segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O que será do PT após Lula? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Lista de candidatos dá ideia de como será a luta por poder durante a sucessão

Um quadro do antigo programa TV Pirata, humorístico da Rede Globo que fez sucesso no final dos anos 1980, apareceu no meu feed do Instagram nesta semana. Nele, o ator Marco Nanini, interpretando um líder político extremista, comanda o horário eleitoral do fictício Partido Radical Brasileiro (PRB). Após anunciar que sua legenda estava aderindo ao governo, ele é imediatamente interrompido por Ney Latorraca, que denuncia que aquilo seria uma traição aos ideais da agremiação e, por isso, declara fundado o Partido Ultra Radical Brasileiro (PURB).

Inicia-se então uma sucessão de invasões ao palco do programa, com diferentes lideranças do agora antigo PRB (os maravilhosos Diogo Vilela, Luiz Fernando Guimarães, Debora Bloch e Regina Casé) proclamando-se os legítimos representantes dos interesses dos eleitores e, por isso, criando cada qual a sua nova dissidência: o Partido Ultra Radical Conservador Brasileiro (PURCB), o Conservador Cristão Brasileiro (PURCCB), o Conservador Cristão Feminista Brasileiro (PURCCFB) e até o PURCCFB do B.

Em meio a uma pancadaria generalizada, o programa eleitoral se encerra com o ator Guilherme Karan, vestido de homem-bomba, anunciando o surgimento do PURCCFB do B Facção Suicida, que explode a si mesmo e a todos os seus antigos correligionários em plena cadeia nacional de rádio e TV.

Por coincidência, oportunismo de algum arguto observador da política brasileira ou simplesmente por força dos algoritmos, esse esquete da TV Pirata circulou justamente na semana em que Lula tocou publicamente no delicado tema da sua própria sucessão. Na convenção que ratificou seu nome na urna para a sétima eleição presidencial, Lula apontou Fernando Haddad como seu eventual herdeiro (“depois de comandar São Paulo por oito anos”), embora rapidamente tenha se corrigido para dizer que seu lugar poderia ser ocupado por um político “do Piauí, do Ceará ou da Bahia”, para não desagradar os governadores desses Estados presentes no evento.

Mesmo que, na tentativa de se mostrar física e mentalmente capaz de conduzir o país por mais quatro anos, o líder petista repita que espera viver 120 anos, ele sabe que esta é a sua última eleição. Em breve, os rumos do Partido dos Trabalhadores serão definidos sem a sufocante onipresença de seu maior símbolo.

Depois de quase quatro décadas liderando a esquerda brasileira (após derrotar Leonel Brizola em 1989), com o PT governando o país por dezessete anos até agora, chama a atenção como Lula não conseguiu preparar uma nova geração de líderes capaz de conduzir o PT com vigor daqui para a frente.

Isso fica evidente na lista apresentada para concorrer a cargos majoritários neste ano. Dos 81 postos em disputa, o PT apresentou nomes para apenas 30, sendo 12 para governador e 18 para senador. Em termos regionais, há diversos vazios geográficos: em seis Estados (Alagoas, Paraíba, Roraima, Pará, Amazonas e Mato Grosso) o PT só terá candidatos para deputado estadual e federal, sinal de que não conseguiu se consolidar como uma legenda verdadeiramente nacional mesmo após anos no poder.

Do ponto de vista etário, a nominata dá pistas sobre onde se dará o embate para liderar o partido num próximo futuro pós-Lula.

Entre os trinta candidatos petistas, cinco pertencem à mesma geração de Lula e dificilmente tomarão para si essa responsabilidade. É o caso de Patrus Ananias (MG, 74 anos), Jaques Wagner (BA, 75) e Benedita da Silva (RJ, 84).

Também entre os mais jovens não aparece nenhum petista com perspectiva de ascensão meteórica. Dos seis candidatos com menos de 50 anos, em meio a opções sem grande experiência política, desponta apenas o governador do Piauí, Rafael Fonteles (41 anos), que busca a reeleição. É um exemplo importante de renovação, mas está mais para exceção que confirma a regra num partido criticado por não ter investido na formação de novos quadros.

É na faixa entre 50 e 70 anos que se trava a luta nem tão silenciosa pelo controle do PT pós-Lula. Ainda que Fernando Haddad (SP, 63 anos) seja mesmo o escolhido por Lula para substituí-lo no próximo pleito presidencial, o comando do partido permanece nas mãos de Gleisi Hoffmann (PR, 60).

Representantes do PT tradicional, que nasceu e se desenvolveu nos grandes centros urbanos do Sudeste e do Sul, Haddad e Gleisi precisarão compor ou enfrentar seus colegas do Nordeste - região que se tornou o principal sustentáculo do partido em votos e representação legislativa. Entre os cabeças do PT nordestino, Rui Costa (BA, 63 anos) desponta com grande força política, embora Camilo Santana (CE, 58 anos) possa lhe fazer sombra.

As pesquisas eleitorais até o momento indicam que o PT terá dificuldades em ampliar a quantidade de cadeiras no Senado e de governos estaduais que conquistou em 2022 (nove e quatro, respectivamente).

A disputa que mais interessa para o partido, no entanto, é para definir quem terá mais cacife para controlar o partido e evitar que ele imploda quando Lula encerrar sua longa e dominante carreira.

 

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