terça-feira, 28 de julho de 2026

Caso perca, Flávio vai respeitar o resultado? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Agora é o filho mais velho de Bolsonaro que considera se deve ou não embarcar no trem da ruptura

A ascensão do pai ao topo da política nacional teve o ataque às instituições como projeto central

Quando uma estratégia já deu espetacularmente errado duas vezes, por que não tentar uma terceira? Esse deve ser o raciocínio que Flávio tem contemplado agora que flerta com a negação do resultado das urnas.

Vamos recapitular. Jair Bolsonaro governou sob o signo da ruptura contra o Supremo e contra o sistema eleitoral. Conforme as investigações na esteira do 8 de Janeiro mostraram, ele tentou interferir nas eleições bloqueando eleitores e, uma vez derrotado, sentou-se com generais do alto comando para persuadi-los a bancar um golpe que impediria a passagem do poder. Também apoiou uma massa de fanatizados que terminariam por invadir os três Poderes. Discussões do julgamento à parte, o resultado para Bolsonaro foi desastroso: 27 anos de prisão.

Seu filho Eduardo é um dos políticos mais populares do país. Foi o deputado federal mais votado da história. Era puxador de voto e possível sucessor do pai. Até que decidiu jogar tudo isso fora apostando, ele também, na ruptura institucional. De livre e espontânea vontade abandonou seu cargo eletivo e foi para os EUA fazer lobby junto ao governo Trump para, com a ameaça de sanções, coagir os ministros do Supremo que julgavam seu pai.

Desde o início, estava claro que o plano fracassaria: qual ministro mudaria seu voto por uma sanção americana? Previsivelmente, resultou em outro desastre para a família: Eduardo, que não era sequer investigado, virou réu e foi condenado por coação no curso do processo, perdeu seu cargo de deputado e, se voltar ao Brasil, será preso. O plano de coação não só não funcionou —seu pai segue preso— como deu munição eleitoral para Lula, agora favorito na reeleição.

Agora é Flávio que considera se deve ou não embarcar no trem da ruptura. Na semana passada, numa fala em que supostamente reafirmaria seu respeito às regras eleitorais, deixou escapar uma insinuação de descrédito às urnas —a afirmação falsa de que foram feitas pela empresa venezuelana Smartmatic. Nisso, parece ter algum tipo de respaldo vindo do governo americano. Os dois diplomatas que viriam aqui supostamente para lançar dúvidas quanto a nossas eleições podem ter sido barrados, mas isso não deve impedir Trump de aprontar alguma para tumultuar nossas eleições. Cabe a Flávio decidir se irá ou não embarcar nessa estratégia.

Nos últimos anos, muito tempo e energia foram gastos discutindo as ameaças à democracia e os desdobramentos da intentona bolsonarista. Flávio pode agora escolher se tentará uma campanha limpa para vencer no voto popular ou se, já descrente da vitória, apostará suas fichas na ruptura institucional. O mesmo destino do pai e do irmão lhe espera.

Em tese, a escolha devia ser fácil. Ninguém em sã consciência escolheria ficar inelegível e quiçá preso sem disso colher nenhum benefício. No caso de Flávio e seus irmãos, contudo, o dilema é um pouco mais difícil. A ascensão de seu pai ao topo da política nacional teve o ataque às instituições como projeto central. Flávio não é nada sem o pai. Não deve lhes escapar uma indagação perturbadora: se a direita quiser abrir mão de qualquer pretensão golpista e passar a focar os problemas do Brasil, por que continuar com os Bolsonaro?

 

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