O Globo
Crises alimentadas pelo secretário de Estado
americano prejudicam relação entre os dois países e levarão tempo para serem
resolvidas
Estimado Secretário de Estado Marco Rubio:
Fui o embaixador mais duradouro dos Estados Unidos
no Brasil, de 1912 a 1933. Acredite que nunca aprendi a falar português. Temos
um ponto em comum, pois vivi três anos em Cuba e de lá eu trouxe o hábito de
servir aos convidados uma mistura de suco de limão com aguardente, o daiquiri
de lá, a batida daqui.
Sou um diplomata da velha escola, Harvard,
colarinho duro e horror aos dias quentes do Rio. Eu vivia em Petrópolis e aqui
estou sepultado.
Escrevo-lhe para ponderar que o senhor está armando tantas crises e ressentimentos nas relações com o Brasil que levaremos tempo para remendá-las. Revogar o visto da embaixadora foi uma criancice. Tomar o partido de um candidato à Presidência castra nossa influência em favor dos chineses.
Veja o meu caso. Cheguei aqui na Presidência
do marechal Hermes da Fonseca e, até 1930, atravessei cinco governos daquela
que os brasileiros chamam, erradamente, de República Velha. Em março de 1930 o
paulista Júlio Prestes elegeu-se, derrotando Getulio Vargas. Acompanhei-o numa
visita ao presidente Herbert Hoover. Ela correu tão bem que até na capa da
revista Time ele saiu.
Deu-se uma revolução e Vargas foi para o
Palácio do Catete. O presidente Washington Luís e Júlio Prestes viram-se
exilados na Europa. Eu havia ficado longe da fogueira e continuei no posto por
quase três anos. Não tive qualquer dificuldade com Vargas.
Naquele tempo eu achava que o Brasil deveria
investir em transporte e comunicação. Infelizmente, nunca concordei com os
métodos de Percival Farquhar, vice-rei da infraestrutura brasileira, mas suas
empresas ofereciam serviços aos brasileiros.
O que temos hoje? Seu governo hostiliza o
governo de Lula em torno de mixarias e tarifas leoninas, enquanto os chineses
ocupam espaços nas comunicações, nos portos e nos transportes. Farquhar, com
quem me reconciliei, contou-me que a China poderá comprar 20% da Rumo, passando
a controlá-la. Trata-se da maior operadora de cargas ferroviárias do país, com
14 mil quilômetros de malha. Os carros elétricos chineses estão tomando o
mercado brasileiro, suplantando montadoras americanas protegidas há 70 anos. A
China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e avança nos
investimentos, sem se meter com candidaturas.
Secretário Rubio, nós estamos rosnando por
mixarias enquanto não fazemos nosso serviço. O presidente Trump, durante seu
primeiro governo, passou a negar vistos aos parceiros de diplomatas
homossexuais. Mesmo hoje, trava a carreira de nossos profissionais. Com
semelhante postura, os presidentes Taft, Wilson e Harding não teriam me
designado para o Brasil.
Em 1937, o presidente Franklin Roosevelt
mandou para o Rio o meu grande colega Jefferson Caffery. Ele ficou aqui até
1944, se deu muito bem com Vargas e aparou as arestas com os generais
germanófilos.
Encontrei outro dia numa festa o
subsecretário de Estado Sumner Welles (1937-1943). Ele foi demitido porque saiu
do armário num trem. Welles me contou que a intriga contra ele partiu do hétero
William Bullittt, cuja mulher era lésbica.
Naquele tempo ficávamos no armário, mas o
serviço diplomático fazia seu serviço, porque havia, e há, coisa séria a fazer.
Do seu humilde servidor
Edwin Vernon Morgan
Fantasias de marqueteiro
Pela ação de seus adversários internos e
externos, Lula chega ao fim do seu mandato estranhado com os presidentes dos
Estados Unidos e da Argentina. Ambos dizem o que lhes vêm à cabeça. Em 2023,
quando voltou ao Planalto, seus áulicos viam-no numa caminhada em direção ao
prêmio Nobel da Paz. Lá atrás, Lula achava que podia ajudar a acabar com a
guerra da Ucrânia.
Argentina
Quem conhece o estilo de Javier Milei
acredita que o presidente argentino passará de incendiário a socorrista depois
da eleição de outubro.
Sinuca
Ao anunciar em público que pretende ter uma
nova conversa com Donald Trump, Lula meteu-se numa encrenca típica da
diplomacia de palanque.
Se a conversa acontecer depois da concessão
de agrément a Daniel Perez, ficará a impressão de que cedeu. Se não acontecer
depois, ele ficará como intransigente.
Dez anos da Olimpíada
Numa trapaça da História, o Rio de Janeiro
está de novo no colo do ex-prefeito Eduardo Paes, dez anos depois do delírio da
Olimpíada de 2016. Comentando a ruína do prometido “legado” dos jogos o atual
prefeito, Eduardo Cavaliere, disse o seguinte:
“Poucas cidades no mundo conseguiram
preservar e dar uso permanente ao legado de uma Olimpíada como o Rio”. Falso.
Os jogos de Atenas (2004) e do Rio (2016) são exemplos do contrário. Já os de
Londres (2012), Barcelona (1992) e Tóquio (1964) cabem na louvação de
Cavaliere.
Londres botou uma parte da vila olímpica numa
região parecida com a Baixada Fluminense, sem os tiros. Revitalizada, seu
shopping center tornou-se um dos maiores da Europa, com três hotéis, 70
restaurantes e 300 lojas. Barcelona mudou de cara e voltou-se para o mar e a de
Tóquio apresentou ao mundo o trem-bala. Ganha um fim de semana em Teerã quem
viu coisa parecida no Rio.
Jogatina
Depois de ter escancarado a jogatina
eletrônica para aumentar a arrecadação, Lula 3.0 cogita colocar um esparadrapo
na ferida onde mais de 100 milhões de pessoas fazem apostas.
Uma portaria obrigará o cidadão a esperar
cinco segundos entre uma aposta e outra. Ganha outro fim de semana em Teerã
quem souber porque o intervalo entre uma aposta e outra não foi fixado em um
minuto.
A fama de Marco Buzzi
Antes mesmo das denúncias de assédio sexual
do ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça, sua fama entre os
colegas não era a pior, mas era uma das piores. Sua degola mostrou que o
pescoço de ministro de tribunal de Brasília não está livre da lâmina.
As frituras da Federal
O ministro André Mendonça entrou em curso de
colisão com a Polícia Federal. Mau negócio. Deixando-se de lado frituras
nacionais recentes e indo-se a um precedente americano, foi um ex-agente do
FBI, a Federal americana, quem deu o empurrão que ajudou a fritar Richard Nixon
em 1974, derrubando-o da Presidência dos Estados Unidos.
A Casa Branca tentou grampear a sede do
partido democrata em junho de 1972 e cinco aloprados foram presos. Em outubro,
Nixon desconfiava que um agente do FBI estivesse alimentando a imprensa.
Bingo. Mark Felt, ex-vice-diretor do FBI,
apelidado Garganta Profunda (título de um filme pornô da época), na redação do
Washington Post, era uma de suas fontes. Era dele que Nixon desconfiava.
Hoover e a carta da PF
Se 27 superintendentes do FBI tivessem assinado uma carta sobre seja lá o que for, J. Edgar Hoover (1895-1972), criador e eterno diretor da Federal americana, teria se enforcado no banheiro de sua casa.

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