terça-feira, 11 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não pode haver retrocesso na reforma tributária

Por O Globo

Flávio e Caiado cometem erro grave ao sugerir revisão do modelo de impostos aprovado em 2023

São irresponsáveis as promessas de campanha dos candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) de revisar a reforma tributária. Aprovada em 2023, a unificação dos impostos sobre o consumo deu um primeiro passo para acabar com o pandemônio tributário que sempre caracterizou o Brasil, complicando a vida das empresas e afugentando investidores. Foi resultado de amplo consenso no Congresso, depois de décadas de debates e embates. E previu um período de transição de dez anos, para que todos consigam se adaptar à nova estrutura de impostos. Obviamente, deixou muitos insatisfeitos que, em ano eleitoral, fazem pressão sobre os candidatos para tentar deter os avanços.

A legitimidade democrática desafiada, por Ricardo Marinho*

Que estamos vivendo tempos difíceis para a democracia é algo que percebemos há muito tempo.

Está sob diversos tipos de desafios. Um, por exemplo, advinda da revolução tecnológica que afeta vertiginosa a vida de nossas sociedades, outra diretamente por causa da percepção política dos cidadãos e seus níveis de aprovação e/ou desilusão com o sistema democrático, suas regras e seus valores.

Embora entre aqueles que vivem nesse sistema haja uma maioria que o prefira e o considere o melhor sistema de governo e convivência social que a sociedade criou, essa maioria tem diminuído.

Essa tendência descendente quase sempre não resulta de um exercício de reflexão profunda, as respostas nem sempre têm uma relação próxima com a questão; muitas vezes reflete a percepção das pessoas sobre a capacidade do sistema de resolver seus problemas, satisfação e/ou frustração com o cumprimento da promessa de liberdade. igualdade e bem-estar que esperam dela (e nada com cada qual), quando as coisas não vão bem, consideram isso não cumprido e o apego aos seus princípios e valores diminui.

Apoio de Motta a Lula mostra política de conveniência do Republicanos, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A escolha obedece à realidade eleitoral da Paraíba. O presidente da Câmara precisa preservar influência, renovar seu mandato e eleger o pai, Nabor Wanderley, para o Senado

O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta, à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva expõe a ambiguidade eleitoral do Republicanos. Formalmente, o partido decidiu permanecer neutro na disputa pelo Palácio do Planalto, não indicar o candidato a vice de Flávio Bolsonaro nem integrar nenhuma coligação presidencial. Na prática, liberou seus dirigentes e diretórios estaduais para escolherem publicamente o lado mais conveniente às respectivas circunstâncias locais. É uma salvo-conduto para múltiplas alianças regionais, inclusive com forças antagônicas.

Foi o que permitiu a Hugo Motta anunciar o apoio a Lula sem romper com a direção partidária. “A tendência nossa aqui na Paraíba é que caminhemos com o presidente Lula”, declarou, acrescentando que o petista representa aquilo que seu grupo considera “o melhor para o país”. O presidente da Câmara aguardou deliberadamente a decisão nacional do Republicanos para somente então revelar sua posição. O Republicanos da Paraíba apoiará a reeleição de Lula, segundo Motta.

Mitos e verdades da diplomacia na era da desinformação, por Mauro Vieira*

Correio Braziliense

A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente. Os ataques recentes de governantes de turno de países amigos a instituições democráticas brasileiras ilustram a dimensão desse desafio

O recurso à desinformação em massa e ao uso dos algoritmos e das redes sociais como armas a serviço do extremismo político é um desafio persistente para os regimes democráticos e para o exercício da política, tanto no plano interno quanto externo. Esse fenômeno tem em Giuliano da Empoli um dos mais atentos observadores, primeiramente na obra Os engenheiros do caos e, mais recentemente, em A hora dos predadores. A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente. 

O Brasil não está sozinho na tensão com os Estados Unidos, por Fernando Gabeira

O Globo

A revogação do visto da embaixadora em Washington é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os EUA vêm tomando

Um autor argentino que nos visitou recentemente mandou mensagens para os amigos, lamentando os ataques de Milei a autoridades brasileiras. Segundo ele, essas patacoadas não representam grande parte do país.

Não há dúvida de que nem todos na Argentina aprovam a forma como Milei expressa suas posições. Assim como não deve haver dúvida de que os Estados Unidos não apoiam, em sua maioria, as escaramuças diplomáticas que o governo Trump usa contra o Brasil.

Para começar, as próprias tarifas aplicadas ao Brasil e a outros países sofrem grande resistência interna. Vinte e cinco estados americanos entraram na Justiça condenando a decisão de Trump de taxar sob o argumento de que os países não combateram adequadamente o trabalho forçado. Os estados governados por democratas consideram a taxação contrária à lei.

Reação à altura, por Merval Pereira

O Globo

Concurso para professor da USP é exemplar de como as oligarquias dos três Poderes se ajudam mutuamente para manter o statu quo

Diz-se que a vida imita a arte, mas não é preciso ser artista, apenas um sensível observador, para fazer da arte um reflexo da realidade da vida. O jurista Joaquim Falcão foi premonitório em seu livro recém-lançado “A oligarquia dos poderes”, ao constatar que os interesses particulares dos integrantes dos três Poderes se sobrepõem aos públicos, provocando o que chama de “mal-estar social”. O cidadão comum não tem certeza sobre como as autoridades estatais se relacionam e negociam entre si.

Foi esse mal-estar que produziu uma reação cívica à tentativa de oligarcas do Judiciário de interferir no concurso para professor doutor na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), a maior e mais importante universidade pública do Brasil. Criada em 1934, a USP é líder em produção científica na América Latina e destaque em rankings mundiais. O concurso foi anulado porque o candidato vitorioso, Rafael Campos Soares da Fonseca, filho do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Reynaldo Soares da Fonseca, anexou a seu memorial acadêmico cartas de recomendação assinadas por autoridades do Judiciário, incluindo ministros do STF como Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Edson Fachin e André Mendonça. Havia também cartas dos ministros do STJ, colegas de seu pai, Ribeiro Dantas e Gurgel de Faria, e outra do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Brasil visto de São Paulo, por Míriam Leitão

O Globo

Os candidatos Tarcísio e Haddad fizeram um debate com estocadas, críticas e divergências, mas com respeito democrático

É um alívio de certa forma acompanhar um debate como o do governador Tarcísio de Freitas e do ex-ministro Fernando Haddad. Estão em campos opostos, mas dialogam. Divergem profundamente, se estocam muitas vezes, mas estão presentes na apresentação de suas propostas e na defesa de seus pontos de vista. Tarcísio, apesar de estar na frente nas pesquisas e ser o incumbente, não fugiu do debate da Band. Haddad, com toda a aversão que tem ao bolsonarista, não trata Tarcísio como inimigo. São adversários, estão numa peleja decisiva para o país, mas os eleitores podem respirar sem o temor de que voe alguma cadeira.

Tarcísio não tinha mais a insegurança do debate de 2022, em que ele deu sinais de que não conhecia o estado que ia governar. Não soube dizer onde ficava sua seção de votação. Foi derrotado naquele debate, mas ganhou a eleição. Desta vez, o confronto foi mais equilibrado, com Tarcísio exibindo dados de obras e realizações, ainda que tenha mostrado fraquezas.

Quando se conta com o ovo que a galinha sequer pôs na urna, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Disputa interna no PT e nas corporações sobre um quarto mandato arrisca minar as chances de Lula obtê-lo

A perspectiva de futuro anunciada pela postulação do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mais clara nas disputas internas desencadeadas no governo e no PT do que nas propostas protocoladas no TSE.

Quatro vezes maior que aquele apresentado em 2022, o programa é mais uma prestação de contas do que foi feito neste mandato do que um plano de voo para o seguinte. Nenhum candidato faz programa de governo para anunciar desvinculação de gastos mas a promessa de ampliação no alcance e escopo das políticas públicas não é acompanhada dos meios para viabilizá-las no Orçamento da União.

É possível que se queira fazer parte disso retomando um naco dos R$ 50 bilhões em emendas parlamentares, citadas quatro vezes no programa, mas o insucesso deste intento até aqui recomenda ceticismo. Decantadas reformas, como a administrativa e do Judiciário, não merecem uma única menção. Pela profusão (11 menções) com que a IA é citada, deve haver expectativas, mas sua incorporação à gestão pública produz eficiência, não milagres.

Interpretação alternativa à tradicional visão fiscalista, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Mesmo com esforço fiscal, o elevado custo financeiro continua impulsionando a expansão da dívida

O discurso dominante entre economistas ligados ao mercado diz que os recentes aumentos da dívida pública são consequência direta do excesso de gastos públicos. Há controvérsias. Outros economistas, da área acadêmica, sustentam que essa tendência decorre da elevação exagerada das taxas de juros e da estrutura do sistema financeiro brasileiro.

Um trabalho acadêmico do professor da PUCSP Ernesto A. Moura, mestre em economia política, propõe interpretação alternativa à visão fiscalista tradicional. Ele entende que a dinâmica fiscal brasileira exige analisar conjuntamente política monetária, estrutura bancária, composição da dívida pública e mecanismos de financiamento do desenvolvimento.

Moura observa que a elevação da dívida bruta de 71,7% do PIB em 2022 para 78,7% em 2025 e 81,9% em junho último ocorreu principalmente pelo custo do serviço da dívida, fortemente influenciado pelas altas taxas de juros e pela estrutura do sistema financeiro.

Avanço e estagnação, por Jorge Okubaro

O Estado de S. Paulo

Em média, a despeito da melhora observada nos últimos anos, o ensino no Brasil não tem desempenhado o papel essencial que dele se espera, de oferecer oportunidades de progresso a todos

É auspicioso o avanço do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) anunciado na semana passada pelo Ministério da Educação. Aferido a cada dois anos, o Ideb é o principal indicador da qualidade do ensino brasileiro. Baseia-se nas notas alcançadas pelos estudantes em Português e Matemática e nas informações sobre aprovação e reprovação.

Ainda assim, o Ideb não alcançou metas que deveriam ter sido atingidas em 2021 pelo final do ensino fundamental (do 5.º ao 9.º ano) e pelo ensino médio. A pandemia da covid-19 é apontada como a principal causa do atraso. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, diz que o impacto das políticas do governo ainda não foi captado pelo Ideb (relativo a 2025), mas deverá ter reflexo na próxima avaliação. Quanto ao ensino médio, Barchini lembrou que, em 1988, apenas 7% dos matriculados no primeiro ano concluíam o curso; o índice atual é de 80%. “É uma escola tardia no Brasil, a gente está aprendendo a fazer o ensino médio agora.”

Na piscina com o ‘hub’ da corrupção, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Mau exemplo na política é gasolina na fogueira de golpistas e nazistas, numa fusão explosiva

Uma imagem vale mais do que mil palavras? Muitas vezes, sim, como a foto de oito políticos, alegres e sorridentes, alguns de copos nas mãos, refrescando-se na piscina do rancho de um advogado bastante conhecido, e polêmico, que está na mira na Polícia Federal por... lavagem de dinheiro.

Lava-se dinheiro daqui, lambuzam-se biografias dali e la nave va na política, enquanto grupos radicais se multiplicam com rapidez e audácia cada vez maiores, reunindo gente de tendências nazistas, machistas, misóginas e golpistas – e com ânsias de explodir a República.

O retrato da confraria do orçamento secreto, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Na piscina, a confraria dos independentes, proprietários de bilhões de reais em emendas

A turma representativa – a democracia representativa dos oligarcas do Congresso – aboletada na piscina. O retrato da confraria dos independentes, os autossuficientes. Independentes da República, no sentido de que à margem dos rigores para com a coisa pública, deputados e senadores, sovacos ao alto, unidos e festivos pela perversão autoritária – a propriedade sobre dezenas de bilhões de reais do Orçamento da União, um fundo eleitoral paralelo – que os desobrigou de fazer política e que consagrou o mandato parlamentar como um fim em si mesmo.

Aprendendo coisa errada, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Indivíduos definem seus padrões de comportamento olhando para os pares

Sucessão de escândalos na alta política mostra persistência da corrupção

Onde aprendemos o certo e o errado? Há respostas para todos os gostos. Para alguns, tudo o que é preciso saber acerca do bem e do mal está nas Escrituras. Para outros, é questão de berço: são os pais que ensinam aos filhos o que deve ou não ser feito. Há até quem diga que são os livros de filosofia que cumprem essa função.

Não afirmo que essas explicações estão todas erradas, mas elas me parecem subcasos de uma resposta mais geral. Para saber como devemos nos comportar, nós olhamos para o lado e vemos o que as pessoas costumam fazer. Não é uma coincidência que as palavras "ética" e "moral" derivem respectivamente dos termos grego ("éthe") e latino ("mores") para "costumes". Assim, se você vive numa comunidade religiosa, se comportará como os religiosos a seu lado, que se inspiram numa determinada escola de interpretação da Bíblia. Se vive num bairro afluente de cidade grande, se comportará como seus vizinhos e todos dirão que o padrão foi fixado pela educação recebida no lar.

Autonomia financeira dá lugar às alianças partidárias, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Novas regras eleitorais e financiamento público desestimulam coligações na disputa à Presidência

Na base do cada um por si no plano nacional, partidos investem nos estados para crescer no Congresso

Nesta eleição, está combinado, a maioria dos partidos vai jogar separado. Só o PT entra na disputa presidencial do jeito tradicional, coligado a seis legendas: PSB, PSOL-Rede, PDT, PV e PC do B.

Não deixa de ser uma ironia o partido com vocação a protagonista, cuja política de alianças só foi aceita por imposição da realidade, ser o único que concorre acompanhado. No campo limitado à esquerda, é verdade, mas ali com um Geraldo Alckmin (PSB) na figuração do centro.

Para Flávio Bolsonaro, a melhor mulher é sempre um homem, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Vice dos sonhos sempre foi Ciro Nogueira, senador do PP envolvido na teia Master

Escolha do deputado Alfredo Gaspar evidencia o isolamento da candidatura bolsonarista

A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para companheiro na chapa presidencial mostra que, para Flávio Bolsonaro e sua base mais radicalizada, a melhor mulher é sempre um homem.

Toda a busca de meses por uma vice mulher funcionou como tentativa de ganhar tempo diante dos reveses da campanha bolsonarista —as revelações do caso Dark Horse e a ligação íntima do filho 01 com o empresário picareta Daniel Vorcaro. E sobretudo a briga pública com a ex-primeira-dama Michelle, alvo de discursos misóginos nas redes.

Poesia | Ponto de Desintoxicação, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Estácio de Sá 2027 | Samba Campeão - SAMIR TRINDADE e cia