O Globo
PF e MPF juntos vão impedir delação seletiva.
BRB pode ter redução do rombo, mas vive dias decisivos. Caso Master entra em
nova fase
Há duas dúvidas cruciais neste momento sobre o caso Master. Na política, a pergunta é se a delação de Daniel Vorcaro será enviesada e seletiva. Na economia, é o que vai acontecer com o BRB. Quem acompanha a investigação acha que existem seguros contra o risco de uma delação parcial. Um deles é o fato de a Polícia Federal e o Ministério Público atuarem em conjunto, outro é a abundância de fatos já revelados. Sobre o BRB, momentos decisivos acontecerão nos próximos dias. O governador Ibaneis Rocha tem atrapalhado a busca de soluções. O prazo para a divulgação do balanço se esgota depois de amanhã.
Ontem completou um ano que o BRB anunciou que
iria comprar o Master, hoje ele luta pela vida. A história mostrou, neste um
ano, que se a operação tivesse sido permitida pelo Banco
Central seria a consumação do crime perfeito de Vorcaro. Ele
encobriria seus roubos e levaria todas as fraudes para dentro de um banco
público.
O Banco de Brasília continua exposto a
riscos, por ter feito negócios com um fraudador. O governador Ibaneis Rocha tem
ouvido mais seus advogados do que os gestores que tentam manter o banco vivo.
Uma das saídas, se sabe, é um empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos. Mas,
para isso, o acionista controlador, no caso o governo do Distrito Federal,
teria que escrever uma carta admitindo que a instituição está numa situação
patrimonial grave e precisa de socorro. Orientado por seus advogados, Ibaneis
reluta em colocar isso no papel. Enviou ao FGC apenas um “aviso de pedido”, um
pontapé. Isso é pouco e tarde.
Para o país, o maior risco seria ter uma
delação seletiva que mire uns alvos e poupe outros por razões políticas. O fato
de haver muita gente na sala reduz esse risco, avaliam pessoas envolvidas nas
apurações. Os criminosos estarão sendo ouvidos por integrantes da Polícia
Federal e do Ministério Público Federal. “Se um lado tentar manipular, o outro
levantará da mesa e o país saberá que algo estranho acontece”, diz uma das
fontes que eu ouvi. Ademais, muito já foi divulgado nesta investigação que está
bem avançada, o que tira margem de manobra dos delatores, caso queiram fazer
escolha seletiva de alvos.
Até agora, o Banco Central fez um trabalho
autônomo e sem pirotecnia. Resistiu aos ataques e olhou também para os seus
próprios erros. Foi o BC que evitou o desastre da compra do Master pelo BRB,
identificou indícios de crime e os denunciou ao Ministério Público. A Polícia
Federal tem avançado na investigação e resistiu quando houve tentativa de
interferência de ministro do STF. A imprensa trouxe para a luz do sol
informações preciosas.
A ideia de que Brasília inteira pode ser
atingida pelas revelações é enganosa. Há quem tenha recebido Vorcaro,
conversado com ele, sem favorecê-lo em coisa alguma. Há os que tiveram vantagem
direta e há os que, tendo recebido vantagens, fizeram favores ilícitos a
Vorcaro. E aí é que está o crime. Joio e trigo terão que ser separados.
O problema mais agudo e imediato é o destino
do BRB. Se ele não divulgar o balanço no dia 31 de março receberá uma multa do
Banco Central, mas é pequena. Há punições na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Mas o mais preocupante é o que pensará o cliente a respeito de uma instituição
que está há nove meses sem publicar balanço e sobre o qual se estima um rombo
de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões. Existem os depositantes privados, mas existem
também os clientes institucionais, os tribunais de Justiça, os fundos de
pensão. O BRB tem muito depósito judicial, além da folha salarial da região
administrativa com maior renda per capita. Se houver uma crise de confiança que
leve a uma corrida, será fatal para o banco.
O pior cenário pode ser evitado. Primeiro, um
detalhe contábil: quando um banco tem prejuízo, 40% do negativo viram crédito
fiscal que vai para o ativo. Portanto, o rombo diminui. Segundo, quando há
credores com “dívida subordinada”, a regra estabelece que se o banco ficar com
patrimônio negativo, essa dívida é convertida em capital. Ou seja, o credor
vira sócio. E, de novo, o rombo diminui. Dependendo do volume de dívida
subordinada que haja no balanço, 70% do total do rombo não precisarão ser
capitalizados em dinheiro.
O BRB tem R$ 67 bilhões em ativos e passivos.
Não provoca uma crise sistêmica mas, se quebrar, atingirá fortemente o setor
público.

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