domingo, 2 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Deterioração das estatais agrava crise fiscal

Por O Globo

No atual mandato de Lula, elas têm passado a representar custo cada vez maior aos cofres públicos

É preocupante a corrosão da saúde financeira das empresas estatais. O último relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, constatou deterioração no resultado das empresas federais ao longo dos últimos anos. Entre janeiro de 2020 e maio de 2026, o resultado financeiro primário consolidado passou de um superávit equivalente a 0,2% do PIB para um déficit de 0,07%. A situação se agravou durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o saldo no início do mandato ainda era positivo, em 0,06% do PIB.

A situação piorou tanto nas estatais que entram no Orçamento da União, classificadas como dependentes, quanto naquelas que, ao menos no papel, afirmam não depender de recursos públicos para sobreviver. De acordo com a análise da IFI, a situação aumenta o risco fiscal para o Tesouro, em razão da necessidade constante de aportes ou suplementações orçamentárias.

As subvenções do Tesouro às estatais dependentes cresceram de R$ 25,4 bilhões em 2022 para R$ 30,9 bilhões em 2025. A análise da IFI revela, nesse grupo, empresas cuja trajetória financeira contrasta com o padrão de exercícios anteriores. Estão nele a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Hospital das Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH). O risco nesses casos, diz o relatório, é o descompasso entre despesas e repasses, que, se persistente, tende a gerar pressão por aportes extraordinários, disputando espaço fiscal com outras políticas públicas, sujeitas aos limites fiscais.

Há ainda mais motivo para preocupação entre as estatais não dependentes. Casos como os Correios, a Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron) ou a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) mostram que elas podem não apenas comprometer a distribuição de dividendos à União, mas também demandar aportes de capital como o que o governo federal terá de fazer nos Correios, em razão dos empréstimos de R$ 12 bilhões contraídos em 2025.

Chamam a atenção os números da Codevasf, outrora considerada um paraíso do orçamento secreto. A empresa apresenta insuficiência de caixa operacional desde 2022. Os Correios vivem situação especialmente dramática. O prejuízo foi de R$ 808 milhões em 2022 para R$ 2,6 bilhões em 2024 e R$ 8,5 bilhões em 2025. Ao mesmo tempo que registrou queda nas receitas, a empresa sofreu pressão de custos com pessoal e benefícios entre 2022 e 2025. Seu programa de reestruturação não tem dado resultado e, novamente, haverá prejuízo bilionário neste ano.

É inverossímil que os problemas relatados pela IFI não sejam de conhecimento do governo. O remédio também é conhecido: em alguns casos, como os Correios, a privatização; noutros, a liquidação. Historicamente, porém, Lula tem demonstrado resistência ideológica a ambas as soluções. A alternativa tem sido avançar sobre o bolso do contribuinte aumentando impostos. A situação das estatais — algumas relevantes, como a Embrapa— deveria ser avaliada sob critérios técnicos, não ideológicos. Ao preservar de forma injustificável empresas que demandam cada vez mais socorro do Tesouro, o governo empurra ao contribuinte a conta da incúria fiscal.

Aumento nas infecções por HIV no Brasil exige mais das autoridades

Por O Globo

País que já foi exemplo no combate à aids retrocedeu na oferta e no monitoramento do tratamento

De forma insidiosa, o HIV tem infectado mais brasileiros. Havia no mundo 41 milhões de soropositivos no ano passado, 1,7 milhão deles no Brasil, de acordo com o balanço apresentado na Conferência Internacional da Aids, no Rio. Entre 2010 e 2024, as infecções caíram 43% no planeta, mas cresceram 21,9% no Brasil. Apesar da queda global, o programa das Nações Unidas dedicado a combater o HIV (Unaids) está longe de cumprir a meta de reduzir em 90% os novos casos e mortes até 2030. As mortes anuais caíram 57%, para 570 mil — 400 mil além do objetivo traçado. Há ainda muito a fazer contra o vírus.

Do ponto de vista científico, o controle do HIV é um problema equacionado, graças às campanhas educativas para o sexo seguro, ao desenvolvimento de coquetéis antirretrovirais para evitar a manifestação da aids, além de terapias profiláticas para antes e depois de possível exposição do vírus. Mas todo esse arcabouço depende de políticas públicas coerentes e contínuas. À menor falha, os casos voltam a subir.

É uma lástima que o Brasil, outrora conhecido como exemplo no combate ao HIV— o país chegou a quebrar patentes para distribuir drogas gratuitamente no SUS —, tenha retrocedido e hoje integre a lista dos países onde as infecções aumentam, ao lado de Afeganistão, Argélia, Bangladesh, Congo, Costa Rica, Egito, Iêmen, Madagascar, Níger, Paquistão, Paraguai, Peru, Filipinas, Quirguistão, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Tunísia e Venezuela.

O estágio de desenvolvimento não explica a dificuldade no combate à doença. Se assim fosse, Benim, Essuatíni, Quênia, Lesoto, Nepal, Ruanda ou Zimbábue não teriam reduzido os novos casos acima de 78%. No mundo todo tem havido avanço. A cobertura para evitar transmissão de mães a bebês chegou a 87% em 2025, ante 24% há 15 anos. O alcance do tratamento antirretroviral foi de 78%, ante 24% há 15 anos. Na África Subsaariana, responsável por metade das infecções e por 69% das contaminações pediátricas, houve queda de 59% nos infectados.

Tais resultados mostram que o HIV é controlável. O objetivo global é identificar ao menos 95% dos que vivem com o vírus, oferecer tratamento a pelo menos 95% deles e alcançar em 95% dos tratados a supressão viral, necessária para evitar o contágio — meta conhecida como 95-95-95. No mundo, os indicadores estão em 88-89-95. No Brasil, em 96-82-95. Há gargalos no início, no monitoramento e na continuidade do tratamento aos diagnosticados.

É preciso maior cuidado no fornecimento contínuo dos medicamentos e no acompanhamento. Também não se pode relaxar na busca ativa de quem deixou de receber medicação. Em razão da proteção da identidade, a tarefa pode dar mais trabalho que noutras doenças, mas é essencial que esteja na rotina dos centros de atendimento. Há falhas importantes na estrutura pública de controle de uma doença altamente contagiosa, contra a qual não se pode deixar uma fresta aberta. A estrutura do SUS oferece condições de enfrentar qualquer moléstia infecciosa. Basta usá-la de forma competente.

Emendas reforçam vantagem eleitoral de parlamentares

Por Folha de S. Paulo

Recorde de deputados candidatos à reeleição mostra o efeito político da multiplicação das verbas

Decisão de Flávio Dino, ministro do STF, de cobrar a responsabilização de envolvidos em sua execução aponta o caminho da transparência

O número de deputados que tentarão permanecer na Câmara nunca foi tão alto. Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) mostra que 87,3% dos atuais ocupantes do cargo disputarão a reeleição, um recorde da série histórica.

A marca coincide com a explosão das emendas parlamentares, que multiplicou o poder orçamentário dos congressistas e ampliou de forma inédita a vantagem de quem já exerce mandato.

Há muito tempo as emendas deixaram de ser um instrumento acessório do Orçamento. Transformaram-se em um poderoso mecanismo de influência política e eleitoral. Segundo o Diap, cada deputado passou a dispor de cerca de R$ 50 milhões anuais, ante algo entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões poucos anos atrás.

A vantagem de quem já exerce o mandato tornou-se incomparavelmente maior, e seu efeito aparece nas bases eleitorais. Até o início de julho, as prefeituras haviam recebido R$ 26,6 bilhões em emendas, cerca de 20% a mais do que no mesmo período do ano eleitoral de 2022.

Em muitos municípios, essas verbas representam parcela expressiva do investimento público, ampliando a capacidade dos parlamentares de influenciar prefeitos, lideranças locais e, por consequência, o próprio eleitorado.

O problema, porém, não se limita ao impacto sobre o pleito. O volume alcançado pelas emendas tornou-se excessivo e distorce o desenho institucional previsto pela Constituição.

Ao transferir parcelas crescentes do Orçamento para decisões pulverizadas, enfraquece-se a capacidade do Executivo de formular e coordenar políticas nacionais. Recursos que deveriam seguir prioridades técnicas acabam subordinados a interesses locais e frequentemente eleitorais.

Essa concentração de poder tampouco foi acompanhada de controles compatíveis. Auditoria do Tribunal de Contas da União encontrou irregularidades em 82 das 100 emendas Pix analisadas, com problemas que vão de falhas na prestação de contas a indícios de fraude e superfaturamento.

Nesse contexto, merece apoio a decisão do ministro Flávio Dino de exigir que Câmara dos Deputados, Senado e Presidência esclareçam ao Supremo Tribunal Federal (STF) a responsabilidade jurídica de cada agente envolvido no percurso das emendas, da indicação parlamentar à execução dos recursos.

É inadmissível que quem exerce tamanho poder sobre o destino do dinheiro público permaneça protegido por uma zona cinzenta de tramitação de verbas.

A ampliação do protagonismo do Legislativo não pode significar a captura do Orçamento nem a perpetuação de vantagens eleitorais financiadas pelo contribuinte. Quanto maior o poder dos parlamentares, maior deve ser sua obrigação de prestar contas.

Transparência, rastreabilidade e responsabilização são essenciais para impedir que as emendas consolidem, sob nova roupagem, os velhos currais eleitorais.

Atentado em Berlim escancara dilema migratório

Por Folha de S. Paulo

Falhas na vigilância de radicais que perpetram crimes inflam discurso anti-imigração de políticos extremistas

Ignorar a necessidade de trabalhadores estrangeiros ameaça a sustentabilidade dos países europeus, que têm baixas taxas de natalidade

O atentado terrorista à parada LGBT em Berlim no último sábado (25), que causou uma morte e deixou 31 pessoas feridas, levantou um debate sobre possíveis falhas da Justiça e da polícia —além de estimular o discurso anti-imigração.

Dada a gravidade desse tipo de crime, é natural que os eventos que o cercam sejam examinados com lupa. Os serviços de inteligência serão duramente criticados caso se descubra que ignoraram sinais de alerta ou que o perpetrador esteve em algum momento sob seu radar.

Abdul Bakout, 21, o autor do atentado, nasceu na Alemanha, era filho de libaneses e foi morto durante perseguição policial.

Ele havia tentado se unir ao grupo terrorista Estado Islâmico numa viagem à Síria com passagem pelo Líbano, onde foi preso em julho de 2025 por incitação a conflitos religiosos e sectários.

Acabou detido em novembro ao retornar a Berlim e, em maio deste ano, condenado a 22 meses de prisão por preparação de um grave ato de violência contra o Estado e divulgação de propaganda da organização proibida.

O tribunal, contudo, aplicou um dispositivo do direito penal juvenil alemão que suspendeu temporariamente a execução da pena com a condição de participação de um programa de desradicalização. Também foi classificado como caso de alto risco e colocado sob vigilância.

Friedrich Merz, o chanceler de centro-direita, disse que é preciso saber como alguém com essa classificação conseguiu cometer o ataque. Seu ministro do Interior afirmou que pretende implementar medidas para permitir o uso de tornozeleiras eletrônicas por indivíduos perigosos.

Já políticos da AfD, partido da direita nacionalista que está em ascensão no país, criticaram a decisão da Justiça e propuseram regras duras para imigração, cidadania e naturalização, além de deportação imediata de pessoas que representem ameaça.

Mas tal abordagem extremista desconsidera a realidade de um país que precisa da contribuição dos imigrantes, como outras nações europeias, considerando o envelhecimento populacional e a baixa taxa de natalidade.

Ademais, a esmagadora maioria deles não chegará a cometer atentados. Atualmente, há 410 radicais islâmicos classificados como indivíduos perigosos na Alemanha, num universo estimado de cerca de 7 milhões de muçulmanos com origem migratória em países islâmicos.

Onde vige o Estado de Direito, o desafio é aliar segurança nacional com as garantias fundamentais e o devido processo legal.

Conversa para boi dormir

Por O Estado de S. Paulo

A equipe econômica promete um ajuste fiscal em 2027 caso Lula seja reeleito. Óbvia balela. Melhor é acreditar no que disse o coordenador do programa do PT, que defendeu mais gastos

A equipe econômica do governo quer convencer o mercado financeiro de que um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será muito diferente do atual. A promessa, agora, é entregar um ajuste fiscal já no início de 2027, algo que soa como música para investidores preocupados com o desequilíbrio das contas públicas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem ventilado que a proposta é ajustar o limite de despesas do arcabouço fiscal, que permite um aumento de gastos entre 0,6% e 2,5% ao ano em termos reais, para algo entre 1,5% e 2%, no máximo.

Trata-se de uma óbvia tentativa de reduzir os danos causados pelas declarações do ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo do PT. Em um brutal surto de sinceridade, Gabrielli ousou colocar em palavras tudo aquilo que o governo realmente pensa e efetivamente faz na seara econômica.

A investidores, Gabrielli disse ser favorável ao controle de capitais e defendeu a continuidade da política de reajuste do salário mínimo como uma maneira de estimular a saída de beneficiários do Bolsa Família. Sugeriu, ainda, mudanças no arcabouço fiscal para permitir que o governo possa ampliar investimentos e gastos sociais.

De efetivo, nada de muito novo ou diferente do que prega o lulopetismo. Mas, paradoxalmente, isso causou mal-estar no partido e no Ministério da Fazenda e rendeu uma bronca a Gabrielli por parte do Palácio do Planalto, segundo noticiou este jornal.

O coordenador da campanha de Lula em São Paulo, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, disse que somente Lula tem autoridade para falar sobre seu programa, uma vez que o presidente não tem porta-voz. “O que posso dizer é que nós não daremos um cavalo de pau na economia nem faremos nada pirotécnico”, afirmou.

Ora, se há algo de que a economia brasileira precisa é de um cavalo de pau, ainda que no sentido oposto a que Carvalho se referia. Afinal, desde o momento em que Lula foi eleito, tudo o que ele propôs foram mais gastos. E isso começou antes mesmo de tomar posse, ainda em 2022, com a emenda constitucional da transição, quando a necessidade de recompor o orçamento fictício apresentado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro serviu como pretexto para elevar despesas muito além do justificável.

Tal prática se manteve ao longo de todo o mandato, com o boicote ativo da própria base aliada a toda iniciativa que pudesse trazer mais racionalidade para o Orçamento, e foi deliberadamente acelerada neste ano, quando as pesquisas ainda indicavam empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nem mesmo o período de defeso eleitoral tem sido respeitado, e o governo acaba de anunciar a prorrogação, até o fim de agosto, da segunda etapa do programa de renegociação de dívidas Desenrola.

Chega a ser irônico que Gabrielli tenha sido escolhido como bode expiatório para eximir a equipe econômica da responsabilidade pela completa descrença do mercado financeiro de que Lula fará um ajuste fiscal. O ex-presidente da Petrobras não passa de um influente conselheiro de campanha.

Já os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, são autoridades constituídas, e a inconsistência entre o discurso fiscal que sustentam e os atos que referendam têm consequências concretas. Basta observar a trajetória da dívida nos últimos anos para ter a certeza de que o cumprimento da meta fiscal que os ministros tanto alardeiam não teve resultado algum.

O governo, por sinal, nem sequer é obrigado a aumentar os gastos em 2,5% em termos reais. Esse é o teto. Se houvesse vontade política, portanto, o Executivo já poderia ter limitado o crescimento da despesa em 1,5% a 2%. A questão é que Lula não vê nem nunca viu problema em aumentar gastos.

Nada indica que Lula faria algo diferente em um quarto mandato. Logo, se for para acreditar em alguém, convém prestar atenção ao que diz Gabrielli, que ao menos tem a virtude da coerência. O discurso fiscalista da equipe econômica é conversa para boi dormir.

Perigosa desordem mundial

Por O Estado de S. Paulo

À medida que armas e recursos atravessam diferentes teatros de guerra, conflitos regionais na Ucrânia e no Irã se entrelaçam e expõem o custo da desunião entre aliados ocidentais

Um ataque ucraniano a uma embarcação do Irã no Mar Cáspio oferece uma imagem reveladora da nova desordem mundial. Segundo Kiev, o navio transportava material militar para a Rússia. Longe das principais frentes, entrelaçam-se rastros de conflitos com causas e objetivos próprios. A guerra da Ucrânia não se fundiu à do Oriente Médio, nem há um comando comum entre os adversários do Ocidente. Suas retaguardas, porém, já se cruzam.

O Irã fornece drones que a Rússia emprega na Ucrânia. A Coreia do Norte envia munições, mísseis e soldados em troca de dinheiro e proteção. A contribuição chinesa é menos ostensiva, mas mais ampla: componentes eletrônicos e bens de uso dual mantêm em funcionamento a indústria militar russa, e o comércio com Pequim ajuda Moscou a suportar o isolamento econômico. A Rússia não é a única beneficiária. Iranianos e norte-coreanos ganham experiência numa guerra moderna, enquanto a China aumenta sua influência sobre um parceiro cada vez mais dependente.

Convém resistir à tentação de fabricar um novo “Eixo” – nome da aliança entre Alemanha, Itália e Japão na 2.ª Guerra. China, Rússia, Irã e Coreia do Norte não possuem defesa coletiva, comando integrado ou a confiança que une a Otan (aliança militar ocidental). Tratá-los como bloco esconderia conflitos entre eles que o Ocidente deveria explorar. Isso não torna a cooperação irrelevante. Muito antes de constituírem uma aliança formal, esses países já ajudam a alterar o curso das guerras em andamento.

Alguns desses vínculos poderão perder intensidade com o fim das hostilidades, mas a cooperação já criou capacidades mais duradouras. A experiência de combate e os métodos desenvolvidos para escapar das sanções poderão ser aproveitados em crises futuras. Por isso, mesmo um cessar-fogo na Ucrânia não restauraria a situação estratégica anterior a 2022, quando o país foi invadido pela Rússia.

Os conflitos também se aproximam por aquilo que retiram de seus adversários. A guerra contra o Irã reduz a margem dos EUA para sustentar outras frentes, sobretudo a ucraniana. Governos hostis ao Ocidente nem precisam combinar cada movimento. A simultaneidade dispersa forças, comprime estoques e enfraquece a dissuasão.

Analogias históricas exigem cautela, mas ajudam a iluminar riscos. Em 1914, compromissos cruzados e decisões sob pressão transformaram uma crise localizada numa conflagração, a 1.ª Guerra Mundial, que escapou aos cálculos dos governos. Já a 2.ª Guerra mostra como potências revisionistas, movidas por ambições diferentes, podem avançar enquanto seus adversários enfrentam cada desafio isoladamente. O mundo contemporâneo tem suas especificidades – armas nucleares, canais de comunicação, alianças institucionalizadas – que impedem que a História sirva como fonte de profecias. Mas ela ajuda a identificar mecanismos de escalada.

As democracias conservam vantagem. EUA, Europa e aliados asiáticos reúnem economias maiores, tecnologia superior e alianças sem equivalente entre seus adversários. Essa superioridade somente será útil se puder ser sustentada no tempo. Isso depende da recuperação da capacidade industrial, de uma divisão razoável dos encargos entre aliados e de pressão econômica seletiva, que explore as divergências entre os regimes adversários. Regimes que financiam ambições superiores ao vigor de suas economias acumulam tensões que o tempo pode agravar.

O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça desperdiçar essa superioridade. Ao hostilizar parceiros, relativizar compromissos e recorrer ao protecionismo comercial, corrói a confiança necessária para estratégias prolongadas. Sua política ainda contribui para aproximar adversários que deveriam ser tratados conforme seus interesses e vulnerabilidades. Washington exagera a unidade deles e, ao mesmo tempo, trata como descartável a confiança dos próprios aliados.

A embarcação iraniana atingida no Cáspio lembra que a aproximação das guerras avança por rotas secundárias, arranjos bilaterais e decisões localizadas. As democracias ainda dispõem de tempo e recursos para impedir uma conflagração maior, desde que não destruam, por impaciência e desunião, a vantagem que seus adversários não possuem.

Não estamos prontos

Por O Estado de S. Paulo

Ao contrário do que garante o presidente Lula, País falha na prevenção do Super El Niño

Diante da perspectiva de que um Super El Niño se intensifique no Brasil a partir de setembro, às vésperas das eleições, o governo federal resolveu liberar R$ 1,3 bilhão do Orçamento para combater os impactos negativos do fenômeno climático que provoca o aquecimento das águas do Pacífico. São esperadas, por exemplo, seca severa em boa parte da Amazônia e chuvas intensas na Região Sul.

Boa parte dos recursos, no entanto, não será gasta em medidas preventivas, e sim em ações como compras de alimentos, que são necessários depois que os desastres acontecem. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, “nunca antes na história do Brasil a gente esteve tão preparado para enfrentar uma possível adversidade que se apresenta pela natureza”.

A declaração grandiloquente de Lula não é respaldada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Dados do TCU analisados pelo jornal O Globo mostram que, entre 2012 e 2026, a União empenhou R$ 24,36 bilhões em ações de resposta e recuperação de desastres ambientais, como inundações, o que é quase o triplo dos R$ 9,62 bilhões destinados à prevenção.

Em favor de Lula, ressalte-se que o petista não é o único presidente que negligenciou a prevenção dos desastres climáticos. Como demonstra o TCU, diversas gestões federais têm falhado em reduzir os efeitos negativos de eventos como calor extremo e chuvas volumosas.

A inaptidão, aliás, é generalizada. Tanto o Executivo federal como os governos estaduais e as prefeituras, bem como o Congresso, têm falhado sistematicamente em reduzir a letalidade e a destruição causada por eventos que vêm se tornando cada vez mais comuns no País e no mundo.

Em evento recente realizado pelo TCU, a gerente de Sustentabilidade e Resiliência da Confederação Nacional dos Municípios, Cláudia Lins, afirmou que apenas 25% dos municípios que responderam a uma pesquisa da entidade disseram-se prontos para enfrentar o aumento da ocorrência de eventos extremos.

No Congresso Nacional, por sua vez, a destinação de emendas parlamentares para a área ambiental é praticamente inexistente. De acordo com publicação do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) do início deste ano, apenas 0,58% das emendas individuais ao Projeto de Lei Orçamentária de 2026, aprovado pelo Congresso Nacional em dezembro de 2025, destinavam-se a ações ligadas a meio ambiente e clima. Isso equivale a somente R$ 154 milhões num universo de R$ 26,6 bilhões.

Depois da calamidade pública que se viu no Rio Grande do Sul há pouco mais de dois anos, era de se esperar que o País tivesse aprendido com a tragédia e que, a esta altura, estivesse mais preparado para lidar com eventos extremos. Infelizmente não é o que se vê.

Somente um esforço real coordenado e contínuo das diversas esferas de governo, bem como do Congresso, permitirá que o País enfrente a realidade da crise climática de modo a minimizar perdas humanas, de infraestrutura e de recursos. Só investir em ações para mitigar os desastres não basta.

Unilab: 16 anos de integração e conhecimento

Por O Povo (CE)

Com a missão institucional de formar recursos humanos a fim de contribuir com a integração entre o Brasil e os demais países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a Unilab é parte essencial do processo que faz com que a integração seja vivida, discutida e repensada dia a dia

Celebrar a trajetória bem-sucedida da educação superior é sempre inspirador, visto que se comemora também o desenvolvimento social e econômico do País, além da transformação de vida de inúmeras pessoas e se reconhece a contribuição que os profissionais da educação dedicam à causa. Por isso, é honroso lembrar os 16 anos de existência da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

Com a missão institucional de formar recursos humanos a fim de contribuir com a integração entre o Brasil e os demais países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), especialmente os países africanos, a Unilab é parte essencial do processo que faz com que a integração seja vivida, discutida e repensada dia a dia. Além disso, vem, ao longo dos anos, promovendo o desenvolvimento regional e o intercâmbio cultural, científico e educacional.

A Unilab foi criada em 20 de julho de 2010, por meio da Lei nº 12.289, e instalada em 25 de maio de 2011. As atividades administrativas e acadêmicas da Universidade se concentram no Ceará e na Bahia. No Ceará, a universidade tem unidades nos municípios de Redenção, Acarape e Baturité. Na Bahia, está presente no município de São Francisco do Conde. Hoje tem à frente como reitor o professor Roque Albuquerque.

Os cursos, que abrangem desde a graduação presencial e a distância, passando por pós-graduação latu sensu (Especialização) até a pós-graduação strictu sensu (Mestrado e Doutorado), são abertos à comunidade em áreas variadas, estimulando a transformação da realidade local e a promoção do conhecimento amplo e diverso. É assim o papel da universidade pública que se compromete com a educação de qualidade, produz pesquisa e ciência e contribui fortemente para o mercado profissional.

Porém, mais do que formar profissionais, a Unilab precisa ser valorizada, sobretudo, pela cooperação internacional que realiza, por meio da diversidade, da inclusão e do compromisso social com povos, culturas e saberes. A integração com as nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, parte de sua missão institucional, é praticada no ensino, na pesquisa e na extensão - mas, acima de tudo, na vivência articulada cotidianamente nos corredores da instituição.

É certo que há desafios a serem enfrentados e, por isso, a cobrança da sociedade precisa ser atenta e vigilante para que o protagonismo da instituição não se esmoreça. Incentivar que a educação superior continue vibrante é função social também para que a educação siga como a catalisadora de políticas, espaços e realidades. E para isso, são necessários constantes investimentos em recursos físicos e humanos, valorização dos profissionais e abertura de espaços.

À Unilab, nosso respeito e nosso reconhecimento pela construção de histórias louváveis, pela aproximação entre os povos e pela promoção de conhecimento e cultura.

O inescapável ajuste fiscal

Por Correio Braziliense

Há um dever inescapável ao eleito para comandar o Executivo federal: o próximo presidente da República terá de adotar uma disciplina fiscal poucas vezes vista na história do país

Houve um tempo em que os petistas tinham o hábito de denominar "herança maldita" os problemas decorrentes de administrações anteriores. Era uma maneira de denunciar a suposta desastrada gestão de adversários políticos e, ao mesmo tempo, justificar as ações e intenções dos incumbentes no enfrentamento das dificuldades, notoriamente na área econômica. Em 2026, os candidatos à Presidência da República — inclusive o atual postulante à reeleição — terão de enfrentar uma herança de grave magnitude: a situação das contas públicas. 

Dados divulgados na sexta-feira pelo Banco Central indicam que a dívida bruta do setor público brasileiro chegou a 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em junho. É o maior patamar desde abril de 2019, quando, em pleno combate à pandemia de covid-19, a relação dívida/PIB havia chegado a 82,6%. Este ano, o endividamento público equivale a uma montanha de R$ 10,8 trilhões e compreende a União, estados e municípios. 

Independentemente de quem saia vencedor da corrida ao Planalto, o novo chefe do Executivo terá de tomar providências para conter a escalada da dívida pública. Analistas econômicos preveem que ela poderá chegar a 100% do PIB em 2032 — são apenas seis anos à frente — e alcançar o assustador patamar de 115% em 2056. Não há economia emergente que se sustente nesse nível. Existem países desenvolvidos com altas taxas de endividamento, como Japão, Estados Unidos e China, mas nenhum deles conta com uma taxa de juros anual de 14,25%, como ocorre no Brasil.

É pouco provável que o debate técnico que caracteriza o saneamento das contas públicas mobilize o eleitor. Há muitos interesses em jogo, situações estruturais e pontos a serem debatidos, como a desvinculação do reajuste do salário mínimo aos benefícios previdenciários. Mas o cidadão comum percebe os efeitos dessa situação ao viver em uma economia marcada por juros altos e crescimento limitado. Isso significa mais dívida, menos investimentos, mais estagnação. 

O governo Lula tem argumentado, desde o início do terceiro mandato presidencial, que foi preciso reconstruir a administração federal após o desmonte promovido por Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022. Nesse sentido, a gestão petista cumpriu o prometido, ao resgatar políticas públicas que haviam sido abandonadas, como a defesa do meio ambiente, o fortalecimento do SUS e os investimentos em educação. Em compensação, o compromisso de reduzir gastos ficou pendente, colocando em xeque uma das promessas mais veementes da equipe econômica comandada por Fernando Haddad: o arcabouço fiscal. Ao longo dos últimos anos, observou-se que a atual administração cumpriu, quando muito, o piso da meta fiscal estabelecida para o período 2023-2026. 

É preciso fazer mais. O próximo chefe do Executivo terá obrigatoriamente de impor um rigoroso ajuste fiscal. Isso porque a política monetária conduzida pelo BC tenderá a ser cautelosa  — quando não restritiva — enquanto não houver sinais claros de uma redução de despesa. O Boletim Focus prevê uma taxa Selic a 14% no fim de 2026 e de 12% ao final do primeiro ano do próximo governo, com uma inflação acima de 4%, bem acima do centro da meta. Soma-se a esse cenário desafiador um Legislativo que não manifesta qualquer comedimento com recursos públicos — pelo contrário, há um insaciável apetite pelo pagamento de emendas parlamentares — e um Judiciário que, a muito custo, tenta conter a inominável farra de penduricalhos por diversos tribunais do país. 

Em poucas semanas, o Brasil escolherá quem julgar capaz de comandar o destino da nação a partir de 5 de janeiro de 2027. Há candidatos de diferentes matizes partidários e perfis políticos. Mas essa escolha deverá considerar um dever inescapável ao eleito: o próximo presidente da República terá de adotar uma disciplina fiscal poucas vezes vista na história do país. Esse compromisso precisará ser visto de maneira muito clara em outubro.

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