Análise do TCU sobre emendas Pix exige investigação
Por O Globo
Em amostra de 2020 a 2024, oito em dez
emendas apresentaram algum indício de irregularidade
A Polícia Federal (PF) deve dar prioridade à análise de auditoria feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre as emendas Pix, transferidas diretamente para o caixa de estados e municípios, assim que o plenário da Corte aprová-la em plenário. Oito em dez das emendas examinadas apresentaram algum tipo de irregularidade. Apenas no universo da amostra, existem indícios de problema em R$ 49,1 milhões repassados entre 2020 e 2024. Como a quantia total deve ser muito maior, é urgente investigar, indiciar os suspeitos, condenar os eventuais culpados e garantir o retorno das verbas aos cofres públicos.
Feita a pedido do ministro Flávio Dino, do
Supremo Tribunal Federal (STF), a fiscalização detectou um festival de
irregularidades, como indícios de sobrepreço, superfaturamento, pagamentos sem
cobertura contratual ou comprovação fiscal idônea, despesas diferentes da
finalidade e sem comprovação do objeto realizado. Segundo o TCU, em 54% dos
casos foram encontradas falhas que comprometem a transparência e a
rastreabilidade dos recursos. O rol de problemas inclui ainda falta de
prestação de contas no sistema Transferegov e uso da conta bancária da emenda
Pix como passagem (caso em que os recursos são transferidos para outras contas,
dificultando o rastreamento). No universo fiscalizado — emendas Pix repassadas
entre 2020 e 2024 por 83 parlamentares —, o índice de falhas variou de uma
região a outra. No Norte, quase a totalidade (91%) apresentou problemas; no
Nordeste, foram 80%; no Sudeste, 77%; no Sul, 75%, e no Centro-Oeste, 67%.
Alvos de constantes questionamentos devido à
baixa transparência, as emendas provocaram uma série de medidas do STF com o
intuito de disciplinar a sua execução. É possível que uma análise de
transferências mais recentes não apresente o mesmo percentual de
irregularidade. De qualquer modo, é preciso investigar o que ocorreu e não
baixar a guarda, uma vez que as emendas Pix, aprovadas pelo Congresso em 2019,
vêm crescendo vertiginosamente. Para este ano, a Lei de Diretrizes
Orçamentárias prevê R$ 7 bilhões para a modalidade (em 2020 eram R$ 621
milhões).
Por mais que se criem mecanismos para tapar
os buracos por onde esses recursos se esvaem, a todo momento novos aparecem em
todas as modalidades de emendas. Recentemente, Dino determinou o bloqueio de R$
119 milhões do presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, e de R$ 6,1
milhões do ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG), suspeitos de direcionar
verbas apesar de não exercerem mandatos parlamentares.
As emendas por si sós representam uma
inegável distorção, uma vez que dão ao Congresso um poder sobre o Orçamento sem
paralelo em outros países do mundo — para este ano, estão previstos R$ 61
bilhões, dos quais 37,8 bilhões obrigatórios. Nas economias com os melhores
índices de desenvolvimento, é o Executivo quem centraliza a decisão sobre os
gastos. Antes de o país rever e corrigir essa aberração, deve-se garantir, pelo
menos, que seja transparente. O percentual de irregularidades de 80% detectado
na amostra do TCU sinaliza o tamanho do problema. Por isso é urgente que o
plenário da Corte avalie a fiscalização sem demora e permita ação imediata da
PF.
Demora do Senado em aprovar PEC da Segurança
é frustrante
Por O Globo
Janela na volta do recesso parlamentar será
curta, mas tema não permite novos adiamentos
É lastimável que o Congresso tenha entrado em
recesso na sexta-feira sem o Senado votar a Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) da Segurança, que dá ao Estado ferramentas para combater o crime
organizado. Entregue ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e
ao do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em cerimônia no Palácio do Planalto
em abril de 2025, o projeto só foi aprovado pelos deputados em março. De lá
para cá, permanece à espera de tramitação no Senado. Quando as atividades
legislativas voltarem em 1º de agosto, restarão duas semanas antes do início da
campanha eleitoral. Não há mais tempo para a procrastinação em tema tão
premente para os eleitores.
Em número de integrantes, o Primeiro Comando
da Capital (PCC) é a maior facção em operação na América Latina, segundo
estimativa do recém-lançado estudo “Dos Cartéis do Narcotráfico às Redes
Criminosas: A Transformação Estrutural do Crime Organizado na América Latina e
no Caribe”, do Instituto Igarapé. Ao todo, são entre 30 mil e 40 mil membros.
Em segundo lugar, está o Comando Vermelho (CV), com algo entre 20 mil e 30 mil,
seguido pelo Cartel de Jalisco Nueva Generación, MS-13, Barrio 18, Los
Choneros, ‘Ndrangheta e Cartel de Sinaloa.
As facções brasileiras são destaque não
apenas em tamanho, mas também pela sofisticação. Entre mudanças importantes
ocorridas no mundo do crime a partir dos efeitos provocados pela pandemia, está
a montagem de uma logística globalizada. Ao reconstruir as malhas afetadas, PCC
e CV estenderam suas redes para ficar próximas de portos europeus e da
distribuição da droga. No mesmo período, a infiltração em atividades econômicas
lícitas foi acelerada. “O crime organizado na América Latina entrou em uma nova
fase. Ele está mais geograficamente difuso, economicamente diversificado,
globalmente integrado, tecnologicamente adaptável e enraizado nos mercados
legais do que em qualquer outro momento anterior”, diz o estudo.
A resposta das forças policiais tem sido
lenta. O combate ainda é feito de forma fragmentada, facilitando a expansão
nacional e internacional dos criminosos. Para aumentar seu poder de ação, o
Estado precisa se equipar e reorganizar sua estrutura. Portos não devem ser
vistos como mera instalação de aduana. Sem mais equipamentos para escanear
contêineres e rotatividade de equipes alvo do tráfico, os traficantes têm a
vida facilitada. Além de prender traficantes e capturar carregamentos de
drogas, as forças de repressão precisam aumentar a capacidade de desmantelar
sistemas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Para atingir tais objetivos, é fundamental o governo federal e estados trabalharem em conjunto, como prevê a PEC da Segurança. O texto também dá segurança jurídica para a Polícia Federal combater as facções e aumenta as atribuições da Polícia Rodoviária Federal. Espera-se que o Senado trate de uma vez do assunto, uma das maiores preocupações dos eleitores. Cada adiamento representa mais oportunidades de crescimento aos criminosos.
Novidades marcam Copa histórica
Por Folha de S. Paulo
Número inédito de países foi acompanhado por
fortalecimento dos negócios e da publicidade
A quantidade maior de participantes propiciou
jogos surpreendentes, que projetaram seleções distantes dos holofotes, como a
de Cabo Verde
Nunca na história das Copas do Mundo,
política, negócios e futebol se
entrelaçaram da forma como aconteceu na edição encerrada no último domingo
(19), com a vitória
da seleção espanhola, por 1 a 0, sobre a da Argentina.
Pela primeira vez, três países —Estados
Unidos, México e Canadá—
receberam a competição, que contou, também de modo inédito, com a participação
de 48 equipes.
A expansão reflete um processo de
globalização incentivado pela Fifa,
que estuda um aumento para 64 países em 2030, ano do centenário das Copas.
A primeira competição ocorreu no Uruguai, com
13 nações. Em 1954, consolidou-se o formato com 16 participantes, mantido até
1978. Em 1982, passou-se a 24 seleções, número que subiu para 32 entre 1998 e
2022.
À ampliação territorial e numérica
correspondeu, nesta Copa, um notável fortalecimento dos negócios. Desde o
aumento de vendas e preços de ingressos ao vasto leque de patrocinadores e
anunciantes presentes nos locais de disputa e nas transmissões por diversas
plataformas.
O presidente da Fifa, Gianni
Infantino, estimou, em 2022, US$ 286 bilhões ao ano —à época, R$
1,45 trilhão. Também foi a primeira vez que a Globo não exibiu todos os jogos,
o que deu espaço ao crescimento recorde à CazéTV, um canal do Youtube.
A pressão financeira, reforçada, entre outros
fatores, pela avalanche de sites de apostas, gerou intervenção na própria
dinâmica do esporte: as chamadas pausas para hidratação, que dividiram as
partidas em quatro tempos.
O sistema, adotado no basquete profissional
dos EUA, favorece as inserções de publicidade, mas levanta dúvidas referentes
ao tradicional andamento do jogo.
Além das duas novas pausas, o intervalo de 15
minutos entre o primeiro e o segundo tempo foi ampliado, para dar lugar a shows
musicais, como acontece no Super Bowl, a disputa pelo título do futebol
americano.
Viu-se também um tipo de intervenção política
personalista, promovida pelo presidente Donald Trump,
com aquiescência de Infantino —já antes do evento, a Fifa havia bajulado o
republicano com um insólito prêmio da paz.
A pedido de Trump, a entidade chegou ao
cúmulo de anular a
aplicação da regra da suspensão automática por uma partida de
um jogador americano anteriormente expulso de campo.
O governo americano também impediu a
delegação iraniana de pernoitar em território dos EUA, promoveu revistas
constrangedoras em jogadores e barrou a
entrada de um árbitro da Somália.
Do ponto de vista futebolístico, parece
prevalecer a avaliação de que a Copa foi atraente e bem disputada. Se a
quantidade maior de seleções propiciou alguns embates desinteressantes, houve
também encontros surpreendentes e emocionantes, que projetaram países distantes
dos holofotes internacionais, caso emblemático da seleção de Cabo Verde.
Emendas Pix institucionalizam a desordem
Por Folha de S. Paulo
Quando 4 em cada 5 repasses fiscalizados
apresentam irregularidades, o problema refle defeito estrutural
Execução orçamentária deixou de ser técnica e
passou a seguir interesses eleitorais; Congresso deve aceitar que transparência
é indispensável
A maior auditoria já realizada pelo Tribunal
de Contas da União sobre as chamadas emendas Pix expõe
a degradação das finanças públicas brasileiras. Em uma amostra de 100
transferências, 82
apresentaram irregularidades, que vão de pagamentos sem comprovação
e obras inacabadas a indícios de fraude em licitações, superfaturamento e
desvio de finalidade.
Não se trata de desvios isolados, mas da
evidência de que o modelo criado pelo Congresso favorece o uso possivelmente
criminoso desses recursos.
As emendas Pix surgiram com o argumento de
desburocratizar transferências da União para estados e municípios. Na prática,
transformaram-se em mecanismo de distribuição de verbas com fiscalização, rastreamento
e prestação de contas insuficientes. O apelido se justifica: o dinheiro sai
rápido de Brasília, mas frequentemente se perde em um emaranhado de contas e
contratos.
O TCU identificou
recursos movimentados por contas de passagem, documentação irregular, despesas
incompatíveis com sua finalidade e contratos marcados por restrição à
concorrência e favorecimento de empresas. Os indícios justificam o
encaminhamento dos casos à Polícia
Federal, ao Ministério
Público Federal e à Controladoria-Geral da União.
É verdade que houve um vácuo regulatório nos
primeiros anos e que decisões posteriores do Supremo Tribunal Federal (STF),
além de normas recentes, passaram a exigir planos
de trabalho e maior transparência. São avanços importantes, mas
insuficientes diante da dimensão do problema.
A falha não está apenas na ausência de
regras. O defeito central é o incentivo político criado nos últimos anos.
Com a ampliação contínua do volume de emendas
e o enfraquecimento dos mecanismos de controle, consolidou-se um orçamento
paralelo, pulverizado e orientado por interesses eleitorais, em prejuízo do
planejamento de políticas estruturantes.
A execução orçamentária deixou de seguir
critérios técnicos para atender à lógica da influência parlamentar. O resultado
é previsível: investimentos fragmentados, baixa eficiência, desperdício e corrupção.
Se 4 em cada 5 emendas fiscalizadas apresentam irregularidades, o país não enfrenta apenas falhas de gestão. Assiste à institucionalização de uma desordem que banaliza o uso do dinheiro público e corrói a confiança nas instituições. Cabe ao Congresso Nacional aceitar que transparência, rastreabilidade e controle são condições indispensáveis para a legitimidade da política.
Jovens sem partido
Por O Estado de S. Paulo
Queda na filiação de jovens não é sinal de
apatia cívica, mas um sintoma do afastamento de uma geração que recusa o
partidarismo tribal e só espera o básico das siglas: representação social
Um levantamento do cientista político Murilo
Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), mostrou que, em 16 anos, os
partidos políticos perderam quase 1,5 milhão de filiados jovens. Baixa filiação
partidária entre jovens não é novidade no Brasil, tampouco um problema por si
só. Historicamente, a imensa maioria dos eleitores entre 16 e 34 anos nunca se
filiou a legenda alguma. A novidade é o refinamento da análise suscitada pelo
estudo e pelas entrevistas com jovens eleitores publicadas pelo Estadão no domingo
passado.
Mais importante do que aferir o grau de
afastamento daquele estrato da população da política partidária é refletir
sobre o diagnóstico que os próprios jovens, de forma madura, fazem dele. Em
suma, para esse público, os partidos deixaram de representar a contento
interesses sociais legítimos para se concentrarem na defesa de seus interesses
corporativistas e/ou servir como fóruns de afirmação de identidades tribais.
O problema, portanto, é de ordem
institucional. Partidos não são meros acessórios da democracia representativa.
São as organizações da sociedade civil que estruturam e defendem, de forma
pacífica, os múltiplos interesses em jogo na sociedade que devem ser mediados
pela política. Tanto que a Constituição determina a filiação partidária como
condição de elegibilidade.
Ora, quando essas organizações deixam de
cumprir sua função precípua, qual seja, a representação social, e passam a
operar como verdadeiras empresas a serviço de suas próprias cúpulas ou como
instâncias de estímulo a hostilidades grupais, o problema não é mais a
quantidade de filiados que perdem ou ganham, mas a qualidade da representação
que oferecem. Noutras palavras: a raiz do problema da falta de
representatividade não está nos jovens, como sinal de uma suposta apatia cívica
– está nos próprios partidos.
Aqui retornamos a um ponto caro a este
jornal. No Brasil, os partidos têm vida muito fácil. Jamais precisaram cortejar
seus apoiadores para sobreviver por meio de doações privadas. Financiam-se
lautamente com os bilhões dos Fundos Partidário e Eleitoral, recursos dos
contribuintes que garantem sua sobrevivência independentemente de qualquer
esforço. Essa rede de segurança permitiu que os partidos se dedicassem menos a
formar quadros e ouvir as demandas dos eleitores e mais a proteger arranjos
internos de poder. Daí a arguta metáfora usada por um dos jovens entrevistados
por este jornal: legendas que funcionam como “cartórios”, com pouca vida orgânica,
baixa renovação de lideranças e escassa democracia interna – entidades
analógicas com dificuldade para dialogar com uma geração digital, não raro
caindo no ridículo.
Para piorar, a polarização afetiva
transformou a filiação partidária em grito de torcida organizada. Para os mais
jovens, ou seja, para o futuro da política partidária, aderir a um partido
deixou de significar apoio a um programa de governo ou visão de país para virar
um rótulo identitário. Essa lógica é a antítese da política, que privilegia a
construção de consensos mínimos em torno do interesse público e do bem comum
por meio do diálogo entre posições divergentes. Esse partidarismo exacerbado
transforma as legendas em facções e os adversários políticos em inimigos. Os
jovens mostraram maturidade ao perceberem isso, o que é ainda mais
constrangedor para as cabeças brancas que instrumentalizam as siglas e negam a
própria ideia de convivência democrática com as diferenças.
Sem abrir suas estruturas internas, renovar
lideranças, arejar ideias e voltar a disputá-las na esfera pública com
civilidade e espírito republicano, os partidos continuarão perdendo o único bem
que nenhuma alínea do Orçamento da União jamais poderá comprar: a adesão
espontânea de quem se sente representado por seus valores, ideias e projetos
para o Brasil. E, antes que se diga que esse é o caminho, não bastam ações
pontuais para aumentar a filiação dos mais jovens. Os próprios partidos têm de
recuperar sua razão de existir: a capacidade de representar os interesses legítimos
de setores da sociedade. O resto vem a reboque da confiança que inspirarem nos
eleitores – sejam os mais velhos, sejam os mais jovens.
Como nascem os jabutis
Por O Estado de S. Paulo
Congresso sai de férias sem entregar seu
trabalho e já anuncia uma nova temporada de votações a toque de caixa no
segundo semestre, criando ambiente propício ao contrabando de medidas
A Constituição federal é clara: o artigo 57
determina que a sessão legislativa não deve ser interrompida sem a aprovação da
Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). No Congresso, porém, quem se importa com
isso? Ano após ano, deputados e senadores deixam Brasília sem cumprir essa
obrigação constitucional. A exceção virou regra, e o Parlamento tem como praxe
sair de férias antes da entrega do principal dever legislativo do início do
ano, enquanto prazos seguem correndo e empilhando prioridades para o segundo
semestre.
A proposta encaminhada pelo Executivo em
abril permanece sem relator designado na Comissão Mista de Orçamento (CMO). Em
ano eleitoral, o atraso torna plausível um cenário em que a Lei Orçamentária
Anual só seja aprovada em 2027, impondo ao próximo ocupante do Palácio da
Alvorada severas limitações para executar políticas públicas e investimentos no
início do mandato.
O que se vê é que o Parlamento que cobra
protagonismo sobre o Orçamento e disputa cada centavo das bilionárias emendas
parlamentares, reivindicando mais poder sobre os gastos públicos, procrastina
quando chega o momento de cumprir sua parte no processo de elaboração das
contas públicas.
O Congresso também entrou em recesso deixando
para trás uma fila de matérias que seus próprios líderes classificaram como
prioritárias. A PEC da Segurança Pública, por exemplo, é a discussão mais
relevante hoje em tramitação no Congresso e atende a parte de um dos principais
problemas do País, mas não avançou desde que chegou ao Senado. A PEC da escala
6x1 felizmente não foi votada, mas tampouco houve avanço no seu debate no Senado.
Se essas eram realmente prioridades, o Congresso simplesmente desistiu de
tratá-las. Se não eram, vendeu ao eleitor uma urgência que jamais pretendeu
enfrentar.
O problema não para por aí. Causa arrepio o
anúncio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de que o segundo
semestre será marcado por duas semanas de “esforço concentrado”, de 10 a 14 de
agosto e de 31 de agosto a 3 de setembro, justamente porque a campanha
eleitoral esvaziará o Legislativo.
O esforço concentrado não concentra apenas
votações. Concentra também riscos. Não é coincidência que “jabutis” (adendos
estranhos ao objeto de projetos de lei) abundem justamente em votações
concentradas. Quanto menos tempo houver para análise, menor será a capacidade
de reação da sociedade, da imprensa e até dos próprios parlamentares. Não
faltam exemplos para comprovar o que um cenário como esse é capaz de produzir.
A pressa não é um acidente do processo
legislativo, mas frequentemente funciona como método. Com dezenas de projetos
apreciados em sequência e textos alterados até os últimos minutos, reduz-se
deliberadamente o espaço para contestação, compreensão e escrutínio público e
se amplia a chance de aprovação de dispositivos que dificilmente sobreviveriam
ao debate público.
A dinâmica do Congresso conduzido por
Alcolumbre institucionaliza a ideia de que legislar se tornou atividade
secundária diante da disputa eleitoral e outros interesses. O eleitor, porém,
não elege deputados e senadores para trabalhar apenas quando lhes convêm. O
mandato parlamentar é permanente e não admite suspensão informal por causa das
festas juninas ou da campanha eleitoral. Nem mesmo as Comissões Parlamentares
de Inquérito escaparam dessa lógica. A CPI do INSS terminou sem sequer aprovar
um relatório final, convertida muito mais em palco para a disputa eleitoral do
que em instrumento efetivo de fiscalização.
Democracias maduras convivem com eleições sem
interromper o funcionamento de seus Parlamentos. No Brasil, ao contrário,
naturalizou-se a ideia de que o calendário político justifica meses de
produtividade reduzida, seguidos de votações apressadas nas quais prosperam
jabutis, acordos de última hora e decisões sem o debate que a sociedade merece.
O Congresso Nacional deve satisfações permanentes aos cidadãos que o financiam.
Trabalhar até o fim da legislatura não deveria ser tratado como “esforço
concentrado”. Deveria ser apenas o cumprimento do mandato.
Mais uma chance para o Reino Unido
Por O Estado de S. Paulo
Novo premiê precisa aproveitar sua
popularidade para realizar as reformas urgentes
O trabalhista Andy Burnham tornou-se
primeiro-ministro britânico com ativos que faltaram ao seu antecessor, Keir
Starmer. Comunica-se com naturalidade, transmite empatia e está empenhado em
devolver aos britânicos a impressão de que a política ainda pode oferecer um
rumo. Depois de uma sucessão de primeiros-ministros incapazes de estabilizar o
país, esse tipo de esperança é condição necessária para um bom governo – mas,
no caso do Reino Unido, não suficiente.
Esse capital político enfrenta uma realidade
que nenhuma mudança de estilo altera: a economia britânica continua presa ao
baixo crescimento, à estagnação da produtividade, ao envelhecimento da
população, ao aumento das despesas com o Estado social e a defesa e ao peso
crescente da dívida pública. O país precisa voltar a investir e recuperar
competitividade num ambiente internacional cada vez mais exigente. Isso não
será obtido pela mera troca de liderança.
Burnham pavimentou sua carreira reunindo
interesses diversos, conciliando sensibilidades dentro do Partido Trabalhista e
apresentando-se como voz das regiões esquecidas por Westminster. Essa
habilidade lhe rendeu prestígio político. Governar o país exigirá outra
qualidade. O orçamento transformará promessas compatíveis na campanha em
prioridades concorrentes. Reduzir o custo de vida, fortalecer serviços
públicos, ampliar investimentos, preservar compromissos sociais, elevar gastos
militares e respeitar regras fiscais são objetivos legítimos. Não são, porém,
automaticamente conciliáveis.
Burnham ainda não explicou de forma
convincente como pretende arbitrar essas escolhas. Sua agenda combina
descentralização, reindustrialização, maior controle público sobre serviços
essenciais e um “Estado preventivo” voltado a evitar problemas sociais antes
que se tornem mais caros. Algumas dessas ideias merecem consideração. A
descentralização, em especial, pode aproximar decisões das comunidades e
reduzir um centralismo excessivo que há muito prejudica o país. Mas nenhuma
delas elimina a necessidade de estabelecer prioridades, conter despesas
permanentes ou enfrentar interesses organizados.
A tendência simplista de atribuir as
dificuldades britânicas ao thatcherismo inspira desconfiança. Houve
desindustrialização, concentração regional e erros de política pública que merecem
revisão, mas os trabalhistas governaram por boa parte dos últimos 30 anos.
Reconstruir prosperidade exigirá respostas para desafios mais recentes:
produtividade, inovação, energia, investimento e adaptação tecnológica. O
futuro não será organizado com base numa leitura nostálgica do passado.
Burnham chega ao governo com um ativo político relevante: maior capacidade de mobilizar confiança e expectativas do que seu antecessor. Isso lhe oferece uma oportunidade rara de defender reformas que inevitavelmente produzirão resistências, inclusive dos próprios trabalhistas. Suas primeiras declarações revelam um político habilidoso. Ainda falta demonstrar que esse talento será acompanhado da disposição para enfrentar verdades duras e impor limites às próprias promessas. Se essa disposição não aparecer, o Reino Unido poderá descobrir que trocou um governo desgastado por outro mais carismático, sem alterar as causas profundas de sua estagnação.
Guerra no Irã marca ponto de inflexão no
setor de energia
Por Valor Econômico
A insegurança energética provocada pelo conflito no Oriente Médio está alavancando os investimentos em energia renovável
A retomada da guerra entre EUA e Irã voltou a
bloquear o estreito de Ormuz, num momento em que o mundo esperava uma
normalização do tráfego marítimo na região. Com isso, as cotações do petróleo e
de outras commodities subiram novamente. A chance exígua de uma paz duradoura
apenas reforça que depender de combustíveis fósseis exportados por um punhado
de fornecedores de uma região conturbada constitui uma vulnerabilidade
estratégica. Para reduzi-la, vários países estão revendo suas políticas
energéticas. Os sinais nesse sentido já são evidentes. A guerra marca um ponto
de inflexão no mercado de energia, que não voltará a ser o mesmo.
Essa insegurança energética não deverá se
dissipar tão cedo. Desta vez, o presidente Donald Trump avisou formalmente ao
Congresso americano sobre a retomada da guerra. O conflito se intensificou no
fim de semana com ataques retaliatórios mútuos, que resultaram na morte de três
soldados americanos em bases na Jordânia e no norte do Iraque e com Teerã
voltando a atacar os países vizinhos. Essa nova escalada militar entre EUA e
Irã acontece antes mesmo de as negociações abordarem a causa do conflito, isto
é, o programa nuclear iraniano, sobre o qual as divergências entre os dois
lados parecem difíceis, senão impossíveis, de serem conciliadas.
Um evidente efeito duradouro do conflito é
que o livre trânsito em Ormuz ficou no passado. O Irã já sinalizou sua intenção
de cobrar um pedágio dos navios que atravessam o estreito. Até mesmo Trump
chegou a afirmar que os EUA cobrariam um pedágio de 20% do valor da carga
transportada pelo serviço de manter Ormuz aberto. Ele recuou, mas a ameaça de
cobrança está no ar e poderia encarecer o transporte em bilhões de dólares por
ano.
A guerra mostrou como a economia global é
vulnerável à disrupção de pontos de estrangulamento na cadeia energética. Mesmo
uma potência média, como o Irã, pode interromper o fluxo, usando ataques de
baixa intensidade e armamentos relativamente baratos.
Para piorar o cenário, os houthis do Iêmen,
aliados do Irã, anunciaram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita no
estreito de Bab-el-Mandeb, porta de entrada para o Mar Vermelho, o que pode
reduzir a oferta global de petróleo em 7% ao impedir a saída da maior parte das
exportações sauditas. Isso se somaria ao impacto de cerca de 10% da oferta
mundial provocado pelo fechamento de Ormuz.
O golpe energético causado pelo conflito está
compelindo governos, empresas e consumidores pelo mundo a adotar ou acelerar medidas
para garantir o fornecimento adequado de combustíveis e energia. Isso implica
atuar em três frentes: diversificar os fornecedores, aumentar a resiliência a
choques externos e avançar na transição energética.
A dependência é hoje um risco muito grande e
reforça a necessidade dos países importadores de diversificar os fornecedores
de energia. Esse movimento tende a favorecer exportadores não tradicionais,
como o Brasil e os EUA.
Aumentar a resiliência implica,
principalmente, investir mais em produção local de energia e melhorar a
infraestrutura de geração, armazenamento e distribuição. Isso, no curto prazo,
deve elevar o uso do carvão, o combustível fóssil mais abundante, mas também o
mais poluente, o que limita um aumento significativo da sua utilização.
Por fim, há o pilar da transição da matriz
para energias renováveis ou nuclear, que são produzidas localmente e independem
de fornecimento externo não confiável. As exportações chinesas de painéis
solares para o Sudeste Asiático aumentaram 75% em abril.
Segundo o Morgan Stanley Research, somente a
Ásia deverá investir US$ 5,5 trilhões em energia nos próximos cinco anos. Os
investimentos em renováveis antes eram uma resposta às mudanças climáticas.
Agora, trata-se de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. A guerra no
Irã fez da transição energética uma necessidade. “Independência energética não
é mais apenas uma aspiração. É o caminho mais barato para a estabilidade
econômica”, afirmou a Fundação Rockefeller num relatório de abril.
A demanda global por petróleo deve diminuir
neste ano, pela primeira vez desde o auge da epidemia de covid-19, em 2020.
Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo mundial caiu 5,3 milhões
de barris/dia em maio, para 97,9 milhões de b/d. Para o ano, a AIE prevê uma
queda média de 1 milhão de b/d. A maior parte dessa redução se deve ao
fechamento de Ormuz, mas a agência diz que a eletrificação do transporte,
especialmente na China, também contribui. A guerra vai acelerar esse processo.
Trump, um entusiasta do petróleo, está, sem querer, dando a maior contribuição de um presidente americano à transição para as energias renováveis. Esse processo favorece a China, já que Pequim produz mais de 80% dos painéis solares, das turbinas eólicas e das baterias vendidas globalmente e lidera em veículos elétricos. Essa certamente não era a intenção do presidente americano quando ele decidiu atacar o Irã. Mas, como se costuma dizer, as consequências sempre vêm depois.
Novo avanço no tratamento anti-HIV
Por Correio Braziliense
O país passou a dominar todo o processo
necessário para a produção do remédio que faz parte da combinação de drogas
considerada a primeira linha no tratamento da infecção
A conclusão da transferência de tecnologia do
medicamento dolutegravir, envolvendo a farmacêutica britânica ViiV Healthcare e
a Fiocruz, é mais um marco na reconhecida trajetória brasileira de acesso
ampliado ao tratamento de pessoas com HIV. O país passou a dominar todo o
processo necessário para a produção do remédio que faz parte da combinação de
drogas considerada a primeira linha no tratamento da infecção. Com a expertise
em prática, vai poder reduzir custos, diminuir a dependência de importação e
trazer mais segurança às 770 mil pessoas que dependem diariamente do comprimido
que ajuda a manter a carga viral sob controle.
O que falta para a produção em larga escala é
a concessão do registro sanitário pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), que não tem prazo definido para essa análise. Há três lotes prontos
do dolutegravir, validados pelo Instituto de Tecnologia em Fármacos
(Farmanguinhos), à espera do sinal verde para serem distribuídos ao SUS. Desde
2022, o laboratório ligado à Fiocruz é responsável pela logística e
distribuição do dolutegravir ao sistema público de saúde — período em que mais
de 739 milhões de comprimidos foram repassados. Em farmácias privadas, uma
caixa com 30 pílulas custa, em média, R$ 3 mil.
Com esse cenário, não é exagero afirmar que a
maioria expressiva dos brasileiros infectados pelo HIV depende do SUS para
seguir o tratamento recomendado como preferencial pela Organização Mundial da
Saúde (OMS) e que não se pode desprezar o que essa assistência representa aos cofres
públicos. Da mesma forma, é de fácil consenso a percepção de que o Brasil está
prestes a dar novo salto no enfrentamento ao HIV/Aids, sobretudo em tempos de
alta volatilidade cambial e em que a tecnologia sanitária se transformou em
diferencial geopolítico.
A parceria firmada em 2000 com a detentora da
patente do dolutegravir vai ao encontro dos resultados da última Reunião de
Alto Nível sobre HIV/Aids da ONU, realizada, em junho, na sede das Nações
Unidas, em Nova York. Um dos pilares da declaração política aprovada no
encontro é "garantir o acesso global, a disponibilidade e a acessibilidade
econômica de medicamentos para HIV", por meio de assistência técnica
direcionada e transferência de tecnologia, para "acabar com a Aids como
ameaça à saúde pública até 2030". O desafio é grande para os signatários,
considerando que a resposta aos casos de infecção está "cada vez mais
vulnerável a crises convergentes", como a redução do financiamento para
pesquisas e as emergências humanitárias.
No caso do Brasil, ao mesmo tempo em que se comemora a produção nacional do dolutegravir, espera-se respostas eficazes ao aumento desproporcional de infecções entre jovens e que o país mantenha-se atualizado ante os avanços terapêuticos. Os tratamentos de ação prolongada, por exemplo, já são realidade, mas com preços também restritivos — dose injetável a, em média, R$ 4 mil. Cogita-se, inclusive, uma nova crise internacional envolvendo o acesso a esse tipo de tratamento, que não exige administração diária da medicação. Se confirmada, um país com histórico de protagonismo na oferta de antirretrovirais não pode se posicionar como coadjuvante.
O novo e decisivo momento da campanha
eleitoral
Por O Povo (CE)
O calendário eleitoral abriu uma nova etapa
desde ontem e, pelo avançar das coisas, será uma das mais importantes da
temporada. Partidos e coligações estão autorizados a realizar convenções para
oficialização de candidaturas para as eleições que acontecem no dia 4 de
outubro próximo, momento que precede o início efetivo de campanha nas ruas.
Trata-se de um passo legalmente necessário.
Até 5 de agosto próximo deve acontecer a
definição do quadro de candidaturas, finalizando entendimentos que, parte
deles, ainda seguem abertos para se estabelecer quem estará aliado de quem.
Especialmente quanto à disputa majoritária, pelos cargos de presidente da
República (e vice), governador de Estado (e vice) e as vagas de senador. Duas,
no caso do Ceará.
Há muita negociação que continua acontecendo,
apesar de as principais decisões, aparentemente, já terem sido tomadas e de o
cenário parecer em grande parte definido, a depender da realidade local de cada
unidade federativa . Mas, como adverte ditado popular, o perigo, muitas vezes,
mora nos detalhes.
Portanto, é conveniente que o eleitor
acompanhe com atenção os movimentos até que tudo seja dado como resolvido a fim
de interpretar as intenções que movem os atores políticos por trás dos acordos
e das conversas. As alianças fazem parte da natureza da atividade e se deve
cobrar dos envolvidos, apenas, que ajam com transparência e responsabilidade,
focando uma perspectiva de vitória eleitoral, claro, mas sem esquecer que o
objetivo buscado deve ser sempre a melhor maneira de atender o interesse do
público.
O que está projetado para 2026, no campo
político, não é uma campanha tranquila. Pelo contrário, tudo aponta para um
cenário muito tenso, marcado, no plano local e no cenário nacional, por
acusações de parte a parte e por uma disposição geral de levar a disputa às
últimas consequências. É importante, por isso, que tenhamos o Estado, através
de suas instâncias legitimadas, preparado para agir com firmeza e rapidez
sempre que a situação exigir algum tipo de intervenção.
Enfim, está aberta uma etapa nova de uma caminhada eleitoral, que na verdade já começou faz algum tempo e tem situações acumuladas que conseguem justificar a preocupação latente na sociedade com o que está por vir. Em 2022 tivemos uma estrutura de justiça atenta e atuante, o que ajudou a amenizar o efeito de episódios violentos verificados à época, o que inclui registros até de mortes vinculadas à tensão política. Para não termos um quadro semelhante àquele é importante, também, que os agentes políticos saibam conduzir o debate até o limite que o ambiente democrático permite. Tolerar um milímetro a mais que isso será inaceitável.

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