O Estado de S. Paulo
O impacto das condições de tráfego por Ormuz nos deixa claro que essa transição necessária, desejável e desejada é, antes de tudo, lenta
A turbulência por que passa a economia mundial a cada anúncio de fechamento ou de abertura do Estreito de Ormuz – por onde, em condições normais, trafega cerca de um quarto do petróleo consumido no planeta – é o sinal mais evidente de quanto continuamos dependentes de combustíveis fósseis. Transição energética, sobretudo pela redução do uso desse tipo de combustível, tem sido uma das expressões mais frequentes desses tempos. Para muitos, é a indicação de que está a nosso alcance quase imediato um futuro mais limpo e saudável. Mas o que o impacto das condições de tráfego por Ormuz nos deixa claro é que essa transição necessária, desejável e desejada é, antes de tudo, lenta – talvez lenta demais para quem luta por um mundo ambientalmente melhor.
O petróleo, por seu peso na matriz energética
mundial e por seu uso disseminado pela indústria, é o exemplo mais óbvio da
nossa dependência dos combustíveis fósseis. Mas há também o carvão mineral. No
mundo, o carvão responde por mais de 25% da oferta de energia (ou 27,7% em
2023, segundo a Resenha Energética Brasileira 2025, elaborada pelo Ministério
de Minas e Energia). O peso desse combustível na matriz energética brasileira é
relativamente baixo, o que o tira do foco das preocupações nacionais com a
transição energética. No entanto, a utilização do carvão mineral no País talvez
mereça alguma atenção.
Nas últimas décadas, segundo a Resenha, a
participação do carvão mineral na oferta interna de energia, embora
permanecesse pequena, cresceu de 2,8% em 1973 para 4,4% do total em 2023. O uso
do carvão mineral no Brasil foi tema destacado do relatório do Global Energy
Monitor sobre essa fonte energética divulgado no fim de maio (Boom and Bust
Coal 2026). O relatório analisa a expansão e a contração do consumo do carvão
mineral no mundo e mostra um quadro aparentemente contraditório no Brasil.
De um lado, o Brasil tornou-se oficialmente o
primeiro país latino-americano a não registrar nenhum novo empreendimento de
usinas termoelétricas a carvão mineral. Projetos que vinham sendo elaborados ou
estudados foram abandonados. Em fevereiro do ano passado, o Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) encerrou
o processo de licenciamento de uma usina no Rio Grande do Sul, com potência de
726 megawatts (MW). Em novembro, arquivou o projeto de outra usina no Rio
Grande do Sul, com potência de 600 MW.
A abundância de recursos renováveis é uma boa
justificativa para a exclusão de novas termoelétricas a carvão do sistema de
geração energética do País. Mas o que dizer do fato – que gerou a contradição
apontada no relatório do Global Energy Monitor – de o Brasil adotar políticas
que prolongam a vida útil das usinas em operação?
Em 24 de novembro do ano passado, um dia
depois do encerramento da 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças
Climáticas (COP30), na qual o Brasil e mais 194 países assumiram o compromisso
de intensificar as ações climáticas, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto
(sancionado pelo Executivo) que prorrogou até 2040 as compras obrigatórias de
energia elétrica gerada por usinas a carvão. Contratos de compra de energia de
outras termoelétricas a carvão também foram prorrogados. Esses contratos
asseguram mais sobrevida às usinas beneficiadas. As mais antigas são
consideradas as mais poluentes e caras da matriz energética brasileira.
“Os impactos negativos do carvão mineral
sobre o clima, a saúde e a economia são evidentes, e os custos são, em última
análise, repassados aos consumidores brasileiros”, observou Gregor Clark, da
equipe do Global Energy Monitor. “Os abundantes recursos de energia renovável
do Brasil oferecem um caminho muito mais seguro, acessível e sustentável.”
Clark tem razão. O País precisa intensificar
o uso de fontes que reduzam a emissão de carbono, de modo a contribuir para
desacelerar o aquecimento do planeta. Os gases emitidos pela queima de
combustíveis fósseis (carvão mineral, derivados de petróleo e gás natural) são
os principais responsáveis pelo aumento da temperatura do planeta. Daí o
esforço mundial para reduzir seu consumo.
Mas a transição energética envolve a
substituição de ativos existentes e operantes, e isso implica custos elevados e
mudanças extensas no padrão do uso de fontes de energia. O abandono desses
ativos não pode ser imediato. Igualmente não é racional esperar que o consumo
do petróleo, do carvão mineral e do gás acabe antes de haver a garantia de
fontes capazes de substituí-los em volume, custo e eficiência toleráveis. Mesmo
o Brasil já sendo destaque mundial por ter metade de sua matriz energética com
fontes renováveis (a média mundial é de apenas cerca de 15%), continua a
depender de combustíveis fósseis. Petróleo e derivados, gás natural e carvão
mineral respondem pela outra metade da matriz energética brasileira.

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