O Estado de S. Paulo
A questão crítica em jogo para o País, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica
Os EUA estão cada vez mais presentes na
política interna e externa do Brasil. Quatro recentes decisões impactaram o
governo brasileiro e agitaram o cenário pré-eleitoral. São elas: a
classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV)
como organizações terroristas; a designação do novo embaixador norte-americano;
os anúncios das recomendações das investigações contra o Brasil no âmbito da
seção 301 da Lei de Comércio exterior de 1974 por práticas desleais e
contrárias aos interesses dos EUA; e sobre trabalho forçado em produtos
importados.
É um erro político grave – só explicável em função da política interna – considerar essas medidas como resultado de pressão por parte da família Bolsonaro sobre o governo em Washington. As medidas têm a ver com a nova visão global dos EUA, refletida na Estratégia de Segurança Nacional, cujo foco principal de interesse norte-americano é a América Latina.
O princípio fundamental da política externa
de Washington é o interesse próprio, por isso essas medidas refletem a defesa
dos objetivos comerciais dos EUA, a disputa geopolítica com a China e a
intenção norte-americana de controlar a América Latina. Por outro lado, essas
ações são influenciadas por motivações ideológicas dominantes no Departamento
de Estado contra governos de esquerda, como Cuba, Nicarágua, Venezuela e agora
o Brasil, considerados países “não amigos dos EUA”, no dizer de Marco Rubio.
Nesse contexto, não é surpresa a inclusão do
PCC e do CV como organizações terroristas, contra as gestões do governo
brasileiro. Essa decisão trouxe para a linha de frente o combate ao crime
organizado e abre a possibilidade de empresas brasileiras, sobretudo do mercado
financeiro, serem atingidas por medidas duras do governo norte-americano. Ao
contrário do que muito se comentou, o Pix não poderá ser atingido neste
capítulo, assim como é muito pouco provável que haja alguma intervenção dos EUA
em território brasileiro. A ampliação da cooperação bilateral nessa área poderá
aumentar a capacidade do governo brasileiro, se atuar coordenado, no
enfrentamento do crime organizado de maneira mais firme e eficiente.
A designação do novo embaixador dos EUA,
Daniel Perez, deputado estadual da Flórida e aliado de Trump, sem pedido de
agrément prévio, é mais um ato ideológico e de provocação do Departamento de
Estado. Sem qualquer experiência diplomática, Perez defende publicamente a dura
política imigratória de Trump, os princípios da política ultranacionalista e
conservadora do Maga (Make America Great Again), a nova atitude dos EUA em
relação à América Latina e o apoio de governos de direita na região. Caso
aprovado pelo Senado, Perez vai chegar ao Brasil às vésperas da eleição
presidencial de outubro, num momento dos mais delicados na relação Brasil-EUA.
No tocante à proposta de taxar produtos
brasileiros em 25%, o relatório sustenta que determinadas políticas e práticas
brasileiras relacionadas a comércio digital, meios eletrônicos de pagamento,
propriedade intelectual, combate à corrupção – citando nominalmente ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) que levou a anulação de mais de uma centena de
casos – , acesso a mercado e outras matérias afetam negativamente interesses
comerciais dos EUA.
Tal decisão foi precedida de investigação e
respostas do governo brasileiro em julho do ano passado. Agora, o governo Lula
tem até 6 de julho para responder à proposta das novas tarifas de 25% sobre os
produtos brasileiros para os EUA que não entraram na lista de exceções
definidas por Washington.
Não se trata de negociação, porque a
legislação prevê uma decisão unilateral do governo de Washington que será
formalizada em 15 de julho próximo. Caso essas tarifas sejam mantidas, 21% dos
produtos exportados para os EUA ficarão afetados, entre eles madeiras,
pescados, máquinas e equipamentos. Essas medidas tarifárias substituem as
tarifas impostas por legislação considerada ilegal pela Suprema Corte e deverão
estar em linha com as tarifas então aplicadas ao Brasil. Os 40% anteriores
foram substituídos pelos atuais 37,5%. Além dos produtos exportados, são
matérias de preocupação o Pix e as big techs, em vista da regulamentação do STF
e do governo brasileiro, o que poderá resultar em novas medidas restritivas dos
EUA.
Ainda dentro das investigações no âmbito da
seção 301, foi também anunciada a imposição de 12,5% de tarifa sobre todos os
produtos brasileiros pelo descumprimento das restrições a importações de
produtos produzidos com trabalho forçado, no caso, produtos vindos da China.
Todas essas medidas são explicadas pelo peso do Brasil no cenário global, em
função de seu território, recursos naturais, energia disponível, agricultura
tropical e reservas minerais.
A questão crítica em jogo para o País, neste
momento, não é eleitoral, mas geopolítica. O governo, a classe política e os
empresários precisam entender o real desafio externo e procurar discutir e
implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado e
estratégias de médio e longo prazo. Se isso não for feito, o Brasil continuará
a reboque da história, administrando as influências externas, sem capacidade de
se beneficiar das transformações políticas, econômicas e tecnológicas em curso
no cenário global.
*Foi Embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

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