Folha de S. Paulo
A decisão talvez tenha um impacto ao mostrar
que Flávio não defende a liberdade de expressão quando a informação lhe
desagrada
Ter acesso a diferentes pesquisas é mais
relevante hoje em dia quando a confiabilidade delas está em discussão
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, atendeu a pedido de Flávio Bolsonaro e suspendeu a divulgação da pesquisa AtlasIntel. Mas isso não deve ajudar Flávio. A pesquisa foi divulgada em 19 de maio; o impacto dela já passou. Ninguém nem lembrava mais. A decisão talvez tenha, aí, sim, um impacto negativo, ao mostrar que Flávio não defende a liberdade de expressão; quando a pesquisa lhe desagrada, ele é o primeiro a pedir censura.
Decisões na mesma linha que vierem no tempo certo, contudo, podem, sim, ter impacto. Isso porque as pesquisas eleitorais não só retratam a intenção de voto num determinado momento; elas podem influenciar essa intenção. O efeito é modesto, mas consistente. Por algum motivo, as pessoas não gostam de votar em quem elas acham que vai perder. Isso cria um "efeito manada", positivo ou negativo: um candidato visto como em ascensão tende a ganhar mais votos, já aquele visto como em queda tende a perder ainda mais. Numa eleição polarizada em que os candidatos estão muito próximos, o efeito modesto pode ser decisivo.
Para Flávio, em meio a uma torrente de más
notícias, é importante não ser visto como um animal ferido que ruma ao colapso
—ou o colapso pode vir mesmo. Só que o argumento que seu time utilizou para
pedir a retirada da pesquisa do ar foi muito fraco. Segundo ele, a pesquisa, ao
mostrar as mensagens trocadas entre Flávio e Vorcaro, influenciava
o entrevistado. O problema é que o trecho do formulário (online) que trazia
essa informação era posterior ao entrevistado já ter respondido e submetido sua
intenção de voto.
Tirar uma pesquisa do ar é sonegar
informações ao público. Se ele julga relevante saber quem está subindo ou
caindo para definir seu voto ou mesmo para planejar sua vida no pós-eleição,
que possa ter acesso a esse dado.
Ter acesso a diferentes pesquisas é ainda
mais relevante hoje em dia, quando a confiabilidade delas está em discussão, e
uma suspeita persistente de que elas subestimam os votos na direita. Pode ser
que essa parte do eleitorado desconfie dos institutos tradicionais e se recuse
a responder suas pesquisas. Lembremos que, em 2022, pesquisadores
do Datafolha foram hostilizados por bolsonaristas na rua. Os
institutos tentam sempre corrigir qualquer grupo sub-representado em sua
amostra, mas isso nem sempre dá certo.
A AtlasIntel também é alvo de críticas. O
fato de colher suas respostas online barateia muito o processo, mas pode
torná-la passível de manipulação por militâncias digitais engajadas, coisa que
ela também busca evitar. Será que ela sobrerrepresenta candidatos que fazem
muito sucesso online, como Renan Santos,
que apareceu muito bem na pesquisa agora censurada? O Datafolha que se seguiu à
pesquisa Atlas mostrou um quadro bem diferente.
Quem está certo? Não temos acesso à
população. Se tivéssemos, não precisaríamos de pesquisa. Além disso, a eleição,
o momento em que a pesquisa chega mais perto de ser testada, está longe. Quanto
mais fontes sérias (embora imperfeitas) tivermos, melhor. Pedidos malfeitos
como o de Flávio jamais deveriam ser acolhidos pela Justiça
Eleitoral.

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