Valor Econômico
É justo reconhecer que o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo com controvérsias e regras conservadoras, mas, na era da IA, elas cansam e enfurecem jogadores e torcedores
A dois dias do início da Copa do Mundo,
pedindo licença aos colegas do Esporte, o colunista aproveita a oportunidade e
utiliza este espaço, normalmente ocupado com temas econômicos, para falar de
futebol.
Entre parêntesis, vale lembrar que só os 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro faturam quase R$ 15 bilhões por ano. E que o futebol, apesar das condições financeiras catastróficas de muitos clubes grandes, movimenta estimados R$ 90 bilhões anualmente no país, gerando 370 mil empregos diretos e indiretos. Na indústria global do futebol giram US$ 300 bilhões anuais. Os EUA preveem injetar US$ 17 bilhões na economia com a Copa.
Se o futebol virou um grande negócio, precisa
modernizar-se. O VAR (Video Assistant Referee) foi um enorme avanço, mas pode
ser mais bem aproveitado. Semanas atrás, a Fifa anunciou medidas para combater
a conhecida “cera” e a queda de ritmo das partidas, os maiores problemas do
futebol atual. A partir da Copa, arremessos laterais e tiros de meta terão
cinco segundos para cobrança. Ultrapassado esse limite, haverá,
respectivamente, reversão da posse de bola e escanteio. Jogadores substituídos
terão dez segundos para sair do campo. Os atendidos pela equipe médica ficarão
pelo menos um minuto fora do jogo. O VAR poderá corrigir erros em escanteios e
tiros de meta e revisar expulsões por segundo cartão amarelo.
A Fifa está bem intencionada, e a Copa será
um teste para as mudanças, mas as medidas ainda parecem pouco efetivas para
recuperar o tempo perdido nos jogos. Não faz sentido que, tendo um sistema de
vídeo e áudio funcionando, seja função do árbitro de campo determinar a
reposição do tempo. É até cruel dar-lhe essa responsabilidade, porque, atento a
lances e peripécias do jogo, nem sempre consegue controlar o cronômetro. O
pessoal do VAR teria total condição de cronometrar as perdas com precisão e,
após as partidas, em nome da transparência, relacionar paradas e tempos
repostos.
Talvez isso aumente demais o tempo de jogo -
até 10 a 20 minutos em muitos casos -, o que inclusive complicaria a
programação das TVs. Mas mudanças não incluídas no pacote reformista da Fifa
poderiam reduzir a perda de tempo.
A substituição de jogares é um exemplo. Cada
treinador pode parar o jogo três vezes para fazer até cinco substituições. Mesmo
com o limite de 10 segundos para a saída do jogador substituído, é natural que
em cada parada possa ser perdido até um minuto. As substituições são demoradas,
principalmente as do time que está ganhando, porque viraram um evento. O
treinador entrega um bilhete ao quarto árbitro; o árbitro de campo interrompe o
jogo; o quarto árbitro levanta uma placa com os números do jogador que sai e do
que entra; o substituído sai e cumprimenta o substituto que vai entrar. O
processo se repete para cada uma das trocas e se estende quando o substituído
sai na maca.
Esses eventos poderiam ser eliminados. Não é
preciso reinventar a roda, basta copiar a regra do futebol de salão, onde as
substituições são feitas só com bola rolando. O quarto árbitro, cuja função
principal hoje parece ser receber reclamações dos treinadores e discutir com
eles, faria o controle das substituições.
A perda de tempo com quedas falsas de
jogadores também não parece ser suficientemente combatida pelas novas normas.
Até porque os árbitros, muitas vezes sem fôlego para acompanhar ataques e
contra-ataques, param o jogo marcando “faltinhas”. As quedas continuarão sendo
uma arma para esfriar o jogo, mesmo sabendo-se que o jogador poderá ficar fora
do campo por um minuto. Goleiros não entram nessa regra e cairão muito mais. A
melhor punição, além de ficar fora do campo por um minuto, que é pouco, seria a
correta reposição pelo VAR do tempo parado. Ao árbitro de campo caberia apenas
a função de zelar pela saúde do atleta eventualmente lesionado.
Não se pode desprezar o avanço representado
pelo VAR e por outras tecnologias para modernizar o futebol. Bem utilizadas,
elas permitem que sejam evitados vexames históricos, como a validação de um gol
de mão feito por Maradona e que deu a vitória à Argentina contra a Inglaterra
na Copa do México, em 1986, num episódio que ficou conhecido como “La Mano de
Dios”. Também não haverá mais um erro fatal como o ocorrido na Copa da
Inglaterra, em 1966. Ingleses e alemães disputavam a final e o jogo estava 2 a
2 quando Hurst, da Inglaterra, chutou uma bola que tocou no travessão e no
chão, mas não entrou. O juiz deu o gol e a Inglaterra foi campeã mundial,
vencendo por 4 a 2.
Para que novos vexames não aconteçam, é
preciso que o VAR seja mais utilizado, tanto para confirmar ou anular lances
importantes quanto para cronometrar e repor tempo perdido. Mudanças mais
radicais dependem da Fifa, tradicionalmente resistente a modernizações. De
qualquer forma, é justo reconhecer que o futebol se tornou o esporte mais
popular do mundo com controvérsias e regras conservadoras. Mas, na era da IA,
elas cansam e enfurecem jogadores e torcedores.
E vamos para a Copa. Que venha o hexa!

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