O Estado de S. Paulo
Suspeito pedindo contra suspeito. Flávio Bolsonaro pedindo ao Supremo que declare a suspeição de Alexandre de Moraes para julgar sobre Daniel Vorcaro e o Master. Alguém, cujas relações com Vorcaro exigem investigações, pedindo ao Supremo que declare a suspeição de ministro para julgar – no caso concreto – sobre os repasses do banqueiro ao filme Dark Horse. As relações de Moraes com Vorcaro a também exigirem investigações.
Há um conjunto cinematográfico – totalizando
R$ 60 milhões – de remessas vorcáricas aos EUA, via empresa-fachada e tendo por
destino fundo gerido por advogado parceiro de Eduardo Bolsonaro. Investimento
inexplicado e talvez inexplicável, decerto inexplicável a visita do senador a
Vorcaro pouco depois de o cara ter a prisão relaxada – e pouquíssimo antes de o
senador ser anunciado pré-candidato à Presidência. Há um contrato de R$ 129
milhões – R$ 80 milhões dos quais pagos – entre o Master e a banca advocatícia
Barci de Moraes. Contrato inexplicado e talvez inexplicável, inexplicável
decerto a troca de mensagens entre juiz e banqueiro no dia da prisão do cara.
Suspeito pedindo contra suspeito, um só dos
quais juiz. (Suspeito pedindo contra suspeito, um só dos quais – diria o
maledicente – a não ser investigado.)
Xandão era amigo do corruptor obstrutor da
Justiça. Bebiam e fumavam juntos – e não apenas no clube do uísque londrino de
Vorcaro. Em 20 de março de 2025, semana antes do anúncio do memorando de entendimento
para a compra do Master pelo BRB, Vorcaro escrevera à noiva: “Acabou chegando
hugo e ciro aqui para falarem com alexandre”. Clube poderoso.
Foi ao ministro, insista-se, que o sujeito
mandou mensagem – no dia em que seria preso, 17 de novembro de 25 – perguntando
sobre se conseguira bloquear algo. É do dia anterior a mensagem em que Flávio
Bolsonaro chama Vorcaro de irmão e diz que estaria sempre com ele, inexistente
meia conversa entre eles. Não deixa de ser curioso – e arruinador para o filho
de Jair, o perseguido por Moraes – que o primogênito do mito tenha deitado (e
sido flagrado) na mesma rede que o algoz Xandão. A teia vorcárica une. O Master
estava em todo lugar.
O caso Master extrapolou o limite da Segunda
Turma do STF, chegou ao juiz Moraes, derrubado afinal o “impedimento fático” a
que se referia Gilmar Mendes. O caso Master, que está em todo lugar, cedo ou
tarde chegaria aos inquéritos xandônicos onipresentes. Aí está, metido de
súbito na ação penal sobre coação no curso do processo, na forma de um pedido
de investigação sobre se os dinheiros de Vorcaro enviados aos EUA – para
custear o filme – teriam servido, como “engrenagem financeira paralela”, ao
custeio de Eduardo Bolsonaro e, pois, à campanha por sanções americanas contra
autoridades brasileiras.
Aí está, porque o universo vorcárico faz o
mundo ser pequeno de verdade: suspeito pedindo contra suspeito depois de pedido
por investigação a suspeito materializar a suspeição do suspeito.

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