O Globo
Os EUA não têm regra. Não há regulação, muito
menos processo. Quem avalia se uma IA é ameaça ou não?
No dia 9 de junho, terça-feira da semana passada, a Anthropic lançou com certo estardalhaço seu novo modelo de ponta, Claude Fable. Era, de longe, a inteligência artificial (IA) mais avançada à disposição no mercado. Era. Na sexta, dia 12, quando mal passava das 17h em Washington, o secretário de Comércio Howard Lutnick mandou uma ordem. Era para a companhia suspender o acesso ao Fable para qualquer cidadão estrangeiro. Incluam-se na lista os próprios funcionários da Anthropic que não nasceram nos Estados Unidos (muitos). A equipe de comando da empresa leu o papel, sabia que colocar um filtro por nacionalidade é impossível, aí tomou a única decisão viável: tirou do ar. Ninguém mais usa. E, assim, o governo americano essencialmente acaba de impor um teto ao avanço da IA. A partir de determinado nível de capacidade, está proibido. Evidente que não vai durar. Foi puro improviso de quem não pensou nas consequências. Mas é fundamental compreender tudo que está em jogo.
Antes de tudo: o discurso de Dario Amodei,
fundador e CEO da Anthropic, vem consistentemente batendo na mesma tecla: a IA
tem potencial de se tornar muito perigosa para o mundo, é preciso que os
governos regulem urgentemente. Na semana passada mesmo, ele publicou mais um de
seus longos ensaios sugerindo que os Estados nacionais organizem grupos de
trabalho enxutos e eficientes para sugerir uma regra, já que os Poderes
Legislativos perderam a capacidade de se mover, travados pela polarização
ocidental. Ele vinha dizendo sobre o Mythos, a família de modelos de que o
Fable faz parte, justamente que representavam uma ameaça à cibersegurança.
Seria capaz de quebrar quase tudo, do Windows no computador pessoal até os
sistemas que comandam distribuição de energia, passando pelos circuitos
bancários. Talvez não seja uma boa estratégia bater o bumbo dizendo que seu
produto oferece risco real a todo mundo. Vai desempregar, vai desestruturar,
vai facilitar fraude e tudo o mais não é discurso que faça muitos amigos.
Ao mesmo tempo, Amodei é figura malquista na
Casa Branca. Dos principais líderes do Vale do Silício, é de longe o que se mantém
mais distante de um governo que gosta de empresários e executivos
subservientes. No Vale, há quem finja essa subserviência, como a turma de Apple
e Google. Há quem se esforce para manter proximidade, como OpenAI e Meta. E há
os que trabalharam ativamente pela eleição de Trump. Foi assim com Elon Musk e
seu conjunto de empresas, da Tesla ao X e à SpaceX. Só a Anthropic mantém
distância explícita. Isso atrai simpatia de um campo político. Mas também
provoca animosidade num governo impulsivo. O Departamento de Defesa já nomeou a
Anthropic como ameaça à segurança do país, perdeu na Justiça e teve de recuar.
Agora é o Departamento de Comércio.
Só que, desta vez, o governo tem alguma razão
de estar preocupado. Scott Bessent, o secretário do Tesouro, foi avisado na
quinta por Andy Jassy, CEO da Amazon. Seus engenheiros haviam sido capazes de
quebrar parte dos sistemas de segurança do Fable. Justamente aquele pedaço que
o impedia de violar sistemas de cibersegurança. O Fable poderia ser usado para
ataques de grande porte. A Amazon é a maior acionista da Anthropic. Pois é. E
foi seu CEO que disparou o alarme contra a companhia. Após conversas internas
no governo, Lutnick deu a ordem de suspensão. Quem entende do assunto diz que é
puro alarmismo. Ocorre que, se hoje é puro alarmismo, amanhã pode não ser.
Os Estados Unidos não têm regra. Não há
regulação, muito menos processo. Quem avalia se uma IA é ameaça ou não? Como se
contêm os perigos, ao mesmo tempo facilitando o desenvolvimento de tecnologia
que melhore a vida? É para isso que serve regulação. Para não impedir o
progresso, evitando malefícios previsíveis.
Mas a decisão não tem como ficar de pé. Não é
possível conferir a cidadania de quem tem acesso a uma tecnologia e de quem não
tem. Ainda que fosse, terrorismo interno existe. Proibir acesso a estrangeiros
não suspende ameaças. E vai além: há uma disputa no mundo entre EUA e China. Se
o governo americano proíbe que seus laboratórios cheguem primeiro à corrida, as
consequências são duas. A primeira é que os engenheiros mais importantes vão
migrar para outros países. As empresas também. O Reino Unido estará de portas
abertas, a França idem. E nem precisa ir longe. A Universidade de Toronto, no
Canadá, já é o principal formador de cientistas de IA.
A segunda consequência é que a China chegará
primeiro na corrida.

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