Aqui vai uma
lembrança ainda, que talvez ilustre de uma forma praticamente definitiva o que
tenho escrito a respeito do papel da negociação na transformação social,
diferente tanto da via revolucionária, que coloca o Estado abaixo, quanto da
conciliação, que nada muda.
Domingo de sol em
Paris. Eu visito o acervo de arte primitiva do
Louvre em companhia de Violeta Aguiar, uma querida amiga do pequenino São Tomé
e Príncipe, sobrinha do presidente daquele país africano. Violeta é funcionária
da Unesco, tem uma sólida formação cultural e viajou por diversos cantos da
África. O acervo do Louvre é primoroso. Fiquei particularmente impressionado
com uma escultura em bronze de Ogun, originária do Daomé, atual Benin. Como o
homem é capaz de criar beleza! Talvez essa seja a única capacidade inesgotável
nele, junto com a adaptação ao meio circundante. Impossível não se emocionar
com a arte que vem da África, a força de suas formas, a pureza que delas emana.
De uma África que é a mãe da Humanidade, nunca é demais lembrar.
Rei da Guerra
singularíssimo, divindade imponente, Ogun é, ao mesmo tempo, o Rei da Paz. Na
escultura, Ogun aparece manipulando tanto a pesada espada quanto um pequeno
sino com que anunciava, na verdade, a sua intenção de paz. Interessante isso.
Ogun sabia mais do que ninguém da dupla natureza dos homens.
*Ivan Alves Filho, historiador

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