O Globo
O Brasil perde novamente a oportunidade de
discutir seu futuro por causa de candidatos que ameaçam com retrocesso e sombra
autoritária
Na eleição de 2022, o principal ponto era
enfrentar o golpismo de Jair Bolsonaro. Depois de tudo o que ficou comprovado
no julgamento da ação penal, o natural seria que agora o país estivesse
discutindo um projeto para o futuro. Contudo, a sombra do autoritarismo
continua presente. Um candidato é filho do ex-presidente que liderou a
tentativa de golpe. Entre os outros candidatos com menor expressão nas
pesquisas, Renan Santos e Romeu Zema querem
intervir no STF e defendem o modelo Nayib Bukele; Ronaldo
Caiado promete anistiar golpistas e fugiu da pergunta sobre se
houve ou não tentativa de golpe.
Na entrevista que concederam às jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, da Globonews, Renan Santos e Romeu Zema defenderam a adoção do caminho de El Salvador. No entanto, quando foram apresentados à lista de horrores praticados por Bukele — prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamento coletivo de centenas de réus, prisões baseadas em denúncia anônima — eles disseram não concordar. Ou seja, defendem o que sequer conhecem. Constrangedor.
O autoritarismo está presente não apenas nas
ideias políticas ou nas propostas de segurança. O candidato Renan Santos, o
mais jovem deles, foi confrontado com um vídeo do ano passado, em que ele,
dentro de um carro em movimento, dizia que é preciso restabelecer a autoridade
masculina. “O que a gente tem que fazer, é o que eu acho, é restabelecimento,
enquanto poder, de características profundamente masculinas na nossa
sociedade”. O interlocutor o interrompe e lembra que dirão que ele é machista.
E ele responde “sou, sou, sou, porque certas coisas tem que dar nomes aos
bois”. Tudo o que ele pôde dizer, na entrevista, a seu favor, foi que
discordava de algumas teses da pessoa com quem falava, “um influenciador
masculinista”. E tentou brincar. “O carro é alfa, não de macho alfa, mas Alfa
Romeo”. Outro vídeo, não mostrado, de 2017, traz Renan dizendo que estupraria
uma mulher se não entrasse em um bar. Ele tentou dar o contexto, disse que era
uma brincadeira, como se houvesse contexto que justifique falar em estupro e como
se fosse possível fazer piada sobre tal violência.
Ronaldo Caiado disse que retomará todo o
território ocupado por facções criminosas usando as Forças Armadas como
polícia. Afirmou que criará uma nova polícia com dez países que fazem divisa
com o Brasil, financiada por todos esses governos. Os policiais dessa força
transnacional poderiam transitar livremente pelas fronteiras. Mais do que
ideias controversas na área que ele diz entender bem, a da segurança, o que
espanta é a insistência em fugir da pergunta sobre se houve tentativa de golpe
em 8 de janeiro.
Flávio
Bolsonaro segue os mesmos passos do pai, parece que o golpismo
é hereditário. Fez reunião com embaixadores levantando dúvidas sobre a urna
eletrônica e o processo eleitoral. Falou na sexta-feira, em São Caetano do Sul,
que há “roubalheira na alta cúpula do Judiciário” e que por isso estariam sendo
feitas coisas “além da maldade” para impedir sua eleição. Justifica eventual
derrota, já inventando uma conspiração contra ele. Os mesmos métodos do pai.
O autoritarismo permanece presente nesta
campanha como esteve em 2022. Um atentado aos Três Poderes por milhares de
seguidores de Jair Bolsonaro, uma investigação detalhada que mostrou provas da
trama golpista que envolveu integrantes das Forças Armadas, o julgamento e a
prisão dos golpistas nada ensinaram a certos políticos. Lideranças da direita
que se apresentam como não bolsonarista entregam candidatos ao país que repetem
o mesmo discurso diversionista, a mesma atitude tóxica que nos levou a quase
perder a democracia. Alguns ainda exibem outro lado do autoritarismo, o que
quer se impor sobre as mulheres.
Era para o país estar discutindo o futuro, a
superação de impasses e obstáculos, os dilemas do ajuste fiscal, a proteção
contra a mudança climática, a aceleração da aprendizagem, as receitas para
melhorar o SUS, a redução das desigualdades, fórmulas para enfrentar os
desafios tecnológicos, mas os homens que se oferecem como alternativa ao
presidente Lula alimentam
a sombra autoritária que sempre ameaçou a República brasileira. O futuro fica
adiado.

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