sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A herdeira, o banqueiro e a PF no caminho da eleição, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Roberta Luchsinger retornou, recentemente, ao centro dos holofotes para dividir a cena, mais uma vez, com os mesmos personagens

Atribui-se a Friedrich Hegel a afirmação de que fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem duas vezes. A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

A história contemporânea brasileira se encaixa na máxima de Hegel, formulada no século 19. A personagem Roberta Luchsinger retornou, recentemente, ao centro dos holofotes para dividir a cena, mais uma vez, com a Polícia Federal (PF), banqueiros e políticos do alto escalão.

Ela ressurgiu em novo papel, porém, em trama com ar de reprise envolvendo policiais, políticos e banqueiros encurralados. Com a empresária em papel principal ou lateral, transitamos entre a Satiagraha e a Compliance Zero, o Opportunity e o Master, entre os dois “Daniel” - Dantas e Vorcaro -, o ex-prefeito de São Paulo, e o filho e o assessor do presidente da República.

Tendo os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal (STF) à frente de inquéritos sobre vazamentos de dados sigilosos que foram parar na imprensa - envolvendo a fraude bilionária do Banco Master, e o golpe contra beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) - é oportuno lembrar que foi o ex-marido de Luchsinger um dos primeiros condenados por essa conduta: o ex-delegado da PF e ex-deputado federal Protógenes Queiroz.

Herdeira de um ex-acionista do banco Credit Suisse, Roberta estreou no palco nacional em 2009, quando se casou com Protógenes, recém-eleito deputado pelo PCdoB. Ele tinha ganhado notoriedade um ano antes, quando, no comando da Operação Satiagraha, levou à prisão o banqueiro Daniel Dantas, sócio-fundador do Opportunity, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o investidor Naji Nahas, suspeitos de corrupção e lavagem de dinheiro, em transações ligadas ao escândalo do mensalão.

Numa conjuntura em que o brasileiro ainda se surpreendia com a prisão de banqueiros e políticos, Protógenes foi afastado da operação, acusado de vazar detalhes da investigação para jornalistas, e de usar grampos ilegais. Embora sempre tenha negado as acusações, foi condenado por violação de sigilo funcional e fraude processual. A Satiagraha foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), com chancela posterior do STF.

Preso desde março deste ano, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Master, deveria se inspirar em seu homônimo do Opportunity, que conseguiu anular a operação policial de que foi alvo, retornou ao mundo dos negócios e nunca saiu do encalço de seu algoz.

Em abril de 2024, a Justiça Federal de São Paulo expediu mandado de prisão contra Protógenes, no âmbito de uma ação penal movida por Dantas contra ele. O ex-delegado, entretanto, se mudou para a Suíça em 2015, onde ganhou asilo político e vive desde então. Naquele ano, enquanto ele deixava o Brasil, Luchsinger deu uma entrevista à Veja, atribuindo o fim do casamento à traição contumaz do ex-policial. Declarando que “cansou de ser chifrada”, anunciou um novo relacionamento, e a dedicação às aulas de samba para desfilar no Carnaval paulista.

Uma década depois, em dezembro de 2025, Luchsinger entra em cena, novamente, com a Polícia Federal. Se no passado os laços eram amorosos, no presente, as ligações são perigosas. Agora empresária e lobista, ela foi alvo da Operação Sem Desconto, que identificou transações financeiras entre ela e o operador Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Ela nega as acusações.

Além da suposta relação com Antunes, a lobista também desponta nas investigações como amiga do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e do ex-chefe do gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, para quem teria emprestado R$ 249 mil. Em nota, Marcola admitiu o empréstimo de natureza pessoal, e afirmou que tem o comprovante da quitação.

As turbulências do passado e do presente também convergem para um histórico de vazamentos, mas, raramente, se falava em punição. A condenação de Protógenes, até então, emergia como um episódio isolado, e uma obsessão de Daniel Dantas.

No entanto, numa conjuntura de tensão entre alas do STF e a Polícia Federal, em relação à condução dos inquéritos, a sinalização de alguns ministros da Corte é que haverá investigação obstinada quanto à autoria dos vazamentos. A determinação já foi colocada em prática. Em março, a Operação Dataleaks desarticulou uma quadrilha que operava uma plataforma para disseminar e comercializar dados de autoridades obtidos ilegalmente. Em maio, a PF cumpriu mandados em Porto Velho (RO), na residência de um perito criminal, suspeito de vazar o contrato do Banco Master com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. O documento foi a público, revelando o contrato no valor de R$ 129 milhões.

Em retrospectiva, consideradas as duas últimas décadas, da Satiagraha até as operações que miram as fraudes do Banco Master e do INSS, com uma Lava-Jato no meio do caminho, verifica-se que o brasileiro se acostumou a caminhar para a eleição saltando obstáculos, como denúncias, investigações e suspeitas envolvendo os principais atores. A tragédia está no percurso. O que não se pode admitir é a farsa.

 

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