se determinadas conversas forem a público, atrapalham a negociação".

Potencial candidato à Prefeitura do Rio em 2016, Marcelo Crivella é sondado no PDT, partido mais estruturado para a disputa na cidade que o seu PRB. No entanto, a garantia do presidente do PRB, Marcos Pereira, de que lhe dará legenda para concorrer no próximo ano esfriou as negociações.

Presidente do PSDB, Aécio tem atuado fortemente nos bastidores para angariar nomes e tentar fazer dos tucanos a segunda maior força da Casa. Hoje o PT tem 13 senadores e o PSDB, 11. O PMDB segue como o maior partido do Senado, com 17 cadeiras - 18, a contar a ida de Blairo.

Foram sondados recentemente pelo partido, além de Paim, Ana Amélia (PP-RS), Ricardo Ferraço (PMDB-ES), Reguffe (PDT-DF) e Eduardo Amorim (PSC-SE). Só está acertada a transferência deste último, no fim do ano, por conta de compromissos assumidos no Estado com a sua atual sigla. A mudança na correlação de forças no Senado, no entanto, não altera a regra de proporcionalidade na distribuição de espaços nas comissões da Casa.

De acordo com o artigo 78 do regimento interno, em seu parágrafo único, para fins de proporcionalidade, as representações partidárias são fixadas na diplomação, no início da legislatura, salvo nos casos de posterior criação, fusão ou incorporação de partidos.


Crise chega ao comércio popular, e vendas têm queda de até 40%

• Com medo de perder emprego, consumidor corta gasto com "lembrancinha"

João Sorima Neto e Marcello Corrêa – O Globo

Mesmo oferecendo preços mais baixos que a média do varejo, o comércio popular já sente os efeitos da crise econômica brasileira. Nos grandes centros de São Paulo, Rio, Nova Friburgo e Petrópolis, lojistas relatam queda de até 40% nas vendas. Segundo os próprios comerciantes e analistas do setor, o quadro negativo é causado pela piora no mercado de trabalho e alta da inflação — que consome a renda disponível do consumidor, sem dinheiro nem crédito sequer para os gastos menores.

Rio e São Paulo fecham lojas
Normalmente, quem vende barato demora a sofrer quando a economia vai mal, já que a tendência do consumidor é cortar primeiro as despesas maiores. Agora, no entanto, nem a lembrancinha escapa do período de seca, o que tem levado ao fechamento de lojas e corte de vagas. Na tradicional Rua 25 de Março, em São Paulo, a estimativa é que o faturamento recue de R$ 13 bilhões para R$ 8 bilhões, segundo a previsão mais otimista. Na Saara, no Rio, já há lojistas fechando as portas — e com dificuldades para passar o ponto.

Segundo analistas, a tendência é que o movimento continue fraco, à espera de alguma recuperação só no Natal, data mais importante para o setor.

— O consumidor está muito desmotivado. A gente não tem nenhuma atividade que incentive a compra nos próximos meses. As pessoas não vão gastar com risco de desemprego. A esperança é que algo mude na economia — afirma o consultor de varejo Marco Quintarelli.

Na Saara, lojistas enfrentam dificuldade para passar o ponto

• Em Madureira, lojistas apostam em mais propaganda para atrair clientela

Desde o ano passado, lojistas da Saara, maior polo de comércio popular do Rio, atribuem a forte queda nas vendas às obras na cidade. Nos últimos meses, o agravamento da crise econômica tornou a vida dos comerciantes da região ainda mais difícil. Segundo o Polo Centro Rio, que representa os varejistas da associação, o faturamento já recuou cerca de 30% desde o início do ano.

A retração é ainda mais significativa quando se considera que, entre junho e julho de 2014, o setor já havia sofrido com os feriados durante a Copa do Mundo. Ou seja, há uma piora em relação a um período que já havia sido muito fraco.

— A crise é generalizada. A obra é só um agravante — avalia Denys Darzi, presidente do Polo.
Segundo levantamento do Polo Centro Rio, a crise já causou o fechamento de pelo menos 24 lojas nas três principais ruas da Saara: Alfândega, Senhor dos Passos e Buenos Aires. O cálculo é conservador, já que o complexo ocupa 11 vias da região.

Quem fecha as portas tem dificuldade para passar o ponto. André Gonçalves, dono da Palácio Encantado, de tecidos, está quase desistindo. Há um ano, ele tenta vender sua loja. No começo, pedia R$ 400 mil. Hoje, o preço do imóvel está em R$ 150 mil, mas não há propostas. — Jogo a toalha — desabafa. Sem as obras que atrapalham a vida dos comerciantes na Saara, o varejo de rua em Madureira, Zona Norte do Rio, também vive um momento ruim. Os lojistas falam em queda de até 30% no movimento. Na Estrada do Portela, principal rua do bairro, a maior parte dos estabelecimentos é focada em roupas e acessórios: itens que tendem a perder espaço quando os preços de alimentos e energia sobem.

— O movimento caiu há uns três meses. Com tudo aumentando, as pessoas dão prioridade a outras coisas — afirma Andrea Gomes, vendedora da MF Modas, que recorre, sempre que possível, aos descontos para atrair a clientela.

Promoção e propaganda, aliás, são palavras de ordem na crise em Madureira. Luis Armando Bento da Silva, que agencia locutores para porta de lojas, estima aumento de 40% na procura pelo serviço em um ano.
— Trabalho em três lojas por semana — conta Elvis Azevedo, que trabalha com Luis.

"Entram, mas não compram"

Mas o esforço para chamar atenção nem sempre compensa:

— É sempre bom, mas as pessoas estão sem dinheiro. Entram, mas não compram — diz a vendedora Sandra Oliveira.

Aldo Gonçalves, presidente do Sindicato de Lojistas do Comércio do Rio (Sindilojas), confirma que a saída é ser criativo: — Mas não tem receita de bolo. A retração afetou até cidades que se beneficiam do tempo frio. Em Nova Friburgo, o sindicato dos lojistas estima queda de 17% nas vendas no primeiro semestre. Na Rua Teresa, em Petrópolis, 200 lojas fecharam.

— Antes, vendia-se até R$ 300 mil num mês. Hoje, se chega a R$ 100 mil é comemoração — diz Cláudia Pires, presidente da Associação da Rua Teresa, que trabalha na região há 24 anos.

'Formigueiro de compradores' mais vazio na 25 de Março

• Associação estima queda no movimento diário de ao menos cem mil clientes

O achatamento da renda dos brasileiros e o medo do desemprego já se refletem no maior centro de comércio popular da América da Latina, a Rua 25 de Março. Na região, as vendas caíram de 30% a 40% entre janeiro e junho ante o mesmo período de 2014, segundo comerciantes e a União dos Lojistas da Rua 25 de Março e Adjacências (Univinco). Alguns lojistas estimam que é a maior retração nas vendas dos últimos 25 anos, desde que o Plano Collor confiscou o dinheiro dos brasileiros depositado nos bancos. O quadro contrasta com "a era de ouro" do varejo no país, quando as vendas cresceram, em média 8% ao ano de 2004 a 2012.


— Com a crise externa em 2008, houve estímulos ao consumo no mercado interno, com juros baixos e isenções tributárias. Esse quadro mudou com a crise econômica. As pessoas estão evitando comprar itens supérfluos e se endividar. — explica o economista Vitor França, assessor da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio).

Vagas fechadas
Antes, as 16 ruas da região da 25 de Março recebiam cerca de 400 mil consumidores por dia. Hoje, segundo a Univinco, são de 280 mil a 300 mil clientes.

No ano passado, essa multidão movimentou R$ 13 bilhões. Até dezembro deste ano, se o faturamento chegar a R$ 8 bilhões, o número será comemorado, diz a Univinco. A perda é mais expressiva ante 2013, quando a receita foi de R$ 17 bilhões. Se a previsão da Univinco se confirmar, será uma queda de mais de 50%.

— É umas das crises mais sérias que já tivemos. Só nas últimas semanas, pelo menos 18 lojas fecharam. Isso é inédito aqui na 25 de Março — diz Claudia Hurias, diretora da Univinco.

As vendas fracas afetaram o emprego: dos cerca de 40 mil funcionários, calcula-se que 15% tenham perdido o emprego desde o início do ano, o equivalente a 6 mil vagas fechadas.

Na visita do GLOBO à Rua 25 de Março foi possível observar os sinais da queda de movimento. Havia quiosques fechados com a placa "aluga-se" e avisos de "passa-se o ponto". O "formigueiro de compradores" característico da região também estava menos intenso.

O faturamento é afetado ainda pela alta dos aluguéis e pela escalada do dólar, já que boa parte das mercadorias é importada da China. Isso acaba elevando o preço final dos produtos.

— Uma loja com dez metros quadrados custa por mês R$ 60 mil. É um valor muito alto numa crise — diz Claudia, da Univinco.

Segundo o gerente da Armarinhos Fernando, Ondamar Antonio Ferreira, o movimento não caiu, mas os clientes estão gastando menos. Na loja Doural, que vende de utilidades domésticas a produtos têxteis, o gerente Marcelo Queiroz notou que os principais clientes que "sumiram" são da nova classe C.

Na Rua Santa Ifigênia, reduto de venda de eletrônicos em São Paulo, Joseph Riachi, presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas da Santa Ifigênia, estima queda de vendas de até 30% desde janeiro.

— Aqui já está todo mundo no vermelho — diz o dirigente.

Aécio Neves - Desafio

- Folha de S. Paulo

A retórica desconexa e o raciocínio enviesado da presidente Dilma brindaram os brasileiros recentemente com o uso inapropriado de duas palavras duras --delação e traição. Sobre a primeira nem há o que falar --o instrumento da delação premiada é legal e está inserido nas normas democráticas.

Quanto à traição, ainda que não se discuta a legitimidade da presidente para tocar no assunto, afinal não se tem memória de um governante que tenha traído tão profundamente os que nele acreditaram, é preciso anotar a infelicidade da fala. Basta dizer que ao comparar o senhor Ricardo Pessoa a Joaquim Silvério dos Reis, a presidente terminou por comparar o ex-tesoureiro do PT João Vaccari a Tiradentes, o que demonstra no mínimo o absurdo do pensamento.

Estamos vivendo um dos piores períodos de nossa história republicana. As contas públicas, a inflação, a produção industrial, o mercado de trabalho, as obras do PAC, nada resistiu ao monumental conjunto de erros protagonizados pelo governo petista. À incompetência gerencial se soma o oportunismo político, a miopia ideológica e o desapreço pela transparência, para temos pronta a receita do caos. Eis o Brasil do PT.

É preciso, no entanto, reconhecer que o país tem hoje, a favor da preservação da governabilidade, um sólido aparato institucional. Instituições como o Congresso, o Ministério Público, o STF e as demais instâncias do Judiciário atuam com independência e responsabilidade para assegurar a plenitude do Estado de Direito e dos preceitos constitucionais.

Esse é o avanço da democracia que devemos saudar e respeitar. Quando o PT tenta interferir nas ações da Polícia Federal, o partido dá um péssimo exemplo de como devem ser pautadas as relações institucionais no país. Não há mais como calar a sociedade, muito menos suas instituições representativas.

A verdade é que vivemos tempos ruins, agravados a cada dia pelo atual governo, que mentiu e ainda mente, aumentando o índice de desconfiança de empresários, investidores e trabalhadores.

É nesse contexto que o PSDB realizou no domingo (5) a sua convenção nacional, reafirmando compromissos com os brasileiros. Em um encontro repleto de emoção, líderes e militantes de todos os cantos do país trouxeram a sua mobilização intransigente em favor da democracia, da luta por um país mais justo e igualitário, do compromisso com a ética e o interesse público.

A sociedade brasileira está ávida pela boa política. Os partidos da oposição têm o apaixonante desafio de aprofundar a interlocução com a população e responder ao enorme desejo de participação de milhões de cidadãos mobilizados e indignados. É esse o caminho a trilhar, com coerência, transparência e respeito, sem desvios ou concessões.

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Aécio Neves é senador e presidente nacional do PSDB

Ricardo Noblat - À espera do fim do governo

- O Globo

"Estamos prontos para assumir. O PSDB sabe governar." Fernando Henrique Cardoso

Falta combinar com as ruas, é claro. Mas os que apostam no impeachment de Dilma já se ocupam em avaliar humores, fazerem cálculos e trocarem ideias a respeito daquele que seria o maior evento a marcar o início do século XXI no Brasil. Não é todo dia que se derruba um presidente da República com base na lei. Aqui, apenas um foi derrubado assim — Fernando Collor. A força bruta derrubou os outros.

OS MAIS açodados dão por provável que setembro não chegue ao fim sem que antes Dilma se despeça do poder pelo bem ou pelo mal. Pelo bem, por meio da renúncia. Com um único dígito de aprovação, largada pelo PT que a detesta e por Lula que passou a rejeitá-la, Dilma pediria as contas. Não vale supor que uma ex-guerrilheira, tendo provado as dores da tortura, seria incapaz de bater em retirada. Por que não?

AO CONCORDAR em suceder Lula, Dilma se dispôs a servir a um projeto compartilhado por um conjunto de forças de esquerda que jamais haviam chegado ao poder. Provado dele, sim, quando o presidente João Goulart substituiu Jânio Quadros. Desde então estavam na maior fissura para desfrutar do poder novamente. Por isso cavalgaram Lula. E por ele foram cavalgados.

SAÍDA DE DILMA por mal se daria mediante iniciativa jurídica em algum dos fronts onde ela encara sérios problemas. O Tribunal de Contas da União, por exemplo, ameaça rejeitar a prestação de contas dela relativa ao ano passado. O Tribunal Superior Eleitoral dirá se ela abusou do poder econômico para se reeleger. Caberá ao Supremo Tribunal Federal julgar qualquer coisa que possa envolvê-la na Operação Lava-Jato.

QUEM DISSER que sabe o que irá acontecer está mal informado, mas ninguém quer ser pego de surpresa. No Congresso, ruiu a base de apoio ao governo. Cresce no entorno de Dilma o clima hostil ao ministro Joaquim Levy, da Fazenda, o cérebro do ajuste fiscal. Por sabotado, Michel Temer, o vice-presidente da República, flerta com o eventual abandono da função de coordenador político do governo.

OS PARTIDOS que contam analisam suas chances de se dar bem no dia seguinte à queda de Dilma. No PSDB, o melhor para Aécio seria o impeachment da chapa Dilma-Michel Temer, com a convocação de novas eleições dentro de 90 dias. Nesse período, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, presidiria o país. Aécio e Eduardo têm conversado muito sobre o assunto.

O SENADOR JOSÉ SERRA (PSDB-SP) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) preferem o impeachment de Dilma e a ascensão de Temer. Que governaria até 2018, quando um deles poderia sucedêlo. Com a discrição que o caso requer, ministros de tribunais superiores medem a temperatura entre seus colegas e avaliam as pressões que sofrem.

UMA PEDRA importante no tabuleiro do poder parece confusa. Lula é o nome dela. Há cerca de 20 dias, ele atirou forte em Dilma, no governo e no PT, acusando-os de estarem abaixo do volume morto. Recuou quando soube que Dilma poderia deixá-lo aos cuidados do juiz Sérgio Moro. Lula admite que Dilma não tem mais salvação. A ser assim, melhor para ele e o PT que ela vá embora logo.

SE FOSSE, Lula e o PT se pintariam para a guerra e voltariam a ser oposição. Até 2018 teriam tempo para montar uma frente de partidos de esquerda que bancaria a candidatura de Lula a presidente. Ou outra candidatura. Pois Lula carece de coragem para entrar em bola dividida.

José Roberto de Toledo - Tempo é o senhor da eleição

- O Estado de S. Paulo

Quinze a um. Essa é a vantagem atual de Aécio Neves sobre Geraldo Alckmin em uma eventual disputa de 2.º turno contra Lula, segundo pesquisa inédita do Ibope. Se o mineiro fosse hoje o candidato tucano contra o petista, ganharia por 48% a 33%. Ou seja, 15 pontos de diferença. Se o PSDB fosse de Alckmin, daria empate técnico: 40% a 39%. O ponto a mais do tucano é marginal.

A pesquisa foi a campo há duas semanas, bancada pelo próprio Ibope. As duas perguntas entraram em um sortido e mutante questionário que o instituto aplica mensalmente por encomenda de clientes diversos. Cada um paga por algumas perguntas e só tem acesso ao resultado delas. Por isso a pesquisa é chamada de "Bus". Às vezes, o Ibope pega carona nesse ônibus e inclui cenários eleitorais, avalia governantes e políticas públicas.

Quem olha só para o 15 a 1 é tentado a concluir que a parada está decidida: Aécio é franco favorito e deve ser o candidato do PSDB a presidente. Não se fala mais nisso? Muito ao contrário.

É excepcionalmente alta a taxa de votos inválidos nos dois cenários. Em Aécio 48% x 33% Lula, 19% ou anulariam ou não votariam em ninguém ou não sabem responder. A taxa de não válidos sobe para 21% no cenário Alckmin 40% x 39% Lula. Isso significa que ao menos um em cada cinco eleitores não gosta nem do petista nem do tucano, seja quem for o candidato do PSDB.

É campo fértil e arado para a terceira via – brotada com Ciro Gomes em 2002, e cultivada por Marina Silva em 2010 e 2014. A insatisfação é tanto maior quanto mais alta a escolaridade (chega a 26% entre os eleitores que fizeram faculdade). Esses desencantados são encontrados com maior frequência nas periferias das metrópoles e na região Sul do Brasil.

De que adianta falar da terceira via, se a segunda aparece com entre 40% e 48% das intenções de voto? Pesquisas feitas muito antes da eleição correm mais risco de passarem longe do resultado final – porque o eleitorado muda de opinião ao longo da campanha e boa parte só escolhe o candidato no dia de votar. Tudo favorece PT x PSDB hoje, mas e amanhã ou depois de amanhã?

De qualquer modo, é muito melhor sair na frente do que atrás. E Aécio tem 48% contra 40% de Alckmin. Por que essa vantagem? "Recall" é o jargão. Efeito memória pode ser a tradução. O mineiro disputou faz poucos meses uma acirrada eleição presidencial. Desde então, é a voz da oposição e aparece mais no noticiário do que o paulista. Por enquanto, é o mais conhecido.

Até 2018, essa vantagem pode diminuir se o mineiro não se mantiver em tanta evidência quanto está hoje e/ou se Alckmin for capaz de aumentar sua projeção. Logo, quanto antes for a eleição, melhor para Aécio. Daí ele flertar mais frequentemente com a ideia do impeachment de Dilma Rousseff do que Alckmin. Se ela e o vice, Michel Temer, fossem impedidos por ilegalidade no financiamento eleitoral da chapa em 2014 haveria nova eleição.

Se a eleição ocorrer só em 2018, como está previsto, Alckmin teria mais tempo de fazer frente a Aécio. E se houver impeachment da presidente e de seu vice, mas só depois da metade do mandato de Dilma? Aí não tem nova eleição. O próximo na linha sucessória, Eduardo Cunha, assume e completa o mandato. É o pior cenário para Aécio e Alckmin. Dá chance ao PMDB de Cunha lançar candidato próprio e virar terceira via.

E Lula? Ele perdeu capital até nas áreas mais pró-PT. Tem só metade dos votos numa região onde Dilma teve dois terços dos votos válidos em 2014. E no terço volúvel do Brasil, que ora é petista ora é tucano, Aécio teria hoje uma vantagem três vezes maior do que na época da eleição. Mais do que o tucanistão, essas duas regiões, que agregam três de cada quatro eleitores, derrotariam o ex-presidente – especialmente com Aécio de adversário. Isso, se a eleição fosse hoje. Se for em 2018, depende de como a economia vai ou não se recuperar.

Valdo Cruz - Ebulição

- Folha de S. Paulo

A temperatura da crise atingiu estado de ebulição, aquele em que agentes e vítimas do processo começam a especular e ensaiar saídas, pois acreditam estar próximos do ponto iminente de mudança do cenário político.

De olho nesse estágio, Fernando Henrique Cardoso convoca o PSDB a ocupar cada vez mais seu espaço na oposição ao lulopetismo, mas cobra responsabilidade de seus seguidores. Algo que andou em falta no ninho tucano neste início de ano.

Tímidos no combate a Lula em seus dois mantados e no primeiro de Dilma, tucanos deram uma radicalizada total --a ponto de votarem propostas irresponsáveis no campo fiscal só para sangrar a petista.

Atento ao alerta de FHC, não por outro motivo o PSDB escolheu o slogan "oposição a favor do Brasil" para convenção do domingo (5) que reelegeu Aécio Neves seu presidente.

Uma tentativa de apagar as últimas votações em que contrariou suas convicções e de lembrar ao eleitorado que se considera a melhor alternativa ao PT para dirigir o país.

Enquanto isso, o PMDB sonha em deixar seu papel de coadjuvante num arranjo esquisito. Age ao mesmo tempo como sabotador e tábua de salvação da presidente --o vice Michel Temer virou fator de sustentação do governo; já Eduardo Cunha e Renan Calheiros atuam como agentes desestabilizadores.

Dentro do PT, a senha para esses momentos de crise sempre foi correr para as ruas. Só que o apoio da população sumiu. Menos de 10% do eleitorado aprova o governo Dilma.

No meio desse turbilhão, a presidente tem repetido, cada vez com mais insistência a seus assessores, que não tem nada a ver com essa confusão toda do petrolão, mas quem está pagando a conta é ela.

Enfim, há risco de o poder presidencial virar fumaça, mas o estado de ebulição pode ser revertido com uma boa ducha fria. Depende dos bombeiros de plantão e de o fogo do petrolão não se alastrar no Planalto.

Marcus Pestana - Um projeto que devolva a esperança aos brasileiros

- O Tempo (MG)

Ontem, 5 de julho, o PSDB realizou, em Brasília, a sua 12ª Convenção Nacional, que elegeu a nova direção nacional do partido, presidida pelo senador Aécio Neves, reconduzido à presidência pelas mãos dos delegados de todo o Brasil. A convenção se deu num momento importantíssimo da história brasileira, caracterizado pela maior crise das duas últimas décadas. A gravidade da situação coloca uma enorme responsabilidade nas mãos dos novos dirigentes tucanos. 

Na hora em que os brasileiros começam a ver o desemprego bater à porta, a inflação sair do controle, a Federação fragilizada, com municípios e Estados estrangulados, o consumo e os investimentos despencando, a corrupção atingindo escala endêmica e institucionalizada, o PSDB, maior partido de oposição e contraponto ao PT desde 1994, tem a tarefa de liderar as mudanças necessárias. 

Conscientes de nosso papel histórico, os tucanos dos quatro cantos do país consagraram os lemas “Oposição a favor do Brasil” e “Unidos para mudar”.

O PSDB não é um partido qualquer. Dentro do confuso e pulverizado quadro partidário brasileiro, o PSDB, entre acertos e erros, virtudes e defeitos, consolidou uma tradição e um legado ao país, que orgulha a todos nós. Temos história, princípios, ideias e uma prática transformadora que mudou o Brasil.

Lembro como se fosse hoje do nosso encontro de fundação, em 1988. Era vereador em Juiz de Fora e acompanhei com entusiasmo nossa primeira convenção, orgulhoso em seguir líderes do calibre de Franco Montoro, Mário Covas, José Richa, Fernando Henrique Cardoso, Euclides Scalco, Pimenta da Veiga, entre tantos outros. Na época, foi um gesto de coragem e ousadia, pois rompemos com o PMDB, que ocupava o Palácio do Planalto e a maioria absoluta dos governos estaduais, mas se esgotara como ferramenta política para produzir avanços inadiáveis. Nascemos “longe das benesses do poder, perto do pulsar das ruas”.

Ao longo dos anos, tivemos uma prática coerente e transformadora no governo FHC e em diversos governos estaduais e prefeituras. A estabilização e modernização da economia, a universalização do ensino fundamental, a consolidação do SUS, o lançamento dos programas de transferência de renda, a preparação do Brasil para um novo tempo, são marcas de nossa história.

Agora, mais uma vez, o PSDB é chamado a protagonizar as mudanças que a sociedade brasileira reclama. Diante de um país traumatizado pelo maior estelionato eleitoral da história, pela corrupção em escala antes nunca vista, e pela maior crise econômica desde Collor, o PSDB, tendo Aécio Neves à sua frente, tem que estreitar seus laços com a sociedade brasileira, fazer uma oposição firme e propositiva aos desmandos do PT, juntamente com nossos aliados, e assim erguer um projeto alternativo que recupere a credibilidade da economia brasileira, realinhe o Brasil com o mundo desenvolvido e democrático e devolva a esperança e a confiança aos brasileiros.

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Marcus Pestana é deputado federal (PSDB-MG)

Xico Graziano - Desenvolvimento e democracia no campo

- O Estado de S. Paulo

Há 30 anos o Brasil reacendia sua democracia. Iniciava-se também, naquele momento, um processo de profunda transformação no campo. A agropecuária nacional, definitivamente, abandonava o atraso oligárquico para assumir a dianteira da modernidade capitalista. Sob o mando da tecnologia.

Nesse processo, a produção rural se integrou com a indústria e os serviços, criando complexas teias produtivas que passaram a ser denominadas, em seu conjunto, de agronegócio. Expandiram-se as fronteiras agrícolas rumo ao cerrado do Centro-Oeste, utilizando a técnica do plantio direto, que não promove nem aração nem gradação do solo, facilitando obter duas safras sucessivas no mesmo terreno. Na pecuária, a melhoria da genética dos rebanhos impulsionou a boa sanidade animal.

Nas últimas décadas a agropecuária brasileira cresceu espetacularmente. Segundo a Conab, entre 1976 e 2013 a produção nacional de grãos expandiu-se 306% (47 milhões para 191 milhões de toneladas), enquanto a área cultivada aumentava apenas 51% (37 milhões para 56 milhões de hectares). Conclusão: houve extraordinária elevação da produtividade física da terra, o dobro da observada no mesmo período na agricultura norte-americana.

O País passou a participar decisivamente do mercado agropecuário global, trazendo importantes reflexos na economia interna: as divisas obtidas com o superávit da balança agrícola, ao redor de U$ 100 bilhões (2014), pagaram as contas das importações de bens e produtos industriais. O agronegócio ajuda a movimentar o Brasil. Desapareceu também o desemprego no campo. A abundância de mão de obra cedeu lugar à escassez e, consequentemente, os salários subiram, acima da média nacional.

Desse extraordinário processo de transformação, porém, não participaram todos os agricultores e trabalhadores rurais. Como sói acontecer na História, existem vitoriosos, derrotados e acomodados. Os primeiros conseguiram entrar no ciclo virtuoso do progresso, os segundos perderam o bonde da modernidade rural, os terceiros ainda esperam sua chance. Aqui está o xis da questão agrária contemporânea: como democratizar, pelo acesso à tecnologia e pela integração ao mercado, o sucesso no campo.

Visto tradicionalmente como passaporte para a felicidade nos programas de reforma agrária, o pedaço de terra começou a valer menos que o uso da tecnologia. Pequenas propriedades, intensivas no uso do solo, passaram a ser mais rentáveis do que grandes fazendas extensivas. As novas técnicas favoreceram os agricultores menos abastados, que se qualificaram pela produtividade e pela qualidade de sua produção. Novos conceitos precisam ser utilizados na interpretação da realidade agrária.

Revisitando os 30 anos recentes da nossa história agrária há o que comemorar. A agropecuária brasileira triplicou de tamanho e deu um extraordinário salto de qualidade. Se entre os direitos fundamentais da pessoa humana se coloca o direito à adequada alimentação, pode-se afirmar que, no Brasil, uma pujante agricultura garante a segurança alimentar da população. E ainda exporta para o mundo.

Por outro lado, esse incrível desempenho do agro nacional está sendo comandado por um seleto grupo de produtores rurais – pequenos, médios ou grandes – que foram capazes de incorporar, pela via do esforço tecnológico, ganhos de produtividade, aumentando a rentabilidade de seus negócios. Estima-se que, dos 4,4 milhões de estabelecimentos produtivos do campo (Censo Agropecuário IBGE/2006), somente 500 mil deles se responsabilizam por 87% do valor da produção. Quer dizer, o dinamismo da agropecuária nacional está sendo comandado por uma dianteira de 11,4% dos agricultores.

Em contrapartida, os demais 3,9 milhões de estabelecimentos produzem pequena fatia (apenas 13%) da produção agropecuária, indicando dificuldades na geração de sua renda. A base da pirâmide, formada por 2,9 milhões de estabelecimentos rurais, responde apenas por 4% da produção rural. Esse pífio desempenho produtivo sugere haver pobreza nessa enorme faixa de pequenos agricultores, a grande maioria localizada no território nordestino. Aqui mora o drama rural do País, uma situação de miséria familiar que continua machucando a democracia brasileira.

Determinante desse triste quadro é a baixa escolaridade no campo. Portanto, somente uma vigorosa política de educação e difusão tecnológica poderá elevar a produtividade e promover a geração de renda dessa grande maioria de agricultores pobres, que pouco participa da safra nacional. Incluem-se neles os recém-assentados nos projetos de reforma agrária, contingente aproximado de 1 milhão de famílias. Com terra, sem renda.

Repetindo o argumento: o contraste entre os produtores rurais bem-sucedidos e os empacados na história somente será superado com a participação no ciclo tecnológico. A verdadeira conquista da democracia vai, assim, depender de decididos investimentos na educação e na capacitação profissional. Somente a instrução, direcionada à juventude rural, conseguirá enfrentar a pobreza que denigre a moderna agricultura. Chegou a vez da revolução pelo conhecimento, pelo saber fazer.

Nessa jornada que parece interminável a favor da justiça social, não podemos cometer o equívoco de Dom Quixote, que combatia moinhos de vento. Não haverá retorno ao passado. É no contexto do capitalismo agrário, em sua fase globalizada e tecnológica, que devemos encontrar as condições objetivas da luta política. Não se trata de capitulação ideológica, mas de, simplesmente, reconhecer a realidade no século 21. Nada de quimeras. Precisamos incluir os pequenos no progresso do agronegócio.

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Xico Graziano é agrônomo, foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

O dever da oposição – Editorial / O Estado de S. Paulo

Diante da crise econômica, política, social e moral que assola o País, são muito oportunas as observações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a respeito do papel da oposição no atual cenário brasileiro. Em artigo publicado ontem no Estado (A responsabilidade das oposições), ele condensa, com clarividência, o sentimento da população: "Espera-se mais das oposições. Espera-se que apresentem sua visão de futuro, apontando um rumo para o País".

O papel da oposição vai muito além de simplesmente se opor a quem está no poder. Antes de mais nada, seu objetivo deve ser a definição e a defesa dos interesses do País. A conquista do poder, em eleições livres, é o meio para atender àqueles interesses.

Por essa razão, mais do que se opor ao que está aí – numa agenda negativa ou simplesmente reativa –, cumpre à oposição propor uma alternativa viável que contribua de fato para que o País saia da crise e possa realizar seu destino de grandeza.

A lógica do "tanto pior, melhor" é absolutamente inadequada, como lembra Fernando Henrique. "Nada justifica arruinar ainda mais o futuro", afirma o ex-presidente, recordando, por exemplo, o erro de extinguir o fator previdenciário.

É óbvio que a degradação do governo facilita o trabalho dos partidos de oposição nas eleições seguintes, mas tal degradação tem um alto custo para o País. Não se pode simplesmente deixar o governo sangrar, pois nessa hemorragia vão-se também muitos bens que dizem respeito a toda a sociedade, e não apenas aos inquilinos do poder.

É um equívoco pensar que a crise dificulta apenas o trabalho do governo. Ela também aumenta, em igual medida, as responsabilidades da oposição. O cenário de difíceis condições políticas e econômicas – como é o do Brasil de hoje – não comporta soluções fáceis e indolores nem muito menos slogans que apenas expressam uma posição ideológica, mas são incapazes, por si sós, de promoverem a saída da crise.

A oposição deve atuar no plano prático – político – e não apenas no ideológico – moral. Esse é o seu papel, que se configura como verdadeiro dever institucional. Não fazê-lo seria uma grave omissão, verdadeira cumplicidade com os desmandos que tanto prejudicam o País.

Assistir passivamente à crise gera um nefasto círculo vicioso, já que distancia a sociedade também da oposição. Todos – governo e oposição – passam a sofrer da mesma desconfiança da população, o que faz agravar ainda mais os problemas econômicos, políticos, sociais e morais. Nesse momento, não se pode permitir que, à crise de confiança que desmoraliza o governo, se junte a indiferença da Nação às coisas da política e às coisas públicas. A anomia não é saída para crises. Por isso, urge que a oposição se faça presente, oferecendo, mais do que esperanças, caminhos viáveis e confiáveis para o País.

Nessa empreitada, a oposição tem de ser forte, mas isso não significa nem pode significar nenhum viés antidemocrático. É equivocada a ideia de que uma forte oposição deve levar, em último termo, à derrubada de quem está no poder. A força da oposição não reside nesse tipo de radicalismo. Está, isso sim, na sua capacidade propositiva.

É compreensível a insatisfação da população com o que está aí. Diariamente, ela assiste ao cínico desmazelo com que o País é tratado por um governo incompetente e está à espera de uma alternativa. Compete à oposição oferecer uma resposta a esses legítimos anseios – uma arrojada resposta, que convença, motive e desperte o melhor de cada um.

Quando aqui se fala em destino de grandeza do País, não se faz referência apenas a seu tamanho continental e a suas riquezas naturais. É antes de tudo a convicção de que o seu povo é capaz de realizar um projeto de crescimento econômico e de justiça social que coloque o Brasil, definitivamente, entre as maiores potências do mundo.

Mais que nunca é necessário que a oposição tenha uma visão de futuro factível e audaciosa, que ofereça soluções reais aos problemas do presente. A crise é séria, mas pode ser vencida com o trabalho sério, honesto e competente dos brasileiros – e a oposição tem a missão de guiá-los.

Marcos Nobre - A ameaça grega

- Valor Econômico

• É a própria Europa que se encontra à beira do precipício

A crise grega não se enquadra na categoria "risco sistêmico". Não ameaça o sistema bancário internacional, muito menos a moeda única europeia - não diretamente, pelo menos. O que assusta é justamente isso: não sendo antessala de nenhuma crise global, a Grécia representa uma ameaça ainda mais grave. Representa o mais claro sintoma de que o arranjo político internacional que se instalou depois de 1989 está caduco. A crise econômica mundial iniciada em 2007 foi o primeiro sério abalo desse arranjo. As revoltas democráticas iniciadas em 2011 mundo afora mostraram que ele é insustentável.

Com o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, estabeleceu-se um sistema de coordenação que combinava relativa margem de autonomia para políticas nacionais de desenvolvimento e de proteção social com submissão forçada à lógica da Guerra Fria. A margem de autonomia de cada país era diretamente proporcional ao seu grau de desenvolvimento e inversamente proporcional à posição estratégica que ocupava na disputa entre as chamadas superpotências, EUA e União Soviética. Basta lembrar as ditaduras em países como Portugal, Espanha, Grécia, ou na América Latina para ter claro o alcance dessa limitação.

Dentro desses limites, alguns poucos países europeus conseguiram produzir um sistema político democrático polarizado entre direita e esquerda. A base comum sobre a qual se dava essa polarização política foi um modelo de sociedade que ficou conhecido como Estado de Bem-Estar Social e que parece hoje uma espécie de oásis de justiça social diante das misérias que se seguiram. Porque o acordo de barganhar algum grau de autodeterminação nacional por alinhamento estrito à estratégia geopolítica dos EUA se encerrou definitivamente com o colapso do bloco liderado pela União Soviética, em 1991.

Com estados nacionais endividados e mercados em rápido processo de liberalização, a camisa de força não era mais a da Guerra Fria, mas a do crédito e do investimento. Para conseguir fechar as contas e manter o crescimento econômico, países tinham de se submeter a uma dieta rigorosa de política econômica e de desenho institucional. Tempo de globalização, governança, de protagonismo das agências de risco. A metáfora predileta é simples, direta e regressiva: quem quer crédito e investimento tem de "fazer o dever de casa".

O preço cobrado por esse novo consenso forçado foi a canibalização dos sistemas partidários erguidos no pós-1945, refuncionalizados para servir a novos fins. Os partidos líderes do sistema passaram a se espremer no exíguo espaço de um novo centro político. Daí nasceu, por exemplo, o "Novo Centro", slogan do governo do Partido Social-Democrata alemão liderado por Gerhard Schröder de 1998 a 2005. Mas a versão mais famosa dessa reconfiguração foi a "Terceira Via", representada exemplarmente pelo governo de Tony Blair na Inglaterra, entre 1997 e 2007. Foi uma aceitação do novo consenso com dez porcento de desconto social - às vezes, nem mesmo isso.

Todo esse arranjo foi minado em sua base pela crise econômica mundial. A miopia ideológica que deixou quebrar o banco Lehman Brothers em 2008 está agora amplificada no caso da quebra da Grécia. A questão de fundo colocada pela crise grega não é apenas a do colapso de um país inteiro. O que está em causa é saber se o declínio do arranjo que vigorou nos últimos 25 anos não irá arrastar com o tempo o próprio projeto do euro. Não por causa da Grécia, não por causa de um "erro técnico" qualquer na construção da moeda única.

Não faltam avisos de que o arranjo que surgiu da globalização dos anos 1990 não tem mais como se sustentar. O sinal mais evidente são as revoltas democráticas que sacudiram o mundo a partir de 2011. Ainda que muito diferentes entre si, movimentos como o 15-M na Espanha, o Occupy Wall Street, a Primavera Árabe, o Junho brasileiro apontam para o esgotamento de uma forma de entender e de fazer política que pertence ao século 20. Também indicam que os discursos do dever de casa e da austeridade perderam capacidade de se impor.

O mais dramático da situação está em que o carcomido sistema político europeu vê as novas formas de organização política que surgiram dos protestos como competidores a serem abatidos e não como o prenúncio de uma reorganização necessária. Sua tática de sobrevivência é tentar reduzir a alternativa a uma escolha entre o establishment e o risco real da volta do fascismo e do nazismo. Consegue, com isso, barrar o aprofundamento da democracia que, só ele, pode efetivamente bloquear a ascensão da extrema direita no continente.

A democracia de massas europeia da segunda metade do século 20 foi animada pela ideia de que partidos deveriam ser braços da sociedade dentro do Estado. Hoje, partidos se tornaram entidades paraestatais, braços do Estado para controlar a sociedade. Não se trata de edulcorar as novas formas de organização política surgidas nos últimos anos, como o Syriza, na Grécia, ou o Podemos, na Espanha. Trata-se apenas de reconhecer que são animadas pelo impulso original que a forma partido um dia pretendeu ter.

Dentro do velho sistema europeu em vigor, não há quem não saiba que a dívida grega é impagável. Não há quem não saiba que a tolerância social para políticas recessivas e de cortes de direitos chegou ao seu limite. Não há quem não saiba que a Grécia foi parar na beira do precipício porque seu atual governo estava, desde o início, com um problema insolúvel nas mãos.

A atitude do sistema europeu em relação à Grécia é tentativa desesperada de colocar a nova energia social de volta dentro da garrafa, dentro dos estreitos limites do arranjo forçado herdado da globalização. Trata-se de tentar eliminar alternativas ao establishment, aos velhos partidos e às velhas práticas. Nessa lógica, "fazer o dever de casa" não é suficiente; é preciso fazê-lo nas dependências da velha escola europeia. Uma escola que ainda usa a palmatória, que está com seus dias contados. Na Grécia, é a Europa que se encontra à beira do precipício.

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Marcos Nobre é professor de filosofia política da Unicamp e pesquisador do Cebrap

Vinicius Torres Freire - Raivas, Europa, Grécia, Brasil

- Folha de S. Paulo, 5 / 7/ 2015

• Mexidas políticas europeias podem inspirar alternativas para o apodrecimento de partidos por aqui

Levou mais de seis anos para que o desastre da finança de 2008 arranhasse o sistema político europeu. Mesmo assim, a Grande Recessão teve de ser coadjuvada por corrupções e incompetências grossas para abalar o centro político, para que partidos à margem ocupassem frestas. Nos EUA, a política tradicional mal teve alergia; mesmo o berne do Tea Party minguou um tico.

Sim, trata-se aqui de Grécia e Syriza, de Podemos e Espanha, fascistas da França e em tantos países, mas não só. O colapso grego começa a inquietar a política italiana.

É pouco, mas algo acontece desde 2014. Convém prestar atenção. Também temos problemas, bidu.

Além de cansaço com a indiferenciação dos partidos, de seu alheamento da realidade e de corrupções, nossa degringolada tem outros motivos, mas é grave. Os melhores partidos que tivemos apodrecem; "algo" aconteceu em 2013; será ruim e longa a nossa crise partidária, representativa, policial e econômica.

De resto, não costumamos ser imunes a remelexos políticos euro-americanos.
Importamos ideias, aparências ou modas. No passado remoto e morto, o PT um dia pareceu mais original, mas não faz muito o PSDB era a "Terceira Via" brasileirinha.

Quem sabe ideias ultramarinas possam inspirar tanta gente que está farta dessa chusma de putrefatos e dessa caterva de medíocres que fazem o grosso desses partidos que um dia tiveram alguma força, direção e sentido.

Mas algo aconteceu na Europa, como se dizia. Na eleição parlamentar europeia de maio de 2014, partidos "extremistas" e "populistas", no dizer do establishment europeu, venceram a votação em seus países ou se destacaram do nada ou da miudeza eleitoral criticando a "austeridade" ou a própria eurolândia.

Assustados com qualquer sinal de vida, os europeus chegaram a chamar a eleição de "terremoto", embora se sentisse de fato cheiro de queimado. A Frente Nacional fascista venceu a eleição europeia na França, o nacionalista Ukip no Reino Unido, "radicais" de esquerda e direita puseram a cabeça para fora em vários países.

Houve, porém, o Syriza, a esquerda grega que, salvo milagre, estará à beira da derrocada antes de completar meio ano de poder. Mas em particular houve o Podemos.

Na Espanha, partidos novos ou menos velhos lascaram um pedaço do quase bipartidarismo centrista de PP (à direita) e dos socialistas (PSOE, à esquerda).

O Podemos levou cidades importantes e é um partido emergente da crise espanhola, derivado dos "indignados" que acamparam no centro de Madri em 2011, das "ruas". Mais, ou menos, que um partido, são um aglomerado de improviso ou premeditadamente informe e mutante, dito de "esquerda", embora ainda não se saiba muito bem o que apite --e talvez isso seja bom.

O Podemos e associados, ressalte-se, saíram das "ruas". O Syriza nasceu dos caídos nas ruas, da crise econômica horrenda, mas é uma geleia variada de esquerdistas mais históricos, como ex-comunistas, com gotas de hortelã de esquerda nova. Todos ainda têm ideias econômicas destrambelhadas, mas são algo de novo.

Há muita gente farta aqui. Há alguma "rua". Haverá muitos caídos da crise. Falta partido para dar forma às revoltas.

Este colunista estará de férias da crise até agosto.

José de Souza Martins - Pedaladas políticas

- O Estado de S. Paulo / Aliás

• Festa pela ciclovia mostra o contramovimento da Prefeitura tentando reocupar o espaço do protesto social

A compreensivelmente carnavalesca inauguração da ciclovia da Avenida Paulista cobre mais do que o canteiro central da histórica e emblemática rua de São Paulo. Cobre largo período de mudanças na concepção paulistana do urbano e das funções das ruas e avenidas na vida cotidiana de uma cidade que tem passado por transformações mais ou menos abruptas. A Paulista surgiu há mais de um século, concebida e planejada pelo uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, aberta em seguida à abolição da escravatura, quando os primeiros bondes puxados a burro substituíam cadeirinhas e redes carregadas no ombro de escravos. A Paulista foi o lugar que anunciou um novo modo de morar, de viver e de pensar, uma nova vida doméstica e familiar, de gente muito rica servida não mais por mucamas, mas por serviçais que até falavam francês. Em muitas dessas casas, francês era a língua da conversação cotidiana. O sotaque da Paulista era o da nova Pauliceia e do novo Brasil.

O espigão do Caaguaçu fora escolhido para a nova rua e o novo bairro porque se acreditava que os lugares altos eram sadios, arejados pela brisa permanente, o oposto dos baixios do Tamanduateí e do Anhangabaú insalubres pelos miasmas doentios. A cidade era agora republicana e parecia ter um plano, o da ordem e do progresso, na saúde pública e na saúde política. Não por acaso, numa ponta da Paulista se concentrariam os grandes hospitais e na outra os cemitérios - o do Araçá, o do Redentor e o do Santíssimo Sacramento, mais tarde o São Paulo. Era para tirar os enterros do centro. Tudo muito higiênico e funcional, até socialmente no dito popular alegórico de duplo sentido: “A Avenida Paulista é que nem casamento: começa no Paraíso e termina na Consolação”.

Mas não é de hoje que a Paulista atrai a multidão, como nessa inauguração da ciclovia. Tornou-se uma espécie de palco do imaginário do povo. Ficaram famosos os corsos carnavalescos já nos anos 1910, até com suas tragédias de bastidor, como a que culminaria na navalhada no rosto da mais bela cortesã de São Paulo, Nenê Romano, em 1918, ordenada por uma noiva enciumada. Nenê seria assassinada em 1923 pelo advogado e amante, Moacyr Piza, poeta e boêmio.

Já em 1917, o povão tentara invadir a Paulista para uma demonstração política na frente da casa do secretário da Justiça, quando conduzia ao Araçá o caixão do operário José Martinez, ferido e morto a tiros pela Força Pública, na frente da Tecelagem Mariângela, do Brás, durante a greve geral. Policiais de armas embaladas impediram a demonstração.

Tornou-se comum que operários, nos domingos, levassem a família de bonde até a Paulista para ver os palacetes dos ricaços para os quais trabalhavam. Mas também porque a avenida era lindíssima, com os jardins das residências, como ainda se vê na Casa das Rosas, e o Parque Siqueira Campos, resto de Mata Atlântica sobrevivendo dentro da cidade. O palacete do conde Matarazzo era o preferido. Seus operários vinham do Brás, da Mooca, do Belenzinho, da Água Branca, de São Caetano, com a roupa de missa. Postavam-se do lado de lá da rua para mostrar à esposa e aos filhos o monumento da riqueza que seu trabalho ajudara a construir. Não raro para dizer-lhes que Matarazzo era imigrante, viera com uma mão atrás e outra na frente, trabalhara muito, comera pão com banana até se tornar o homem mais rico do Brasil. Era lenda, que o próprio Matarazzo difundia. Mas o proletariado gostava e se via nela.

Não menos carnavalescos os efeitos de rua do casamento de uma das netas do Conde, em 1945. A multidão acorreu à calçada fronteira, do outro lado, para ver os convidados chegarem para a festa de mais de um dia, gente de poder e de dinheiro. A guerra mal havia acabado. Ainda se padecia o racionamento do pão, as filas para comprá-lo, mas ali não havia racionamento algum. Melhor ver a abundância do outro do que a escassez própria. Era o desfile das grandes contradições sociais no espetáculo do conformismo de um fim de era.

O enredo dos espetáculos da Paulista mudou após o regime militar. Ganhou conotação política, a avenida passou a abrigar, também, o protesto social. Ainda que misturando temas não necessariamente convergentes, os protestos da Paulista vão hoje da afirmação de identidades, como no caso da Parada Gay, à reivindicação de direitos, como nos casos dos protestos sindicais. O advento da multidão como novo sujeito da realidade urbana do País, encontrou na Paulista o cenário sobrante da escassez de espaços para demonstrações públicas na cidade. Algo inerente ao que é próprio das metrópoles modernas não tem aqui o lugar adequado para a teatralidade política. A ocupação da Paulista por diferentes multidões inventa o novo cenário da política. Assim como diversos sujeitos do povo a ocupam para reivindicar, protestar e afirmar o que é basicamente a sociedade contra o Estado, a inauguração festiva da necessária ciclovia mostra o contramovimento do governo municipal tentando reocupar e dominar o espaço do protesto social.

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José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Entre outros livros, autor de Uma sociologia da vida cotidiana (Contexto)

Jacob do Bandolim & Zimbo Trio - Chega de Saudade (1968)


João Cabral de Melo Neto - Poema(s) da Cabra

Nas margens do Mediterrâneo
não se vê um palmo de terra
que a terra tivesse esquecido
de fazer converter em pedra.

Nas margens do Mediterrâneo
Não se vê um palmo de pedra
que a pedra tivesse esquecido
de ocupar com sua fera.

Ali, onde nenhuma linha
pode lembrar, porque mais doce,
o que até chega a parecer
suave serra de uma foice,

não se vê um palmo de terra
por mais pedra ou fera que seja,
que a cabra não tenha ocupado
com sua planta fibrosa e negra.
1
A cabra é negra. Mas seu negro
não é o negro do ébano douto
(que é quase azul) ou o negro rico
do jacarandá (mais bem roxo).

O negro da cabra é o negro
do preto, do pobre, do pouco.
Negro da poeira, que é cinzento.
Negro da ferrugem, que é fosco.

Negro do feio, às vezes branco.
Ou o negro do pardo, que é pardo.
disso que não chega a ter cor
ou perdeu toda cor no gasto.

É o negro da segunda classe.
Do inferior (que é sempre opaco).
Disso que não pode ter cor
porque em negro sai mais barato.
2
Se o negro quer dizer noturno
o negro da cabra é solar.
Não é o da cabra o negro noite.
É o negro de sol. Luminar.

Será o negro do queimado
mais que o negro da escuridão.
Negra é do sol que acumulou.
É o negro mais bem do carvão.

Não é o negro do macabro.
Negro funeral. Nem do luto.
Tampouco é o negro do mistério,
de braços cruzados, eunuco.

É mesmo o negro do carvão.
O negro da hulha. Do coque.
Negro que pode haver na pólvora:
negro de vida, não de morte.
3
O negro da cabra é o negro
da natureza dela cabra.
Mesmo dessa que não é negra,
como a do Moxotó, que é clara.

O negro é o duro que há no fundo
da cabra. De seu natural.
Tal no fundo da terra há pedra,
no fundo da pedra, metal.

O negro é o duro que há no fundo
da natureza sem orvalho
que é a da cabra, esse animal
sem folhas, só raiz e talo,

que é a da cabra, esse animal
de alma-caroço, de alma córnea,
sem moelas, úmidos, lábios,
pão sem miolo, apenas côdea.
4
Quem já encontrou uma cabra
que tivesse ritmos domésticos?
O grosso derrame do porco,
da vaca, do sono e de tédio?

Quem encontrou cabra que fosse
animal de sociedade?
Tal o cão, o gato, o cavalo,
diletos do homem e da arte?

A cabra guarda todo o arisco,
rebelde, do animal selvagem,
viva demais que é para ser
animal dos de luxo ou pajem.

Viva demais para não ser,
quando colaboracionista,
o reduzido irredutível,
o inconformado conformista.
5
A cabra é o melhor instrumento
de verrumar a terra magra.
Por dentro da serra e da seca
não chega onde chega a cabra.

Se a serra é terra, a cabra é pedra.
Se a serra é pedra, é pedernal.
Sua boca é sempre mais dura
que a serra, não importa qual.

A cabra tem o dente frio,
a insolência do que mastiga.
Por isso o homem vive da cabra
mas sempre a vê como inimiga.

Por isso quem vive da cabra
e não é capaz do seu braço
desconfia sempre da cabra:
diz que tem parte com o Diabo.
6
Não é pelo vício da pedra,
por preferir a pedra à folha.
É que a cabra é expulsa do verde,
trancada do lado de fora.

A cabra é trancada por dentro.
Condenada à caatinga seca.
Liberta, no vasto sem nada,
proibida, na verdura estreita.

Leva no pescoço uma canga
que a impede de furar as cercas.
Leva os muros do próprio cárcere:
prisioneira e carcereira.

Liberdade de fome e sede
da ambulante prisioneira.
Não é que ela busque o difícil:
é que a sabem capaz de pedra.
7
A vida da cabra não deixa
lazer para ser fina ou lírica
(tal o urubu, que em doces linhas
voa à procura da carniça).

Vive a cabra contra a pendente,
sem os êxtases das decidas.
Viver para a cabra não é
re-ruminar-se introspectiva.

É, literalmente, cavar
a vida sob a superfície,
que a cabra, proibida de folhas,
tem de desentranhar raízes.

Eis porque é a cabra grosseira,
de mãos ásperas, realista.
Eis porque, mesmo ruminando,
não é jamais contemplativa.
8
O núcleo de cabra é visível
por debaixo de muitas coisas.
Com a natureza da cabra
outras aprendem sua crosta.

Um núcleo de cabra é visível
em certos atributos roucos
que têm as coisas obrigadas
a fazer de seu corpo couro.

A fazer de seu couro sola,
a armar-se em couraças, escamas:
como se dá com certas coisas
e muitas condições humanas.

Os jumentos são animais
que muito aprenderam com a cabra.
O nordestino, convivendo-a,
fez-se de sua mesma casta.
9
O núcleo de cabra é visível
debaixo do homem do Nordeste.
Da cabra lhe vem o escarpado
e o estofo nervudo que o enche.

Se adivinha o núcleo de cabra
no jeito de existir, Cardozo,
que reponta sob seu gesto
como esqueleto sob o corpo.

E é outra ossatura mais forte
que o esqueleto comum, de todos;
debaixo do próprio esqueleto,
no fundo centro de seus ossos.

A cabra deu ao nordestino
esse esqueleto mais de dentro:
o aço do osso, que resiste
quando o osso perde seu cimento.
*
O Mediterrâneo é mar clássico,
com águas de mármore azul.
Em nada me lembra das águas
sem marca do rio Pajeú.

As ondas do Mediterrâneo
estão no mármore traçadas.
Nos rios do Sertão, se existe,
a água corre despenteada.

As margens do Mediterrâneo
parecem deserto balcão.
Deserto, mas de terras nobres
não da piçarra do Sertão.

Mas não minto o Mediterrâneo
nem sua atmosfera maior
descrevendo-lhe as cabras negras
em termos da do Moxotó.

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Texto extraído do livro "João Cabral de Melo Neto - Obra completa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1994, pág. 254.