sexta-feira, 12 de junho de 2026

Copa do Mundo, o jogo do torcedor, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Durante aquelas semanas de 1998, não houvera na cidade de São Paulo nenhum crime, nem mesmo crime violento. O mesmo em outros lugares do país

Quando da Copa de 1998, resolvi fotografar os torcedores no Vale do Anhangabaú diante do telão. Não vi os jogos. Vi emoções e expressões.

Vi o inesperado. O centro da cidade, de lugar do desencontro tenso dos pedestres, desconfiados e antissociais, em questão de alguns minutos, tornara-se lugar de encontro. O centro de São Paulo era conhecido e temido pela ação dos chamados “trombadinhas”, as crianças e adolescentes que assaltavam transeuntes desatentos. Mas havia, também, os “trombadões” que assaltavam idosos e pessoas claramente vulneráveis.

O centro revelava sua face oculta. A suspeita de que as pessoas em situação de rua eram inimigos da sociabilidade civilizada e acolhedora revelava-se profundamente injusta. Comportavam-se como anfitriões, donos e conhecedores da rua. Conversavam com os forasteiros contentes com tanta gente diferente entrando em suas casas: a rua.

Pessoas em situação de rua enturmaram-se com os demais participantes da multidão. Inúmeras pessoas vindas dos bairros distantes, bairros ricos, madames bem-vestidas, bairros operários e de classe média. Vieram para ver a Copa e “ver o povo”. “São iguais a gente”, comentou uma grã-fina.

À medida que as partidas se desenvolviam, com seus momentos emocionantes de alegria ou de tristeza, manifestações claras de solidariedade e de apoio recíproco se multiplicaram. De repente um trombadão abraçado com uma madame. Ou uma pessoa em situação de rua, com um cachecol elegante ao redor do pescoço, seu traje de gala, levara num carrinho de supermercado seu gato de estimação. Explicou-me que quase tudo que conseguia como pedinte gastava com o gato. Veterinário, remédios, comida. O gato era o ser humano do tabique em que morava com o bicho. Seu alter ego.

Eu estava diante de um fenômeno sociológico pouco estudado numa das suas variantes mais inesperadas. O mundo invertido da sociabilidade de multidão. Gustave Le Bon, pioneiro no estudo do assunto, já havia constatado que a situação de multidão promove a emergência, em cada participante, de uma segunda e inesperada personalidade. O eu oculto do avesso.

Minha pesquisa, no Brasil, de 2.028 casos de linchamentos e tentativas de linchamento, mostrou-me que somos portadores de uma variante profunda da estrutura de personalidade que se manifesta em momentos sociais de medo ou de euforia, nas situações sociais de multidão. As pessoas se tornam irreconhecíveis se confrontadas com os padrões cotidianos de sociabilidade.

Uma indicação de mudança de personalidade e de comportamento apareceu nos relatórios policiais relativos aos dias da Copa. Durante aquelas semanas, não houvera na cidade de São Paulo nenhum crime, nem mesmo crime violento. O mesmo em outros lugares do país. Nem linchamentos, a que a situação de multidão é propícia. O primeiro linchamento ocorreu em outro estado poucas horas depois do fim da Copa, com a vitória da França sobre o Brasil por 3 x 0.

Na expectativa da vitória, uma sociedade como a nossa tem comparativamente poucos campos socialmente reconhecidos de afirmação de sua identidade. E insuficientes informações para motivos de orgulho nacional. A emoção da Copa aglutina monumentais emoções identitárias no Brasil pobre delas.

Não obstante haja todos os dias motivos, mas não motivações, para nos orgulharmos com o que muitos brasileiros altruisticamente fazem. Somos um povo criativo e capaz.

Algumas de nossas universidades estão em posições de destaque internacional nos índices de excelência, a USP reiteradamente em primeiro lugar. No entanto, o Brasil do noticiário cotidiano é outro, o dos corruptos e oportunistas. O país inteiro é colocado nas páginas policiais tal a força que a delinquência alcançou entre nós.

Os desafios e esforços do trabalho científico nas universidades brasileiras raramente viram manchete. Se os índices da USP caem um ou dois por cento em relação ao ano anterior, embora continue em primeiro lugar, é essa queda que tem destaque.

Aparentemente não sabemos a diferença entre uma descoberta científica e uma vitória em partida de futebol. Embora a universidade se refaça todo o tempo para ser melhor do que foi no ano anterior. O que a faz a primeira da lista latino-americana na formação de um número crescente de cientistas em todas as áreas de conhecimento.

Diferentemente de uma partida de futebol, isso não se dá por acaso. Pública, laica e gratuita, como a propôs seu fundador, Júlio de Mesquita Filho, a USP foi criada menos de meio século depois da abolição da escravatura, quando o Brasil era um país de analfabetos. Quando as grandes universidades do mundo tinham mais de 600 anos de fundação. Hoje a USP e outras universidades brasileiras competem com elas e são respeitadas.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Um comentário:

Mais um amador disse...

Excelente texto !
Lembra a introdução de " O Novo Iluminismo ", de Steven Pinker.