terça-feira, 28 de julho de 2026

Milei estraga um bom momento, por Míriam Leitão

O Globo

Presidente argentino cruzou linhas vermelhas da diplomacia, criou uma crise com seu principal parceiro comercial e pôs em riscos agenda de acordos do Mercosul

A crise diplomática provocada pelo presidente Javier Milei ocorre num momento de intensa, ambiciosa e bem sucedida agenda internacional do Mercosul, com uma série de negociações promissoras. O bloco fez acordo com a União Europeia, Efta ( países nórdicos), Cingapura. Negocia com o Canadá, Emirados Árabes, Vietnã. A Inglaterra pediu conversas, a Índia quer aprofundar acordos, o tema foi assunto de conversa entre Lula e o presidente da ChinaXi Jinping. O Mercosul está sendo visto como um “oásis de regras claras”, definiu um negociador brasileiro, dizendo que é um paradoxo a crise num momento tão favorável.

É isso que Milei trinca neste momento ao fazer o que fez no sábado em São Paulo. Uma série de linhas vermelhas da diplomacia foram cruzadas de uma maneira sem precedentes nesta vinda do presidente argentino ao Brasil para participar do lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro ao Planalto. Ao ofender o presidente Lula, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), e interferir tão diretamente em assunto interno, Milei quebrou todo o protocolo que deve reger as relações entre países.

Internamente Milei enfrenta problemas. Ele veio em visita privada, tanto que em nenhum momento comunicou a vinda ao governo brasileiro ou teve contato com autoridades. Só que veio de avião presidencial e às custas do erário argentino. Ele está alegando que foi uma visita oficial ao estado de São Paulo. Evidentemente não existe isso num estado integrante de uma federação. O governador Tarcísio de Freitas recebeu-o como se pudesse oferecer honras de chefe de Estado. Os jornais argentinos fizeram criticas muito fortes à crise criada por Milei com o Brasil.

O que agrava tudo é o fato de que a relação entre os dois países é tradicional e profunda. O comércio com o Brasil é o mais importante para a Argentina, de longe. A balança comercial com os Estados Unidos é metade da que eles têm com o Brasil. Os dois vizinhos têm uma série de frentes de cooperação, além do comércio robusto. Brasil e Argentina têm cooperação na área nuclear, em ciência e tecnologia, na área militar. O ministro da Defesa brasileiro esteve lá recentemente, o da Agricultura também. Isso é rotina.

O esforço todo da diplomacia e das áreas técnicas do governo brasileiro tem sido o de manter as relações bilaterais protegidas do fato de que há uma divergência ideológica entre os dois governos. O Itamaraty tem trabalhado para evitar a contaminação da relação na prática. A vinda de Milei, a decisão de entrar de cabeça na campanha eleitoral, os insultos às autoridades brasileiras, o roteiro totalmente inadequado da visita abalam o trabalho de dois anos e meio.

Esses acordos comerciais todos fechados ou em negociação com o Mercosul decorrem em grande parte da própria política tarifária americana. Como o presidente Donald Trump decidiu atacar o mundo com suas tarifas e sua atitude intempestiva, os países e blocos estão reorganizando suas relações econômicas e comerciais. O Mercosul tem muito a ganhar. Neste momento contudo, o embaixador argentino foi convocado para dar explicações e o embaixador brasileiro na Argentina foi chamado de volta, sem data de retorno.

Javier Milei se justifica fazendo comparação com outros eventos com os quais o seu comportamento não tem paralelo. O presidente Lula foi à Argentina para uma reunião do Mercosul e fez uma visita à Cristina Kirchner autorizada pela Justiça. Uma equipe de marketing que tinha atuado em campanhas do PT, e de outros grupos políticos em outros momentos, foi trabalhar com Sérgio Massa. Tudo isso é diferente da intervenção direta, abusiva e ofensiva que ele praticou durante sua viagem a São Paulo.

Em entrevista, Milei acusou o Brasil de ter financiado uma suposta campanha contra a Argentina ao fim da Copa do Mundo. Nada mais fantasioso. Há uma série de críticas à Argentina no mundo inteiro como reação ao comportamento da seleção do país, principalmente no momento da premiação da Espanha. Essa reação global não é resultado de campanha e muito menos financiada pelo governo brasileiro.

A situação econômica da Argentina tem alguns bons indicadores e outros bem ruins, a popularidade de Milei caiu, mas permanece em piso alto, de 30%. O presidente argentino continua a ser o favorito para as eleições do ano que vem. O ideal é que a crise seja superada, mas por enquanto não se sabe como se sairá dessa enrascada que o Milei colocou a relação bilateral.

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