O Globo
Conflito no Oriente Médio, restrições à
exportação da carne e questão climática compõem cenário de tensão para a
economia brasileira
O fechamento do mercado da União Europeia
para a carne brasileira é um golpe a mais no setor agropecuário e na economia
do país, em um ano cheio de complicações. No fim de junho ou de julho, a
exportação de carne para os chineses completará a cota, e as vendas terão que
ser suspensas. As novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos sobre
o Brasil já estão postas. A guerra com o Irã se transformou
em um choque de oferta de energia. As sombras do El Niño forte rondam o país e
assustam o agronegócio.
Conversei com o professor José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), para saber se a ameaça climática é mesmo forte. Ele disse que o El Niño já se formou no Oceano Pacífico. A intensidade dos efeitos no clima, contudo, ainda não está certa. Tudo indica que será forte.
— O El Niño já está por aí fazendo
travessuras. O fenômeno mesmo está configurado. Ele é o aquecimento das águas
do Oceano Pacífico. Em março, o Climate Prediction Center dos Estados Unidos
dava uma probabilidade de 40% a 50% de ocorrência de El Niño. Agora está em
90%. A dúvida é se ele será moderado, forte ou muito forte— diz o cientista.
O fenômeno produz chuvas intensas no Sul,
como aquelas de 2023 e 2024 em Porto Alegre, muito calor no Centro-Oeste e
secas na Amazônia.
Neste inverno, poderemos ter ondas de calor e, na primavera, chuvas fortes no
Sul. Além dos riscos à vida, provocados por enchentes, secas e calor excessivo,
haverá impactos econômicos.
— O verão do próximo ano pode ser o mais
perigoso para todos. Na agricultura pode acontecer, por exemplo, de a
temperatura estar muito alta em outubro para o plantio da soja. Há produtores
querendo antecipar o plantio. Existem riscos de muitas queimadas na Amazônia e
no Pantanal. O Centro-Oeste terá temperaturas altas e ambiente seco. Em São
Paulo, no Vale do Paraíba, também tem risco de queimadas. É uma cadeia de
reações que afeta tudo, água, alimentação e fogo.
O ano tem outros problemas. A partir de 3 de
setembro, o Brasil não exporta mais carne para a União Europeia devido à
suspeita de que continua usando antimicrobianos como estratégia de engorda do
boi. Por ano, o país vende US$ 2 bilhões em carne para o bloco. Até o fim deste
mês ou, no mais tardar, no fim de julho, o Brasil vai completar a cota de venda
para a China.
Como os exportadores correram para aproveitar a tarifa reduzida, terão de interromper
as vendas até o fim do ano.
Existe um lado bom da má notícia? Sobrará
mais carne para vender no mercado interno derrubando o preço? Dois economistas
que ouvimos aqui sobre o tema dizem que talvez sim, mas o efeito será pequeno.
André Braz, da FGV, fala que o preço cai um pouco, mas o efeito não é
automático, até porque o varejo repassa as quedas em velocidade menor do que as
altas. Admite que as duas barreiras podem reduzir o preço do boi gordo e chegar
ao varejo. Sérgio Vale, da MB Associados, acredita que o efeito será marginal e
não será suficiente para reverter as consequências do El Niño.
A crise no Oriente Médio continua jogando
toneladas de incerteza no cenário econômico. Olha o que diz Carlos Frederico de
Souza Coelho, professor da PUC-Rio e da Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército.
— O conflito com o Irã traz algo que há muito
não se via: um choque de oferta de escala sistêmica. Cerca de 20% a 25% do
petróleo mundial, 15% dos grãos, 25% dos fertilizantes e 35% dos químicos e
plásticos, em geral, transitam pelo Estreito de Ormuz. Quando está fechado ou
funcionando parcialmente, cobra um preço significativo para a economia global.
Ele lembra que a guerra da Ucrânia está
entrando no quinto ano. E agora há as tensões no Irã produzindo mais imprevisibilidade.
— O maior risco é um confronto de baixa
intensidade prolongado. O petróleo fica praticamente num platô. Para o Brasil,
o quadro é ambíguo, pois é exportador líquido de energia, mas o benefício é
superficial e assimétrico. O petróleo mais caro funciona como um imposto
invisível sobre o consumo interno pressionando a inflação e por consequência a
taxa de juros. O Brasil é um país que lucra com a crise alheia, mas não
consegue escapar dela, ao mesmo tempo.
O país vive este ano eleitoral, naturalmente
tenso, diante de um cenário econômico tumultuado.

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