Valor Econômico
Lista de candidatos dá ideia de como será a luta por poder durante a sucessão
Um quadro do antigo programa TV Pirata, humorístico da Rede Globo que fez sucesso no final dos anos 1980, apareceu no meu feed do Instagram nesta semana. Nele, o ator Marco Nanini, interpretando um líder político extremista, comanda o horário eleitoral do fictício Partido Radical Brasileiro (PRB). Após anunciar que sua legenda estava aderindo ao governo, ele é imediatamente interrompido por Ney Latorraca, que denuncia que aquilo seria uma traição aos ideais da agremiação e, por isso, declara fundado o Partido Ultra Radical Brasileiro (PURB).
Inicia-se então uma sucessão de invasões ao
palco do programa, com diferentes lideranças do agora antigo PRB (os
maravilhosos Diogo Vilela, Luiz Fernando Guimarães, Debora Bloch e Regina Casé)
proclamando-se os legítimos representantes dos interesses dos eleitores e, por
isso, criando cada qual a sua nova dissidência: o Partido Ultra Radical
Conservador Brasileiro (PURCB), o Conservador Cristão Brasileiro (PURCCB), o
Conservador Cristão Feminista Brasileiro (PURCCFB) e até o PURCCFB do B.
Em meio a uma pancadaria generalizada, o
programa eleitoral se encerra com o ator Guilherme Karan, vestido de
homem-bomba, anunciando o surgimento do PURCCFB do B Facção Suicida, que
explode a si mesmo e a todos os seus antigos correligionários em plena cadeia
nacional de rádio e TV.
Por coincidência, oportunismo de algum arguto
observador da política brasileira ou simplesmente por força dos algoritmos,
esse esquete da TV Pirata circulou justamente na semana em que Lula tocou
publicamente no delicado tema da sua própria sucessão. Na convenção que
ratificou seu nome na urna para a sétima eleição presidencial, Lula apontou
Fernando Haddad como seu eventual herdeiro (“depois de comandar São Paulo por
oito anos”), embora rapidamente tenha se corrigido para dizer que seu lugar
poderia ser ocupado por um político “do Piauí, do Ceará ou da Bahia”, para não
desagradar os governadores desses Estados presentes no evento.
Mesmo que, na tentativa de se mostrar física
e mentalmente capaz de conduzir o país por mais quatro anos, o líder petista
repita que espera viver 120 anos, ele sabe que esta é a sua última eleição. Em
breve, os rumos do Partido dos Trabalhadores serão definidos sem a sufocante
onipresença de seu maior símbolo.
Depois de quase quatro décadas liderando a
esquerda brasileira (após derrotar Leonel Brizola em 1989), com o PT governando
o país por dezessete anos até agora, chama a atenção como Lula não conseguiu
preparar uma nova geração de líderes capaz de conduzir o PT com vigor daqui
para a frente.
Isso fica evidente na lista apresentada para
concorrer a cargos majoritários neste ano. Dos 81 postos em disputa, o PT
apresentou nomes para apenas 30, sendo 12 para governador e 18 para senador. Em
termos regionais, há diversos vazios geográficos: em seis Estados (Alagoas,
Paraíba, Roraima, Pará, Amazonas e Mato Grosso) o PT só terá candidatos para
deputado estadual e federal, sinal de que não conseguiu se consolidar como uma
legenda verdadeiramente nacional mesmo após anos no poder.
Do ponto de vista etário, a nominata dá
pistas sobre onde se dará o embate para liderar o partido num próximo futuro
pós-Lula.
Entre os trinta candidatos petistas, cinco
pertencem à mesma geração de Lula e dificilmente tomarão para si essa
responsabilidade. É o caso de Patrus Ananias (MG, 74 anos), Jaques Wagner (BA,
75) e Benedita da Silva (RJ, 84).
Também entre os mais jovens não aparece
nenhum petista com perspectiva de ascensão meteórica. Dos seis candidatos com
menos de 50 anos, em meio a opções sem grande experiência política, desponta
apenas o governador do Piauí, Rafael Fonteles (41 anos), que busca a reeleição.
É um exemplo importante de renovação, mas está mais para exceção que confirma a
regra num partido criticado por não ter investido na formação de novos quadros.
É na faixa entre 50 e 70 anos que se trava a
luta nem tão silenciosa pelo controle do PT pós-Lula. Ainda que Fernando Haddad
(SP, 63 anos) seja mesmo o escolhido por Lula para substituí-lo no próximo
pleito presidencial, o comando do partido permanece nas mãos de Gleisi Hoffmann
(PR, 60).
Representantes do PT tradicional, que nasceu
e se desenvolveu nos grandes centros urbanos do Sudeste e do Sul, Haddad e
Gleisi precisarão compor ou enfrentar seus colegas do Nordeste - região que se
tornou o principal sustentáculo do partido em votos e representação
legislativa. Entre os cabeças do PT nordestino, Rui Costa (BA, 63 anos)
desponta com grande força política, embora Camilo Santana (CE, 58 anos) possa
lhe fazer sombra.
As pesquisas eleitorais até o momento indicam
que o PT terá dificuldades em ampliar a quantidade de cadeiras no Senado e de
governos estaduais que conquistou em 2022 (nove e quatro, respectivamente).
A disputa que mais interessa para o partido,
no entanto, é para definir quem terá mais cacife para controlar o partido e
evitar que ele imploda quando Lula encerrar sua longa e dominante carreira.

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