O Globo
Tanto a fidelidade canina da família
Bolsonaro como a química que uniu Lula ao presidente dos EUA enfraquecem uma
análise mais fria sobre objetivos dos dois países
Nunca me senti confortável com a importância
que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade
canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem
uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.
Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.
É nesse contexto que temos de analisar alguns
movimentos da política em relação ao nosso país. Um deles, a classificação de
terrorismo imposta a PCC e Comando Vermelho. Não foi uma decisão importante
para uma política de Estado. Vinha sendo avaliada havia muito tempo. Mas a
oportunidade de sua oficialização deu uma pequena ajuda ao pré-candidato Flávio
Bolsonaro, sem dúvida preferido dos americanos. A preferência explícita
acabou trazendo grande desgaste a Flávio quando se anunciaram novas tarifas.
Embora seja um discurso muito eficaz de
campanha, as tarifas não foram feitas para a família Bolsonaro. Não se pode
analisá-las sob essa ótica de quarteirão, como se fossem obra dos Bolsonaros,
dos Morales, dos Bertrands, dos Millers, dos Johnsons. Elas são uma política
global de Trump. Já foram tentadas de forma autoritária e anuladas pela Suprema
Corte. Agora, Trump volta à carga, usando a seção 301 de uma lei comercial para
dar verniz legal a sua determinação.
Há muita coisa injusta nas razões que punem o
Brasil. Uma delas é a denúncia de trabalho forçado, algo muito combatido num
governo de esquerda, assim como o desmatamento. Os americanos não parecem muito
preocupados com precisão nem coerência. Tanto que, no caso da carne, abrem uma
exceção. Se o trabalho forçado é para produzir carne, então tudo bem.
É evidente que tudo isso será processado
pelas narrativas eleitorais. Mas o Brasil precisa manter um olhar frio e uma
prática profissional para atenuar o impacto das medidas e compreender a
realidade americana como ela é. Nessa luta planetária contra o poder ascendente
da China, os americanos podem passar por várias fases.
Nem a devoção da família Bolsonaro nem a
química entre Trump e Lula são proteções estratégicas. Precisamos discutir
caminhos, e eles estão um pouco ofuscados no valor cultural da amizade, algo
que cultivamos no Brasil. Entre países, não há amigos, apenas interesses. Não
significa que devamos abandonar o bom humor e a abertura para novas amizades.
Sempre ajudam.

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