Folha de S. Paulo
Candidato bolsonarista não empolga
evangélicos e PT disputa massa pentecostal em igrejas
Pastores influentes evitam defender senador
publicamente para proteger suas igrejas
Se depender do eleitor evangélico, a campanha
de Flávio
Bolsonaro, do PL, sairá cambaleante, mas de pé, de qualquer denúncia que
apareça —seja a foto
dele com o Sicário, matador de aluguel a serviço de Vorcaro,
seja o suposto vídeo do senador nas festas do ex-banqueiro.
O vídeo nas festas ainda não foi vazado, mas sua existência foi confirmada pelo deputado Kim Kataguiri, da Missão, partido que lançou Renan Santos como concorrente de Flávio na direita.
Mas a menos que a revelação seja muito grave,
a candidatura
de Flávio se manterá na disputa pelos mesmos motivos que a fizeram
sobreviver aos ataques anteriores.
Para o evangélico conservador, Lula e o PT são os
verdadeiros inimigos da família. Outros nomes da direita não cresceram até
agora, então, Flávio representa a melhor oportunidade de vitória do grupo
político que defende valores tradicionais.
O senador também será poupado por não ser
percebido como crente legítimo, apesar de se apresentar dessa forma. Diferente
da madrasta
Michelle, ele não teria vivido um processo de conversão verdadeiro —e, por
isso, não pode ser cobrado pela mesma régua.
Existe ainda a percepção de que desvio sexual
e má conduta no casamento têm se tornado assuntos mais comuns no ambiente
evangélico. Basta acompanhar publicações como o Fuxico Gospel para constatar
que divórcio e traição já não sentenciam o fim da carreira de um líder como
acontecia nos anos 1990.
Diante de novas denúncias, já existe um
procedimento para proteger o acusado. Flávio gravará
um vídeo reconhecendo o erro e pedindo perdão. O meio tende a perdoar
quem se arrepende, e muitos acreditarão nele.
Fora isso, a campanha tem más notícias. O
afastamento do apoio mais entusiasmado das lideranças de direita evangélica
continua em curso. Nenhum pastor influente em nível nacional defende em cultos
ou pelas redes o nome indicado por Jair Bolsonaro.
Esses pastores enxergaram um padrão: quando
surgem boatos —como o de que Flávio tinha uma relação com Vorcaro—, primeiro,
ele nega. Quando as evidências chegam aos jornais, ele admite a culpa. Por
isso, entendem que o senador não é confiável.
Nesse contexto, pastores de direita
continuarão mantendo silêncio para que suas igrejas não sejam contaminadas por
novos escândalos, que devem aparecer durante a campanha. Sem o posicionamento
deles, o PT segue tendo espaço para disputar especialmente os eleitores
pentecostais de origem popular, que são maioria.
Os indecisos, principalmente as mulheres de
igrejas mais tradicionais, são o segmento que abandonará o senador. É oportuno,
então, que Flávio tenha selado as pazes com Michelle antes do início da
campanha. Mas ela terá motivação para fazer pelo enteado o que fez pelo marido?
Por enquanto, Flávio continua sendo o
candidato presidencial do eleitor conservador de direita. Mas, sem o
envolvimento de pastores e o apoio de indecisos, a presença dele nas urnas
aumenta as chances de reeleição do presidente Lula.

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