O Globo
Em mais de três meses de conflito, nenhum dos
lados pode declarar vitória, e o número de perdedores é maior do que o de
envolvidos
A guerra deflagrada pelos Estados Unidos e
Israel contra o Irã talvez termine em breve na possibilidade que se abre com o
memorando que será assinado na sexta-feira. Nenhum dos lados pode declarar
vitória, e o universo dos perdedores é muito mais amplo do que apenas os que
estão diretamente envolvidos no confronto. Até o Brasil perdeu. Nesses 107 dias
de embate, o cenário econômico brasileiro mudou completamente.
É por isso que os juros caíram tão pouco, nos dois primeiros cortes, e esta semana a redução deverá ser novamente tímida, de apenas 0,25 ponto percentual. Antes da crise internacional, a expectativa era de cortes de meio ponto ou até 0,75pp a cada reunião para uma Selic no fim do ano de 11% ou menos. A inflação estaria abaixo do teto da meta. Agora, por causa da crise geopolítica, os índices de preços estão pressionados, o acumulado em 12 meses já estourou o teto da meta e os juros só estão em queda porque estavam muito altos.
O governo americano chega ao atual momento
tendo muitas razões para se arrepender de ter iniciado a aventura militar. Por
causa dela, o governo do Irã testou a sua arma mais poderosa, a ameaça de
fechar o Estreito de Ormuz, e se viu que sim o país tem a possibilidade de
bloquear o estratégico canal logístico. Os preços dos combustíveis internamente
tiveram altas expressivas, corroendo a popularidade do presidente Donald Trump.
A inflação americana em geral foi afetada pela nova conjuntura de
instabilidade.
A despesa militar declarada oficialmente pelo
Pentágono foi de US$ 29 bilhões. Mas pode ter sido mais, já que não há
transparência sobre os cálculos. O pior custo dos Estados Unidos foi
reputacional. O presidente Trump deu durante os mais de três meses do conflito
sinais seguidos de debilidade. Anunciou várias vezes o fim dos combates, que
não haviam terminado e ameaçou o Irã sem conseguir dobrar o país dos aiatolás.
Convocou a população civil do Irã a se rebelar e não obteve resposta. Ao longo
do tempo ficou claro que os Estados Unidos entraram na ofensiva de forma
intempestiva e sem qualquer planejamento estratégico. As evidências é que Trump
subestimou os adversários e as dificuldades da operação militar.
O Irã pagou o preço mais alto. Perdeu alguns
dos seus principais líderes. Os que sobreviveram vivem acuados. Por outro lado,
o regime tirânico dos aiatolás enfrentava movimentos de protestos que com a
guerra foram suspensos. Os iranianos têm agora um governo muito mais
militarizado e igualmente repressivo e totalitário. O Irã bombardeou os
vizinhos e entrou em embate direto na região. É um país isolado.
Israel tinha agenda própria em todo o
conflito. Alegava estar dando resposta ao Hezbollah mas parecia estar numa
campanha de ocupação territorial no Líbano. Hoje tem tropas no Sul do Líbano e
viu o Hezbollah se enfraquecer. Porém está com relação tensa com o seu maior
aliado, os Estados Unidos. A sua imagem junto a outros países do Ocidente
piorou ainda mais, após ter sofrido uma violenta deterioração com os massacres
na Faixa de Gaza.
A economia mundial enfrentou problemas
sucessivos com o caos. A alta do petróleo, o encarecimento do frete, as
dificuldades de suprimentos de insumos importantes da cadeia produtiva, o
aumento dos preços de fertilizantes e inúmeros outros desequilíbrios tornaram a
economia mundial mais incerta neste ano de 2026. Todos esses foram efeitos da
guerra.
As negociações com o Irã para tentar ter
algum controle internacional sobre o seu programa nuclear tinham mais chances
de sucesso do que o que começa a ser desenhado agora no novo acordo negociado
pelo Paquistão.
O FMI afirma que o PIB mundial vem resistindo
ao choque, mas que uma intensificação das hostilidades e das interrupções no
abastecimento representam um “risco claro para o crescimento global”, por causa
do aumento nos preços das commodities, da inflação mais elevada e das tensões
nas condições financeiras.
O Brasil é um dos atingidos por estes efeitos.
O governo gastou até agora R$ 30 bilhões subsidiando combustíveis, mas tudo o
que conseguiu foi evitar uma parte da alta dos preços dos derivados de
petróleo. Houve aumento de preços, mas seria muito maior se não fosse o
discutível programa de subvenção a combustíveis fósseis. O custo da guerra para
o Brasil tem que incluir também a despesa com os juros que caíram menos do que
se não houvesse confronto. Ainda não se sabe se a guerra terminará mesmo com
este acordo, o que já se pode dizer é que nela todos perderam.

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