terça-feira, 28 de julho de 2026

Inexistência individual autônoma, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A convenção nacional do PL foi a convenção de Jair Bolsonaro, ainda que, de vez em quando, alguém se lembrasse de que oficializada ali era a candidatura de Flávio Bolsonaro. Disse Tarcísio, carinhoso: “Flávio está aqui não pelo sobrenome”. Carinhoso – e falso. Estava ali pelo sobrenome somente. Senador somente pelo sobrenome. Candidato à Presidência somente pelo sobrenome. Produto de fenômeno dinástico, puro-sanguista, que se hierarquiza em função da família.

Da família, não. A família de Michelle – ela fez questão de esclarecer – não é a mesma de Flávio.

Para ser exato: Flávio estava ali – está aqui – porque lhe corre o sangue Bolsonaro. Sangue que Michelle não tem, autorizada a usar a franquia Bolsonaro sob todas as restrições decorrentes da circunstância de ser esposa de Jair, aquele – o mito ausente – em função de quem a convenção do PL existiu.

Não havia presidentes de partidos no evento. Sinal de fragilidade política. Flávio queria – quer – aliados. Está isolado. Isolamento que o bolsonarismo outrora conseguiria capitalizar. O outsider. Conseguirá? O outsider que pedia dinheiros a Vorcaro. Tudo é possível. É possível que vença, coadjuvante no ato que lhe lançava a candidatura.

A convenção de Jair Bolsonaro. Expressão da inexistência individual autônoma de Flávio, ao mesmo tempo fortaleza e limitação do candidato. Fortaleza porque a condição de “a pessoa que escolhi para me substituir” lhe dá a base firme para quase se garantir no segundo turno. Limitação porque a “enorme responsabilidade”, sacrifício mesmo, de liderar o movimento bolsonarista – para sobretudo mantê-lo sob o controle da família stricto sensu puro-sanguista – lhe toma os meios para se constituir como persona política singular.

(A fraqueza do candidato que é instrumento, donde manipulável, será explorada por Lula também a partir da defesa da soberania nacional, ensaiado já o discurso por meio do qual o verdadeiro adversário do presidente – para além de Jair – seria Donald Trump.)

Flávio não tem existência política própria. “Sangue do meu sangue, meu filho Flávio” cumpre a missão de ser o cavalo e oferecer o corpo que receberálevará o pai até a eleição. “Bolsonaro vai subir aquela rampa do Planalto junto com a gente” – declarou o “filho mais velho do capitão”, como se classificaria.

A frase completa: “Tenho certeza de que, em janeiro de 2027, Jair Bolsonaro vai subir aquela rampa do Planalto junto com a gente”. Ainda que “soltar Bolsonaro e os presos do 8 de Janeiro” tenha sido a principal proposta, senão a única, do evento, será improvável supor que factível já no começo do próximo ano. Resta a dimensão simbólica, aquela em que “o legado” de Jair – o governo de Jair – subiria a rampa do Planalto para se restabelecer. Projeção que é uma ameaça aos eleitores de que Flávio precisa para ir além. Flávio precisa de Jair para ir a algum lugar. 

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