Folha de S. Paulo
Financiamento público cria uma relação
desigual entre o país contratante e os políticos contratados
Eleitor é obrigado a votar, mas os eleitos
não se obrigam a cumprir seus deveres para com a sociedade
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou
na semana passada os dados sobre a divisão do
dinheiro do fundo eleitoral, e isso não traz notícia nova.
Os números são conhecidos, mas a divulgação repõe na agenda o tema desse tipo de financiamento adotado desde a eleição de 2018. Oportunidade para renovar questionamentos sobre como partidos se tornaram sorvedouros de dinheiro público sem que, em contrapartida, prestem bons serviços ao país que os contrata.
A velha história: o representado é obrigado a
votar, mas os representantes não se obrigam a cumprir seus deveres e ainda
legislam em causa própria. Por exemplo, anistiando infrações das agremiações,
ampliando o uso do fundo partidário e afrouxando normas como a Lei da Ficha
Limpa. Aos números graúdos: R$ 4,9 bilhões para as campanhas, R$ 1,3
bilhão para as despesas habituais dos partidos e R$ 61 bilhões reservados para
as emendas parlamentares no Orçamento da União de 2026. As emendas entram nessa
conta porque funcionam como financiamento paralelo de campanhas.
O serviço prestado justifica essa dinheirama
toda? A julgar pela pesquisa do Poder Data divulgada há alguns dias, a
população não está nada satisfeita com o que paga aos partidos. Só 10% avaliam
positivamente o trabalho da Câmara dos
Deputados e 15% avalizam o desempenho do Senado.
Enquanto nas eleições para
presidente, governadores e prefeitos as avaliações de desempenho podem impactar
diretamente nas intenções de voto, no Legislativo há uma dispersão nas
escolhas. É com isso que contam os pretendentes a congressistas. Apostam
justamente na ausência de conexão entre o que está sendo pago pela sociedade e
o que é de fato entregue pelos eleitos no curso dos respectivos mandatos
exercidos longe do olho dos donos dos votos.
O sistema distrital de votação, no qual há
ligação direta entre representantes e representados, seria o início de mudança
na correlação de forças. Mas, para isso, seria necessária a reforma política, a
respeito da qual muito se fala e nada se faz.

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