terça-feira, 9 de junho de 2026

Copa vai testar reformas do bilionário e conservador futebol, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

É justo reconhecer que o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo com controvérsias e regras conservadoras, mas, na era da IA, elas cansam e enfurecem jogadores e torcedores

A dois dias do início da Copa do Mundo, pedindo licença aos colegas do Esporte, o colunista aproveita a oportunidade e utiliza este espaço, normalmente ocupado com temas econômicos, para falar de futebol.

Entre parêntesis, vale lembrar que só os 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro faturam quase R$ 15 bilhões por ano. E que o futebol, apesar das condições financeiras catastróficas de muitos clubes grandes, movimenta estimados R$ 90 bilhões anualmente no país, gerando 370 mil empregos diretos e indiretos. Na indústria global do futebol giram US$ 300 bilhões anuais. Os EUA preveem injetar US$ 17 bilhões na economia com a Copa.

Se o futebol virou um grande negócio, precisa modernizar-se. O VAR (Video Assistant Referee) foi um enorme avanço, mas pode ser mais bem aproveitado. Semanas atrás, a Fifa anunciou medidas para combater a conhecida “cera” e a queda de ritmo das partidas, os maiores problemas do futebol atual. A partir da Copa, arremessos laterais e tiros de meta terão cinco segundos para cobrança. Ultrapassado esse limite, haverá, respectivamente, reversão da posse de bola e escanteio. Jogadores substituídos terão dez segundos para sair do campo. Os atendidos pela equipe médica ficarão pelo menos um minuto fora do jogo. O VAR poderá corrigir erros em escanteios e tiros de meta e revisar expulsões por segundo cartão amarelo.

A Fifa está bem intencionada, e a Copa será um teste para as mudanças, mas as medidas ainda parecem pouco efetivas para recuperar o tempo perdido nos jogos. Não faz sentido que, tendo um sistema de vídeo e áudio funcionando, seja função do árbitro de campo determinar a reposição do tempo. É até cruel dar-lhe essa responsabilidade, porque, atento a lances e peripécias do jogo, nem sempre consegue controlar o cronômetro. O pessoal do VAR teria total condição de cronometrar as perdas com precisão e, após as partidas, em nome da transparência, relacionar paradas e tempos repostos.

Talvez isso aumente demais o tempo de jogo - até 10 a 20 minutos em muitos casos -, o que inclusive complicaria a programação das TVs. Mas mudanças não incluídas no pacote reformista da Fifa poderiam reduzir a perda de tempo.

A substituição de jogares é um exemplo. Cada treinador pode parar o jogo três vezes para fazer até cinco substituições. Mesmo com o limite de 10 segundos para a saída do jogador substituído, é natural que em cada parada possa ser perdido até um minuto. As substituições são demoradas, principalmente as do time que está ganhando, porque viraram um evento. O treinador entrega um bilhete ao quarto árbitro; o árbitro de campo interrompe o jogo; o quarto árbitro levanta uma placa com os números do jogador que sai e do que entra; o substituído sai e cumprimenta o substituto que vai entrar. O processo se repete para cada uma das trocas e se estende quando o substituído sai na maca.

Esses eventos poderiam ser eliminados. Não é preciso reinventar a roda, basta copiar a regra do futebol de salão, onde as substituições são feitas só com bola rolando. O quarto árbitro, cuja função principal hoje parece ser receber reclamações dos treinadores e discutir com eles, faria o controle das substituições.

A perda de tempo com quedas falsas de jogadores também não parece ser suficientemente combatida pelas novas normas. Até porque os árbitros, muitas vezes sem fôlego para acompanhar ataques e contra-ataques, param o jogo marcando “faltinhas”. As quedas continuarão sendo uma arma para esfriar o jogo, mesmo sabendo-se que o jogador poderá ficar fora do campo por um minuto. Goleiros não entram nessa regra e cairão muito mais. A melhor punição, além de ficar fora do campo por um minuto, que é pouco, seria a correta reposição pelo VAR do tempo parado. Ao árbitro de campo caberia apenas a função de zelar pela saúde do atleta eventualmente lesionado.

Não se pode desprezar o avanço representado pelo VAR e por outras tecnologias para modernizar o futebol. Bem utilizadas, elas permitem que sejam evitados vexames históricos, como a validação de um gol de mão feito por Maradona e que deu a vitória à Argentina contra a Inglaterra na Copa do México, em 1986, num episódio que ficou conhecido como “La Mano de Dios”. Também não haverá mais um erro fatal como o ocorrido na Copa da Inglaterra, em 1966. Ingleses e alemães disputavam a final e o jogo estava 2 a 2 quando Hurst, da Inglaterra, chutou uma bola que tocou no travessão e no chão, mas não entrou. O juiz deu o gol e a Inglaterra foi campeã mundial, vencendo por 4 a 2.

Para que novos vexames não aconteçam, é preciso que o VAR seja mais utilizado, tanto para confirmar ou anular lances importantes quanto para cronometrar e repor tempo perdido. Mudanças mais radicais dependem da Fifa, tradicionalmente resistente a modernizações. De qualquer forma, é justo reconhecer que o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo com controvérsias e regras conservadoras. Mas, na era da IA, elas cansam e enfurecem jogadores e torcedores.

E vamos para a Copa. Que venha o hexa!

 

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