domingo, 9 de agosto de 2026

De Ed Morgan@edu para Marco Rubio, por Elio Gaspari

O Globo

Crises alimentadas pelo secretário de Estado americano prejudicam relação entre os dois países e levarão tempo para serem resolvidas

Estimado Secretário de Estado Marco Rubio:

Fui o embaixador mais duradouro dos Estados Unidos no Brasil, de 1912 a 1933. Acredite que nunca aprendi a falar português. Temos um ponto em comum, pois vivi três anos em Cuba e de lá eu trouxe o hábito de servir aos convidados uma mistura de suco de limão com aguardente, o daiquiri de lá, a batida daqui.

Sou um diplomata da velha escola, Harvard, colarinho duro e horror aos dias quentes do Rio. Eu vivia em Petrópolis e aqui estou sepultado.

Escrevo-lhe para ponderar que o senhor está armando tantas crises e ressentimentos nas relações com o Brasil que levaremos tempo para remendá-las. Revogar o visto da embaixadora foi uma criancice. Tomar o partido de um candidato à Presidência castra nossa influência em favor dos chineses.

Veja o meu caso. Cheguei aqui na Presidência do marechal Hermes da Fonseca e, até 1930, atravessei cinco governos daquela que os brasileiros chamam, erradamente, de República Velha. Em março de 1930 o paulista Júlio Prestes elegeu-se, derrotando Getulio Vargas. Acompanhei-o numa visita ao presidente Herbert Hoover. Ela correu tão bem que até na capa da revista Time ele saiu.

Deu-se uma revolução e Vargas foi para o Palácio do Catete. O presidente Washington Luís e Júlio Prestes viram-se exilados na Europa. Eu havia ficado longe da fogueira e continuei no posto por quase três anos. Não tive qualquer dificuldade com Vargas.

Naquele tempo eu achava que o Brasil deveria investir em transporte e comunicação. Infelizmente, nunca concordei com os métodos de Percival Farquhar, vice-rei da infraestrutura brasileira, mas suas empresas ofereciam serviços aos brasileiros.

O que temos hoje? Seu governo hostiliza o governo de Lula em torno de mixarias e tarifas leoninas, enquanto os chineses ocupam espaços nas comunicações, nos portos e nos transportes. Farquhar, com quem me reconciliei, contou-me que a China poderá comprar 20% da Rumo, passando a controlá-la. Trata-se da maior operadora de cargas ferroviárias do país, com 14 mil quilômetros de malha. Os carros elétricos chineses estão tomando o mercado brasileiro, suplantando montadoras americanas protegidas há 70 anos. A China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e avança nos investimentos, sem se meter com candidaturas.

Secretário Rubio, nós estamos rosnando por mixarias enquanto não fazemos nosso serviço. O presidente Trump, durante seu primeiro governo, passou a negar vistos aos parceiros de diplomatas homossexuais. Mesmo hoje, trava a carreira de nossos profissionais. Com semelhante postura, os presidentes Taft, Wilson e Harding não teriam me designado para o Brasil.

Em 1937, o presidente Franklin Roosevelt mandou para o Rio o meu grande colega Jefferson Caffery. Ele ficou aqui até 1944, se deu muito bem com Vargas e aparou as arestas com os generais germanófilos.

Encontrei outro dia numa festa o subsecretário de Estado Sumner Welles (1937-1943). Ele foi demitido porque saiu do armário num trem. Welles me contou que a intriga contra ele partiu do hétero William Bullittt, cuja mulher era lésbica.

Naquele tempo ficávamos no armário, mas o serviço diplomático fazia seu serviço, porque havia, e há, coisa séria a fazer.

Do seu humilde servidor

Edwin Vernon Morgan

Fantasias de marqueteiro

Pela ação de seus adversários internos e externos, Lula chega ao fim do seu mandato estranhado com os presidentes dos Estados Unidos e da Argentina. Ambos dizem o que lhes vêm à cabeça. Em 2023, quando voltou ao Planalto, seus áulicos viam-no numa caminhada em direção ao prêmio Nobel da Paz. Lá atrás, Lula achava que podia ajudar a acabar com a guerra da Ucrânia.

Argentina

Quem conhece o estilo de Javier Milei acredita que o presidente argentino passará de incendiário a socorrista depois da eleição de outubro.

Sinuca

Ao anunciar em público que pretende ter uma nova conversa com Donald Trump, Lula meteu-se numa encrenca típica da diplomacia de palanque.

Se a conversa acontecer depois da concessão de agrément a Daniel Perez, ficará a impressão de que cedeu. Se não acontecer depois, ele ficará como intransigente.

Dez anos da Olimpíada

Numa trapaça da História, o Rio de Janeiro está de novo no colo do ex-prefeito Eduardo Paes, dez anos depois do delírio da Olimpíada de 2016. Comentando a ruína do prometido “legado” dos jogos o atual prefeito, Eduardo Cavaliere, disse o seguinte:

“Poucas cidades no mundo conseguiram preservar e dar uso permanente ao legado de uma Olimpíada como o Rio”. Falso. Os jogos de Atenas (2004) e do Rio (2016) são exemplos do contrário. Já os de Londres (2012), Barcelona (1992) e Tóquio (1964) cabem na louvação de Cavaliere.

Londres botou uma parte da vila olímpica numa região parecida com a Baixada Fluminense, sem os tiros. Revitalizada, seu shopping center tornou-se um dos maiores da Europa, com três hotéis, 70 restaurantes e 300 lojas. Barcelona mudou de cara e voltou-se para o mar e a de Tóquio apresentou ao mundo o trem-bala. Ganha um fim de semana em Teerã quem viu coisa parecida no Rio.

Jogatina

Depois de ter escancarado a jogatina eletrônica para aumentar a arrecadação, Lula 3.0 cogita colocar um esparadrapo na ferida onde mais de 100 milhões de pessoas fazem apostas.

Uma portaria obrigará o cidadão a esperar cinco segundos entre uma aposta e outra. Ganha outro fim de semana em Teerã quem souber porque o intervalo entre uma aposta e outra não foi fixado em um minuto.

A fama de Marco Buzzi

Antes mesmo das denúncias de assédio sexual do ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça, sua fama entre os colegas não era a pior, mas era uma das piores. Sua degola mostrou que o pescoço de ministro de tribunal de Brasília não está livre da lâmina.

As frituras da Federal

O ministro André Mendonça entrou em curso de colisão com a Polícia Federal. Mau negócio. Deixando-se de lado frituras nacionais recentes e indo-se a um precedente americano, foi um ex-agente do FBI, a Federal americana, quem deu o empurrão que ajudou a fritar Richard Nixon em 1974, derrubando-o da Presidência dos Estados Unidos.

A Casa Branca tentou grampear a sede do partido democrata em junho de 1972 e cinco aloprados foram presos. Em outubro, Nixon desconfiava que um agente do FBI estivesse alimentando a imprensa.

Bingo. Mark Felt, ex-vice-diretor do FBI, apelidado Garganta Profunda (título de um filme pornô da época), na redação do Washington Post, era uma de suas fontes. Era dele que Nixon desconfiava.

Hoover e a carta da PF

Se 27 superintendentes do FBI tivessem assinado uma carta sobre seja lá o que for, J. Edgar Hoover (1895-1972), criador e eterno diretor da Federal americana, teria se enforcado no banheiro de sua casa.

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