Suspeitas justificam investigar filho e ex-assessor de Lula
Por O Globo
Acusações contra Lulinha e ex-chefe de
gabinete de presidente não podem ser atribuídas a motivação eleitoral
É preciso esclarecer a fundo as suspeitas de tráfico de influência e corrupção que rondam o Palácio do Planalto. Elas envolvem personagens como o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o ex-chefe de gabinete da Presidência Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que deixou o governo para atuar na coordenação da campanha à reeleição de Lula, depois se viu constrangido a deixar a própria campanha diante das denúncias.
Lulinha é alvo de três inquéritos,
autorizados pelo Supremo Tribunal Federal para apurar se ele favoreceu
empresários interessados em negócios com órgãos públicos e se atuou em
benefício próprio. Marco Aurélio é investigado por ter recebido dinheiro de Roberta
Luchsinger, amiga de Lulinha e parceira de Antônio Carlos Camilo Antunes, o
Careca do INSS, apontado como chefe do esquema bilionário de fraudes que lesou
aposentados. Embora os acusados neguem as acusações e apontem motivação
política nas denúncias, são suspeitas graves demais para ser desprezadas.
Por mais que Lula queira se distanciar dos
escândalos, as novas revelações o constrangem às vésperas da campanha
eleitoral. Por envolverem figuras extremamente próximas a ele, demandam
explicações rápidas e convincentes. As acusações contra Marco Aurélio agravam a
crise instalada pelas investigações contra Lulinha, alvo de dois inquéritos
autorizados pelo ministro André
Mendonça e de um terceiro avalizado pelo ministro Flávio Dino.
Marco Aurélio confirmou ter recebido o dinheiro de Roberta, como revelou o
colunista Lauro Jardim, do GLOBO. Alega ter sido um empréstimo pessoal e afirma
ter devolvido R$ 249 mil a ela por meio de transferência bancária. As
transações de Roberta estão no radar de várias investigações da Polícia
Federal (PF) decorrentes das fraudes no INSS.
As investigações tentam esclarecer se Lulinha
se aproveitava da proximidade com o poder para abrir as portas do Ministério da
Saúde, da Dataprev e de outros órgãos públicos a empresários e lobistas como
Antunes, preso pelas fraudes no INSS. Ele é apontado como interessado em firmar
contratos com o governo para fornecer Cannabis medicinal ao SUS. De acordo com
a PF, pagou viagem de Lulinha a Portugal para visitar uma fábrica de
medicamentos. Roberta reconheceu ter apresentado Lulinha a Antunes e foi
diversas vezes ao Palácio do Planalto, por vezes para encontros que não ficaram
registrados em nenhuma agenda.
Lula tem repetido que não protegerá o filho e
que as investigações demonstram a autonomia da PF. Mas é indisfarçável o
mal-estar no entorno do presidente. É natural que aliados acusem objetivos
políticos nas investigações. Mas os petistas fazem o mesmo quando escândalos
abalam seus oponentes. Apurações da PF e decisões da Justiça não podem ficar
condicionadas ao calendário eleitoral, especialmente quando tratam de suspeitas
graves de tráfico de influência e corrupção dentro do governo. É preciso
investigar. Se ficar comprovado algum crime, os responsáveis terão de responder
de acordo com a letra da lei, independentemente de sobrenome ou relação
política.
Escalada diplomática entre Brasil e Estados
Unidos é preocupante
Por O Globo
Trump tenta mais uma vez favorecer seus
aliados ideológicos — e Lula não se esforça para baixar temperatura
O cancelamento do visto da embaixadora
brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, é o episódio mais recente na
preocupante escalada diplomática entre Brasil e Estados
Unidos. A justificativa alegada pela Casa Branca foi a demora do
Itamaraty em aprovar o político republicano Daniel Perez, da Flórida, para o
cargo de embaixador em Brasília, vago desde o início do atual governo Donald Trump.
O nome de Perez foi submetido ao Senado americano sem que, como é praxe, o
governo brasileiro tivesse dado seu aval — ou, no jargão diplomático, concedido
agrément. É verdade que o Brasil poderia ter sido mais ágil para cumprir a
formalidade, mas isso não justifica a reação americana. O próprio Departamento
de Estado por vezes leva mais de dois meses para dar sinal positivo a um
embaixador.
Desde o tarifaço de julho do ano passado,
Trump não tem se furtado a usar armas diplomáticas para tentar influir na
política interna brasileira e favorecer seus aliados ideológicos. Na ocasião, o
pretexto para impor ao Brasil as maiores tarifas do planeta foi o processo em
curso contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Menos de um mês depois, o governo
americano decretou sanções duríssimas contra autoridades brasileiras com base
na Lei Magnitsky e impôs restrições à comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva na Assembleia Geral da ONU.
Em seguida, depois de encontro na ONU, Trump
e Lula ensaiaram um entendimento. A Casa Branca passou a ver no Brasil uma
resposta para a dependência americana de terras-raras chinesas. As negociações,
porém, não tiveram o fim esperado, porque o governo brasileiro se negou a dar o
tratamento preferencial almejado pelos americanos. A relação com Lula azedou —
e Trump voltou à carga. Recebeu o senador Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo
no Salão Oval, o governo americano classificou como terroristas as facções
criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), e há
poucas semanas baixou um segundo tarifaço sob pretextos descabidos. Até agora,
não houve acordo nem recuo.
Ciente do benefício eleitoral do confronto
com Trump, Lula não tem feito esforços para baixar a temperatura. Em março,
cancelou o visto de Darren Beattie, conselheiro do Departamento de Estado para
políticas relacionadas ao Brasil que planejava visitar Bolsonaro. Em julho,
negou vistos a uma delegação americana que tinha intenção de visitar o Brasil,
sob o argumento de que o objetivo era contestar a integridade do sistema
eleitoral.
Sob Donald Trump, os Estados Unidos deixaram de lado os ritos da diplomacia e passaram a agir apenas com base em preferências ideológicas. O confronto não faz bem a ninguém. Não é do interesse nacional a escalada da crise entre os dois países. Brasil e Estados Unidos são democracias vibrantes, com laços históricos sólidos e enorme potencial para estreitar relações. Passada a eleição, o vencedor, seja quem for, terá de buscar a acomodação.
Interesse do Brasil sai derrotado na tensão
diplomática
Por Folha de S. Paulo
Lula ganha pontos quando Trump e Milei o
atacam e é incentivado a manter-se no jogo das provocações
Não faz sentido o Itamaraty negar visto a
assessores do Departamento de Estado; se eles atacassem as urnas, bastaria
refutá-los com fatos
Diz-se que na guerra a primeira vítima é a
verdade. Na tensão diplomática com os governos dos Estados
Unidos e da Argentina,
sai perdendo o interesse do Brasil.
A agenda eleitoral incentiva o presidente
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
a desafiar a Casa Branca e a Casa Rosada, pois ele tende a ser favorecido na
disputa pelo quarto mandato ao explorar o tema da "soberania
nacional" diante do assédio de aliados estrangeiros de seu principal
adversário, Flávio
Bolsonaro (PL).
A estultice e a péssima assessoria de Donald Trump o
empurram na direção
ansiada pelo mandatário brasileiro. A novidade é que um esbirro do
trumpismo na América do
Sul, Javier Milei,
juntou-se à fanfarronice. Lula, que já tinha o cabo eleitoral mais poderoso do
planeta atuando a seu favor, ganhou de bônus um
ventríloquo apatetado argentino.
EUA e Argentina ocupam, respectivamente, o
segundo e o terceiro lugares nas relações comerciais do Brasil. A soma de
transações de compra e venda com esses dois países representa quase 20% da
corrente de comércio. O intercâmbio com EUA e Argentina soma cerca de US$ 110
bilhões anuais, uma cadeia de valor e empregos importante demais para ser
tratada com leviandade.
O interesse público brasileiro é preservar a
relação comercial e diplomática secular e pacífica com as duas nações, para a
qual Trump e Milei representam ruído episódico. O primeiro, a pouco mais de
dois anos da porta da rua, não pode ser reeleito e não deixará herdeiros nem
saudades na sociedade dos EUA, assolada pela inflação e pela insegurança
causadas por suas histrionices de ditador de república de bananas.
Diante desse quadro, não faz sentido a
atitude ginasiana do Itamaraty de negar visto a dois assessores do Departamento
de Estado que viriam ao Brasil no fim de julho supostamente numa missão para
detratar as urnas eletrônicas brasileiras. Qual seria o problema se os dois
gringos baixassem aqui e repetissem as parvoíces do bolsonarismo sobre o
sistema de votação? Seriam imediatamente rebatidos com fatos e ponto final.
Como disse o presidente do Tribunal Superior
Eleitoral, Kassio Nunes
Marques, a urna eletrônica é um patrimônio da democracia brasileira,
e o melhor modo de defendê-lo é expor à luz do sol todas as suas
características técnicas e responder com transparência às indagações que
surjam. Calar emissários das teorias da conspiração só fará disseminar a farsa
de que o TSE tem
algo a esconder sobre o tema.
A negativa aos enviados de Trump, porém,
encaixa-se muito bem na lógica eleitoral do candidato petista à reeleição. Ela
provocou o departamento comandado por Marco Rubio,
o boçal que posa de vice-rei da América
Latina, a reagir duas oitavas acima e cancelar o
visto da embaixadora brasileira em Washington.
Ganha o candidato Lula, mas perde a
Presidência da República do Brasil.
Greve sem boa causa chega ao fim
Por Folha de S. Paulo
Reivindicações descabidas na paralisação que
atingiu três linhas da CPTM incluíram até reestatização
Privatizações e concessões são necessárias,
num país cheio de carências e com governos sob pressão orçamentária que
dificulta investimentos
Nesta quarta (5), os ferroviários da
Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) encerraram a
greve nas linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade,
que passaram a ser administradas pela empresa Trivia Trens no final de julho.
Por interferir em outros direitos, como o de
ir e vir, a prerrogativa à greve deveria
ser bem justificada. Mas as reivindicações da categoria refletem corporativismo
e tentativa de interferir em competências do Executivo.
A principal exigência era a manutenção dos
empregos de todos os trabalhadores, mesmo com a concessão à iniciativa privada.
Os funcionários da CPTM são empregados
públicos, mas com contratos regidos pela CLT. Assim, não possuem a estabilidade
dos estatutários —que, a propósito, é exagerada no Brasil.
Ademais, empresas privadas têm liberdade para
seguir necessidades administrativas, o que pode envolver corte de gastos ou
remanejamento de profissionais.
Mesmo assim, o contrato de concessão prevê a
utilização de empregados da CPTM nas linhas durante pelo menos os primeiros 18
meses da transição.
Os trabalhadores também podem ser absorvidos
em outros órgãos e áreas da CPTM.
Segundo o governador Tarcísio de
Freitas (Republicanos),
há uma realocação de profissionais em curso e a gestão estadual já havia
garantido a manutenção dos empregos durante negociações com a categoria.
Ao encerrar a greve, o sindicato acatou a
proposta do governo paulista —apresentada em reunião de conciliação mediada
pela Justiça do Trabalho— de enviar à
Assembleia Legislativa um projeto de lei que prevê a
permanência dos postos dos trabalhadores nas três vias paralisadas e na linha
10-turquesa.
No início da paralisação, o sindicato não
cumpriu a liminar do Tribunal Regional do Trabalho que determinou que os
grevistas mantivessem 80% do efetivo nos horários de pico e 60% nos demais
períodos. A Justiça aceitou cancelar multas de R$ 400 mil aplicadas pelos dois
dias de greve caso a proposta fosse aprovada.
Os ferroviários também chegaram a reivindicar
reestatização.
Mas privatizações e concessões, assim como
parcerias público-privadas, são medidas do Executivo necessárias, num país
cheio de carências e com governos sob pressão orçamentária que dificulta
investimento.
Se há questões em relação aos contratos ou à fiscalização, elas devem ser tratadas por meio dos órgãos competentes, não como artifício que perturba o transporte público paulistano.
Antidiplomacia de Trump requer pragmatismo
Por O Estado de S. Paulo
Ação contra embaixadora do Brasil despreza
manuais diplomáticos, razão pela qual cabe ao Itamaraty atuar com inteligência
– sem se contaminar pela campanha eleitoral de Lula
A antidiplomacia do presidente dos EUA,
Donald Trump, em relação ao Brasil atingiu um dos seus pontos mais baixos com a
revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro
Viotti. Foi uma gravíssima afronta, resultado da alegada demora do Brasil em
conceder o consentimento (agrément)
para a nomeação do novo embaixador dos EUA no País, Daniel Perez. Ressalte-se
que, a despeito dessa demora, foram os EUA que, em primeiro lugar, haviam
atropelado os ritos ao anunciar o nome de Perez sem antes consultar formalmente
o Brasil. Nenhuma surpresa: há muito tempo se sabe que o governo americano, sob
Trump, rasgou os manuais de relações internacionais. Por isso mesmo, cabe ao
Itamaraty atuar pragmaticamente conforme essa realidade – e não segundo os
interesses eleitorais e as taras ideológicas do governo de Lula.
O caso do agrément não explica, sozinho, tamanha escalada.
Perez pertence ao círculo político do chefe do Departamento de Estado
americano, Marco Rubio, que vem tratando o Brasil por uma lente ideológica,
próxima do bolsonarismo e coerente com a tentativa de reafirmar a primazia
americana no hemisfério. A eleição brasileira integra esse ambiente. Seria
simplista, porém, imaginar uma política americana inteiramente coordenada. O
Tesouro, o Representante de Comércio, o Pentágono e a Casa Branca obedecem a
lógicas distintas. A atual ofensiva nasce sobretudo do braço mais politizado do
governo Trump.
O Brasil tinha razões legítimas para
resistir. Ter razão, contudo, não produz uma estratégia. Brasília deixou vazar
que manteria o agrément de
Perez congelado até depois das eleições, transformando um procedimento
reservado em gesto político. A retaliação era previsível.
A ofensiva de Trump oferece a Lula uma
vantagem eleitoral evidente. Permite associar a família Bolsonaro às punições
externas e reorganizar o debate eleitoral sob a narrativa de um Brasil sitiado
pela direita continental. Esse dividendo ajuda a explicar por que o governo tem
pouco incentivo para desarmar rapidamente o impasse.
Lula, porém, continua sendo presidente da
República. A diplomacia não pertence à campanha eleitoral. A resposta ao gesto
americano, no entanto, saiu da Secretaria de Comunicação da Presidência, e não
do Itamaraty, um detalhe que revela a inversão em curso: a diplomacia
profissional se subordina à narrativa política e ideológica do Planalto. Sob
governos petistas, essa tendência é conhecida. Diante da antidiplomacia
trumpista, seus custos são maiores.
A função da política externa é administrar
relações difíceis. Países não precisam confiar uns nos outros para manter
canais; precisam deles justamente quando a confiança desaparece. O Brasil
deveria retirar o agrément do
calendário eleitoral, reabrir conversas reservadas com o Departamento de Estado
dos EUA e devolver ao Itamaraty a condução do impasse. Isso não exige aceitar
Daniel Perez sob ultimato. Exige negociar condições e construir uma saída capaz
de preservar a soberania brasileira sem transformar o congelamento da relação
em símbolo de “resistência”.
Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington,
resumiu o déficit atual: “O que está faltando hoje são canais de comunicação,
apesar das diferenças ideológicas”. A observação vale também para os
americanos. Trump e Rubio converteram instrumentos diplomáticos em armas
políticas, e Lula, em ativos eleitorais. Mas ao Brasil cabe evitar que a
resposta copie o método que condena.
A crise provavelmente arrefecerá depois das
eleições de outubro. Mesmo que Lula seja reeleito, ele e Donald Trump já
alternaram hostilidade e cordialidade, e os interesses comerciais, militares,
científicos e estratégicos entre os dois países são maiores que seus governos.
Ainda assim, relações duradouras também acumulam cicatrizes. Confiança perdida
e oportunidades deslocadas a outros parceiros não retornam por decreto.
Campanhas eleitorais duram meses. A responsabilidade de um chefe de Estado deve
alcançar as décadas seguintes.
Energia barata e conta cara
Por O Estado de S. Paulo
Estudo do CLP mostra que a conta de luz dos
brasileiros poderia ficar até 32% mais barata se o País promovesse uma reforma
estrutural do setor elétrico, limando subsídios e jabutis
A conta de luz dos brasileiros poderia ficar
até 32% mais barata se o País promovesse uma reforma estrutural do setor
elétrico. A estimativa do Centro de Liderança Pública (CLP), que calculou o
peso de itens que não apenas encarecem as tarifas do consumidor, mas,
sobretudo, reduzem a atratividade dos investimentos e a produtividade da
economia, como os subsídios e os jabutis – emendas estranhas que deputados e
senadores penduram em projetos de lei e medidas provisórias.
O tema é bastante atual, haja vista que a
Comissão de Serviços de Infraestrutura aprovou, há menos de um mês, uma
proposta que resgatou jabutis que já haviam sido rejeitados em ocasiões
anteriores para construção de termoelétricas em locais onde não há reservas de
gás, gasodutos ou necessidade de consumo. A medida, por óbvio, visa a favorecer
grupos de interesse, e, se avançar, terá seu custo repassado pelos
parlamentares a todos os consumidores do País, uma legítima cortesia com o
chapéu alheio que simplesmente ignora critérios de eficiência econômica e
competição.
Antes fosse um caso raro. Basta acompanhar as
propostas em tramitação na Câmara e no Senado para perceber que essa prática
perniciosa – emendas que surgem de última hora em meio a votações-relâmpago,
sem que seus impactos sejam considerados – se tornou padrão nos últimos anos.
Repassar os custos dessas medidas à conta de luz virou a alternativa para
driblar as restrições do Orçamento, cujos recursos estão sujeitos a bloqueios
e, bem ou mal, são mais transparentes e rastreáveis que os da Conta de
Desenvolvimento Energético (CDE), fundo setorial que repassa o dinheiro
arrecadado por meio das tarifas aos beneficiários – somente neste ano estão
previstos R$ 52,7 bilhões.
“Em outras palavras: a lei virou veículo para
empilhar decisões de planejamento que, em tese, deveriam ser tomadas pela
combinação de Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Operador Nacional do
Sistema Elétrico (ONS), Ministério de Minas e Energia (MME), Agência Nacional
de Energia Elétrica (Aneel) e leilões competitivos”, diz o estudo do CLP, que
também cita, como exemplo dessas iniciativas que atropelam os órgãos do setor
elétrico, a lei que permitiu a privatização da Eletrobras e a que criou o marco
das eólicas em alto-mar (offshore).
O governo Lula, por sua vez, não fica atrás
do Congresso. O leilão de reserva de capacidade realizado em março talvez tenha
atingido o estado da arte desse tipo de conduta, mas há muitos outros exemplos
a comprovar o uso deliberado da conta de luz como um instrumento de política
pública para fins questionáveis, quando não indefensáveis. O consumidor não
deve ter dúvidas: não há um único subsídio ou um desconto tarifário que não
encareça as contas de luz dos demais.
O resultado é uma legislação e uma regulação
completamente disfuncionais, que, juntamente com problemas como logística cara,
tributação complexa e baixa produtividade, explicam como o País conseguiu a
façanha de ter uma geração de energia relativamente barata e uma conta de luz
tão cara. No ranking de 138 países elencados pelo CLP, há 77 com tarifas
residenciais mais baixas que a brasileira, entre eles economias em
desenvolvimento como México e Índia, e nações como a Coreia do Sul. “O efeito
não se limita à conta doméstica: a tarifa torna-se uma variável de política
industrial às avessas”, diz o estudo.
Para o Ministério de Minas e Energia, a
reforma tributária sobre o consumo e o teto para o crescimento das despesas dos
subsídios, aprovado por lei e válido a partir de 2027, ajudarão a atenuar as
contas de luz. Ora, um alívio não basta: o País precisa de uma reforma
estrutural que reveja todos esses privilégios.
O Brasil, diferentemente da maioria dos
países, tem uma matriz energética majoritariamente limpa, uma vantagem
competitiva que deveria aproveitar para conquistar investimentos e mercados e
promover sua reindustrialização, e não para sustentar grupos de interesse cujo
único atributo é manter uma relação de lucrativa proximidade com integrantes do
Congresso e membros do Executivo.
Uma greve irresponsável
Por O Estado de S. Paulo
Paralisação oportunista mostra que trens
devem seguir seu caminho: o da privatização
Os ferroviários de São Paulo acabaram de
deflagrar uma greve eminentemente política. A principal reivindicação da
categoria não é a melhoria de suas condições de trabalho nem da qualidade do
serviço público prestado à população paulista, mas sim a reestatização da
operação das Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade.
Não faz muito tempo, o governo Tarcísio de
Freitas, acertadamente, concedeu as linhas à iniciativa privada. Mas os
primeiros dias de gestão da Trivia Trens foram marcados por uma série de
problemas, como atrasos, falhas na circulação e até mesmo um incêndio num trem
lotado no horário de pico da manhã, o que causou pânico nos usuários.
Com os incidentes, as linhas que atendem a
quase 800 mil passageiros por dia na zona leste da capital paulista e em
municípios como Guarulhos, Suzano e Mogi das Cruzes foram devolvidas
temporariamente à Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O que era
para ser uma solução provisória a fim de garantir o transporte público a
trabalhadores e estudantes virou um problema ainda maior.
Os sindicalistas resolveram aproveitar a
oportunidade e transformar a retomada da operação pela empresa estatal num
instrumento de chantagem. Fazendo os passageiros de reféns de seus objetivos
políticos, os líderes paredistas colocaram uma faca no pescoço do poder público
e dos cidadãos. Convocaram uma assembleia para dar início a uma paralisação com
o objetivo de pressionar o governo a rever sua decisão política de desestatizar
as linhas de trem – decisão esta que o eleitor paulista chancelou nas urnas, ao
eleger como governador o candidato que prometera a privatização.
Tarcísio de Freitas afirmou que sempre esteve
aberto ao diálogo e lembrou que houve negociações e foram dadas garantias de
manutenção de emprego, mas declarou que “a aposta na baderna e na paralisia dos
serviços não vai intimidar o governo”. É o que se esperava.
Já os grevistas fizeram o que se espera de
gente irresponsável: além de explorarem o sofrimento dos passageiros para
emparedar o Executivo, eles também desrespeitaram uma ordem do Tribunal
Regional do Trabalho da 2.ª Região (TRT-2) que determinava o funcionamento de
80% da frota nos horários de pico e de 60% no restante do dia. A greve,
portanto, foi abusiva.
E os abusos foram muitos. Como pretendiam os
ferroviários, a greve provocou o caos. O que se viu na terça e na quarta-feira
foram filas intermináveis no metrô e nos pontos de ônibus, cidadãos
desnorteados em busca de uma alternativa para poder exercer seu direito de ir e
vir e vias travadas com congestionamento acima de 700 quilômetros.
O caso todo só reforça a importância das privatizações. No curto espaço de tempo em que a administração das linhas de trem voltou para o Estado, em razão de problemas com a concessionária, o serviço ficou à mercê do oportunismo dos sindicalistas. A questão toda é muito simples: se o desempenho da concessionária é ruim, basta trocar de concessionária; se o desempenho do Estado é ruim, não há o que fazer.
BC reduz juro a 14% e não sinaliza próximos
passos
Por Valor Econômico
Os analistas privados preveem ao menos mais um corte de juros até o fim do ano, com a taxa Selic estacionando em 13,75%
Houve progresso importante na frente
inflacionária, e o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC)
decidiu ontem reduzir os juros básicos em 0,25 ponto percentual, para 14% ao
ano. Não houve sinalização dos próximos passos, se continuidade ou pausa no
ciclo de redução das taxas. A janela para o corte da Selic foi propiciada pela
“moderação gradual da atividade econômica”, ante sua “aceleração” anterior; a
“inflação cheia desacelerou”, sem ainda deixar de superar o teto da meta; e as
“medidas subjacentes desaceleraram” para um nível ligeiramente abaixo dos 4,5%.
O Copom voltou a pregar cautela na condução
da política monetária, pois as expectativas do mercado expressas no boletim
Focus ainda mostram inflação se distanciando da meta em 2027 e 2028. O BC
ratificou sua projeção de que, no horizonte relevante da política monetária, o
primeiro trimestre de 2028, o IPCA será de 3,2%. Ao mesmo tempo em que registra
que “os indicadores correntes de atividade mantêm-se consistentes com uma
trajetória de desaceleração no acumulado de 2026”, aponta que “monitora com
atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais
longos”.
A economia deu sinais de esfriamento depois
da reunião do Copom de junho. As altas taxas de juros estão desacelerando as
atividades em câmera lenta, com uma força muito menor do que deveriam, pois a
economia está sendo refreada por fartos estímulos fiscais e parafiscais, a
maior parte deles com finalidades eleitorais. E, assim, as pessoas e empresas
continuam sofrendo com os juros altíssimos por longo período.
A economia deve reduzir mais seu ritmo no
segundo semestre e no ano que vem, como mostram as previsões constantes do
Focus. Enquanto as previsões para o PIB de 2026 subiram ao longo do primeiro
semestre para estacionar há quatro semanas em 1,99%, as de 2027 recuaram no
período de 1,69% para 1,57%. Até o fim do ano, o crescimento deixará de
ultrapassar seu potencial, o que dificulta o declínio da inflação, e começará a
trabalhar com alguma ociosidade.
A partir de maio, praticamente todos os
indicadores econômicos apontaram para baixo, ainda que não com muita
intensidade. O desempenho da indústria em junho foi o pior desde 2014, com
queda de 1,8%. Dezesseis dos 25 setores reduziram produção, com a pior
performance cabendo aos bens duráveis, com recuo de 3,2%, e de 1,1% nos bens
intermediários, que compõem metade da atividade manufatureira. No segundo
trimestre, a indústria geral avançou apenas 0,3%, ante alta de 1,5% nos três
primeiros meses do ano.
As vendas do varejo desaceleraram a partir de
abril. O comércio restrito em maio (exclui veículos e material de construção)
evoluiu apenas 0,1%, com hipermercados e supermercados exibindo na variação
mensal (-1,5%) o pior resultado em quase dois anos.
O setor de serviços, fonte de pressão
inflacionária constante e resistente, recuou em maio (0,4%), mas ainda
apresenta boa taxa de expansão acumulada no ano (1,9%) e em 12 meses encerrados
em maio (2,6%). Serviços representam pouco mais de dois terços na composição da
oferta do PIB e têm sido impulsionados pelo comportamento aquecido do mercado
de trabalho, pela redução do desemprego e pelos avanços da renda mensal, que
vinha superando a inflação.
Ainda que a taxa de desemprego no trimestre
encerrado em junho tenha atingido 5,4%, o segundo menor nível da série iniciada
em 2012, a tendência é de queda nas contratações e aumento de demissões. Um
indício do futuro está na evolução dos salários, que declinaram pelo segundo
mês consecutivo em junho. No mês, caíram 1,5% em relação a maio, e 0,8% em maio
em relação a abril. A evolução real dos salários e da massa de rendimentos real
sustenta a robusta inflação dos serviços, que nos 12 meses terminados em junho
variou 5,9% (pelo IPCA).
A gradual perda de ritmo dos ganhos salariais
deve dar decisiva contribuição para derrubar a inflação. No trimestre móvel
encerrado em abril, na comparação com o mesmo período de 2025, o rendimento
médio real (descontada a inflação) crescera 5,3%. Em maio, na mesma comparação,
o ganho foi de 4%, e na última leitura, do trimestre findo em junho, foi de
2,8%. Os aumentos da massa de rendimentos real mostram trajetória semelhante,
um pouco mais acentuada. Em abril, houve ganhos de 6,5%, em maio, de 4,8% e em
junho, de 3,6%.
Mas há no horizonte incertezas suficientes, externas e domésticas, que poderão pausar a distensão da política monetária. Os analistas privados preveem ao menos mais um corte de juros até o fim do ano, com a taxa Selic estacionando em 13,75%. Os múltiplos estímulos de crédito a uma gama enorme de setores da economia deverão mostrar efeitos no período eleitoral, o que obrigará o BC a jogar na retranca por algum tempo. A política do Planalto para reeleger o presidente Lula piora sobremaneira as contas públicas e cobra uma salgada conta de juros: R$ 1,16 trilhão nos 12 meses até junho. Com a atual política restritiva e nenhum superávit primário, a situação fiscal vai se deteriorar ainda mais rapidamente.
Crise para o palanque e o gabinete
Por Correio Braziliense
Para o Planalto e o Itamaraty, a incógnita
está em encontrar o tom exato da resposta a ambos os desafios: a crise com EUA
e com a Argentina
A revogação do visto da embaixadora Maria
Luiza Viotti coloca para o governo brasileiro o desafio de orientar a
diplomacia no momento mais baixo em dois séculos de relações com os Estados
Unidos — primeiro país a reconhecer a nossa independência, já em 1824. A crise
coincide com a rápida deterioração dos laços com outro parceiro de primeira
ordem, a Argentina de Javier Milei. Em resposta a seguidas ofensas dirigidas ao
presidente Lula e à reiterada recusa a apresentar desculpas, o Itamaraty
comunicou formalmente a decisão de "rebaixar as relações": o
embaixador brasileiro não retornará a Buenos Aires até que esse comportamento
mude, e a chancelaria argentina foi convidada a chamar de volta seu
representante em Brasília.
A menos de dois meses do primeiro turno da
disputa pelo Planalto, as turbulências simultâneas em dois pontos focais da
frente externa, antes de tudo, não se afiguram como coincidência. Um dos pivôs,
Milei, é o principal expoente da atual onda de extrema-direita na vizinhança
imediata do país. O outro, Donald Trump, é o seu padrinho político. Os laços de
ambos com o bolsonarismo produzem impacto eleitoral incontornável, impossível
de ser subestimado: como nunca antes, a política externa fará sentir sua presença
no debate de campanha.
Fazem parte do jogo as esperadas
manifestações não apenas dos desafiantes de Lula, mas de diferentes personagens
e instituições que se alinham a eles, como os Clubes Militares. Expor as
próprias opiniões — assim como absorver os contraditórios — é da essência do
debate democrático. Mas não exatamente simétricas as posições: a oposição pode
permitir-se apenas opinar; o candidato à reeleição é também o presidente. A ele
cabe também decidir e, sobretudo, agir.
Para o Planalto e o Itamaraty, a incógnita
está em encontrar o tom exato da resposta a ambos os desafios. Na pendência com
Washington, a sanção imposta à embaixadora — uma diplomata de credenciais
sólidas que já representou o Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU) —
coloca limites à diplomacia brasileira no trato profissional e técnico de
impasses como o das tarifas comerciais. São questões que impactam importantes
setores econômicos e demandam soluções o quanto antes. No caso da Argentina, o
afastamento dificulta ainda mais os esforços, no âmbito do Mercosul, para
ampliar mercados externos e compensar perdas nas trocas com os Estados Unidos —
evitando a armadilha de apostar todas as fichas na China.
Lula terá também seus momentos de palanque. Neles, poderá rebater os adversários internos e mesmo contestar os desafetos externos. Mas, de volta ao gabinete, terá de despir a pele de candidato para agir e decidir como chefe de Estado. Lá, o que deve prevalecer é o interesse do país.
IA e as tendências do futuro
Por O Povo (CE)
O uso da inteligência artificial (IA) já é
uma realidade em todo o mundo, provocando mudanças profundas em todos os ramos
da atividade humana, incluindo os negócios. Além disso, trata-se de uma
ferramenta à disposição de qualquer pessoa que disponha de um smartphone ou
notebook.
Constatar essa realidade implica também em
reconhecer que nenhum exercício de futurologia conseguirá prever todas as
consequências dessas mudanças. Porém, essas possibilidades têm de ser estudadas
de modo a identificar tendências e preparar governos e empresas para conviver
com a revolução tecnológica.
Relatório da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), de maio de 2025, anota o seguinte: "A
obtenção de taxas mais elevadas de adoção de IA pode aumentar a produtividade
do trabalho e gerar outros resultados desejáveis, como menores taxas de
defeitos na produção, reduzindo a necessidade de insumos materiais. As
informações para políticas públicas provenientes deste e de outros estudos
comparáveis provavelmente se tornarão mais importantes à medida que mais
empresas buscarem se tornar usuárias ativas de IA".
Esses temas serão debatidos no Futura Trends,
evento que se realiza hoje em Fortaleza, com a presença de especialistas em
inovação tecnológica do Brasil e de vários países do mundo. Estarão no encontro
pesquisadores dos Estados Unidos, China, Coreia do Sul e Inglaterra. Na pauta,
o processo acelerado de transformação digital e os impactos da inteligência
artificial generativa na reconfiguração da sociedade, na educação e na
economia.
Em destaque estará a Ásia, região de onde
surgem boas experiências, especialmente em educação e mercado de trabalho.
Quanto a esse tema, a OCDE alerta que "os dados e as tecnologias digitais,
como a inteligência artificial, são poderosos impulsionadores da inovação na
educação, oferecendo oportunidades transformadoras para a gestão de sistemas e
escolas, bem como para o ensino e a aprendizagem". O evento é uma
realização do Grupo de Comunicação O POVO.
Segundo o coordenador do seminário, Nazareno
Albuquerque, no encontro serão debatidas de forma aprofundada a questão do
letramento digital e da educação, a partir da primeira infância, para o acesso
à tecnologia. Para ele, superar esse problema evitará mais uma geração de
excluídos da era digital, como aconteceu nos anos 1990 e início do ano 2000.
O seminário, portanto, está inserido no
grande debate que hoje mobiliza países de todo o mundo para estudar as
tendências que regularão a sociedade permeada pela
inteligência artificial.

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