Por Andrea Jubé – Valor Econômico
Presidente do PT, Edinho Silva diz que
decisão de deixar ou não a liderança do governo no Senado é decisão de Jaques
Wagner
O presidente nacional do PT, Edinho Silva,
disse ao Valor que
a operação da Polícia Federal (PF) que arrastou o líder do governo e quadro
histórico do PT, senador Jaques Wagner (BA), para o escândalo do Banco Master
não atingirá a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.
Segundo o dirigente, que é coordenador-geral da campanha, Lula sempre cobrou a
investigação das denúncias contra o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e acrescentou
que o Master é “criação” do governo de Jair Bolsonaro. Sobre o afastamento de
Wagner da liderança, argumentou que a prioridade é a defesa do aliado, e que
deixar, ou não, o cargo será uma decisão dele, que terá o seu apoio.
Na área econômica, Edinho relativizou
declarações recentes do coordenador do programa de governo, José Sérgio
Gabrielli, que provocaram ruído com o mercado e com o setor produtivo. “Só tem
um condutor da política econômica, se chama presidente Lula. E o seu porta-voz
na economia, que é o ministro Dario Durigan”, afirmou.
Lembrando que o próprio Lula tem defendido a
expansão dos gastos públicos, mesmo com a trajetória de alta da dívida, o
dirigente ponderou que o presidente fala em meio a uma conjuntura de crise
econômica mundial. Argumenta que o déficit é “controlado”, e que isso não
significa acomodação, porque o governo vai buscar a responsabilidade fiscal e a
eficiência dos gastos.
A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:
Valor: Qual o impacto na campanha de Lula da ação da
PF contra Jaques Wagner? Colocou o presidente no mesmo patamar que Flávio
Bolsonaro?
Edinho Silva: Não acredito
nisso. Primeiro, o presidente é quem mais tem defendido a apuração das
denúncias envolvendo o Banco Master. Ele sempre disse que elas são graves e
colocam em risco a credibilidade do sistema financeiro.
Valor: Mas Wagner é um quadro nacional do PT, amigo de
Lula há décadas. As denúncias não afetam a campanha presidencial?
Edinho: Claro que o
Jaques Wagner é uma liderança importante para o PT, é um dirigente histórico.
Eu defendo que ele tenha todas as garantias do contraditório para se defender e
mostrar sua inocência. Mas o presidente Lula tem defendido a apuração das
denúncias, e isso serve para todo mundo. Inclusive para quem participou da
construção do Banco Master, que foi quem participou do governo [Jair]
Bolsonaro, porque o Master é uma criação deles.
Valor: Associar o Master ao governo anterior é
estratégia para afirmar que o escândalo tem mais vínculos com a família
Bolsonaro? As denúncias contra Wagner arrastaram o PT para a crise.
Edinho: Essa relação é
inquestionável. Todas as operações foram aprovadas pelo Banco Central durante o
governo Bolsonaro. Mas todos, independentemente de partido, que se relacionaram
com as operações fraudulentas, terão que se explicar. Agora, nós do PT
confiamos que Wagner provará sua inocência. Outra coisa é que Lula tem dado uma
demonstração de respeito institucional inquestionável.
Valor: Em que sentido?
Edinho: A Polícia
Federal tem toda a autonomia para trabalhar no governo Lula, plena autonomia
para investigar. Isso é algo que mesmo aqueles que não querem reconhecer os
feitos deste governo, terão que reconhecer. O respeito do presidente às
instituições, à PF, ao Ministério Público, ao Judiciário.
[O senador Jaques Wagner] terá o nosso apoio
para decidir seus movimentos futuros”
Valor: Nesse contexto, há quem afirme que a operação
contra Wagner contribuiu para melhorar a relação de Lula com o Centrão. Aliados
achavam que a PF de Lula os perseguia.
Edinho: Não sei se
melhorou a relação com o Centrão, até porque Lula tem defendido essa apuração
desde o começo. E foi assim em relação às denúncias sobre as emendas
parlamentares, nas denúncias envolvendo o INSS [Instituto Nacional do Seguro
Social].
Valor: Wagner deve se afastar da liderança do governo
no Senado para se defender e preservar Lula?
Edinho: O mais
importante agora é darmos apoio ao Jaques para ele mostrar que as acusações
contra ele não têm fundamento. Ele é um líder histórico do PT, e que faz parte
da trajetória do presidente Lula. Então isso é uma escolha dele. Ele terá o
nosso apoio para decidir seus movimentos futuros, inclusive o que fará em
relação ao Senado.
Valor: Estamos a menos de quatro meses da eleição, e
faltam palanques de Lula a serem fechados, inclusive em Minas, segundo maior
colégio eleitoral. Isso preocupa?
Edinho: A campanha do
presidente está extremamente organizada e estruturada no Brasil inteiro, e isso
se deve à forma republicana com que ele lidou com governadores e prefeitos, o
que facilitou nossa tática eleitoral. Estamos em junho, bem antes das
convenções [que começam no fim de julho], e com palanques fechados em 25
Estados.
Valor: Em quais Estados continua indefinido?
Edinho: Falta resolver
Minas e Goiás. Em Minas, o fato relevante foi a desistência do [senador]
Rodrigo Pacheco (PSB) [que disputaria o governo]. Mas as conversas estão
avançadas, e eu penso que, em uma semana, definiremos a tática em Minas. E em
Goiás, resolvemos até a primeira semana de julho.
Valor: Em Minas Gerais, o PT caminha para uma
candidatura própria ao governo?
Edinho: O PT aprovou
uma resolução defendendo a candidatura própria, o que é correto, porque você
não pode entrar no processo de negociação sem uma posição. Mas é evidente que
os dirigentes do PT de Minas sabem que a prioridade é a reeleição do presidente
Lula.
Valor: Então não estão descartados nomes do PSB ou MDB
para encabeçar a chapa em Minas?
Edinho: Nós temos
conversado com o [ex-vereador] Gabriel Valadares, que é uma liderança do MDB.
Temos alianças com o MDB em Estados importantes, como Alagoas e Pará. Mas também
estamos dialogando com o PSB.
Valor: Na Paraíba, o PT estará com o grupo do
presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos)? Foi a saída para equilibrar o
jogo, diante do apoio de Lula ao adversário de Motta, o senador Veneziano Vital
do Rêgo (MDB)?
Edinho: O PT apoia a
sucessão do governador João Azêvedo (PSB) [que tem o governador Lucas Ribeiro
(PP) candidato à reeleição]. Tem lógica, porque o PT fazia parte do governo.
Mas o presidente Lula também deixou claro a aliança com Veneziano, que foi muito
importante para a governabilidade no Senado.
Valor: Mas o vídeo de Lula apoiando a reeleição de
Veneziano para o Senado não gerou ruído com Motta, já que o pai dele, Nabor
Wanderley (Republicanos), tentará se eleger senador?
Edinho: Não tem
mal-estar com o Hugo. Ele tem sido uma liderança que dialoga com o presidente
constantemente, e ajuda com os projetos de interesse do Brasil.
Penso que em uma semana definiremos a tática
em Minas. E em Goiás, até a primeira semana de julho”
Valor: Declarações de Gabrielli sobre a futura
política fiscal ao jornal O Globo causaram ruídos com o mercado e o setor
produtivo. Ele falou em expansão dos gastos, medidas para estabilizar o câmbio,
como controle do fluxo de capitais, e mais aumento dos impostos sobre os mais
riscos. Isso está definido?
Edinho: Gabrielli é um
companheiro importante e um intelectual respeitado, que tem a tarefa de
construir as nossas propostas. Mas elas ainda passarão pelas instâncias do PT,
pelos partidos aliados, e a palavra final será do presidente Lula. Quando se
debatem expressões de militantes ou de intelectuais que têm vida orgânica no
PT, é preciso deixar claro que não são posições do partido, nem as que entrarão
para o programa de governo.
Valor: Medidas para alterar o modelo de câmbio flutuante,
ou para estabilizar o câmbio, como o controle do fluxo de capitais, estarão no
programa?
Edinho: Alguns
economistas do PT falam disso, e é um direito deles, é da nossa democracia
interna. Mas não reflete a posição da direção do PT. Só tem um condutor da
política econômica, se chama presidente Lula. E o seu porta-voz na economia,
que é o ministro Dario Durigan. Se eles não respaldam, são apenas ideias em
debate.
Valor: Mas, então, o que se pode esperar da futura
política econômica se Lula for reeleito?
Edinho: O ponto de
partida é a atual política econômica, que é exitosa. Crescemos de forma
sustentável, combatemos o desemprego. A partir dessa concepção, vamos aprimorar
o que será necessário, mas as diretrizes estão dadas.
Valor: Há dados macroeconômicos positivos, mas a
trajetória de alta da dívida pública preocupa. E o próprio Lula defendeu a
expansão dos gastos ao ponderar, em discurso no dia 10 de junho, que um déficit
de 0,15% ou 0,20% do PIB não seria motivo para alarde e não faria “o mundo
cair”. Se ele é o condutor, as despesas vão aumentar?
Edinho: Não. Quando o
presidente fala de déficit, nós temos que entender que ele está falando de uma
realidade mundial. Qual o país que hoje não trabalha com déficit, diante de uma
crise econômica longa como a que estamos vivendo? É nesse contexto que o
presidente trata essa questão do déficit, mas é um déficit controlado,
admissível.
Valor: Mas então não podemos esperar do PT ações para
conter a alta da dívida pública?
Edinho: Não, isso não
significa que o Brasil vai se acomodar com essa realidade, que o Brasil não vai
buscar o equilíbrio fiscal, que não vamos buscar a eficiência do gasto público.
Valor: No projeto de dar continuidade à reforma da
renda, o setor produtivo, empresários e indústria, temem aumento de impostos
sobre as empresas. A oposição diz que é isso que virá. Afinal, terá aumento de
impostos para as empresas?
Edinho: Temos que
trabalhar para tornar o nosso setor produtivo mais eficiente, e eficiência da
produção não combina com aumento de carga tributária. Por isso, o debate sobre
o destino das terras raras é uma das bases para a modernização da nossa
indústria e para o desenvolvimento tecnológico. Devemos fazer parcerias com o
capital internacional, garantindo a transferência de tecnologia.
Valor: E qual o caminho do PT para conter a alta da
dívida?
Edinho: Teremos um
programa de governo com propostas de reformas. Temos que enfrentar a reforma do
Estado para melhorar a qualidade do gasto público, melhorar a prestação de
serviços. Precisamos da reforma política e eleitoral. Não é possível que o
Congresso execute R$ 62 bilhões do Orçamento. Enfim, sem as reformas do Estado,
política e eleitoral, do Judiciário, da renda, sem tudo isso, a racionalidade
fiscal pode virar uma utopia. O governo Lula 4 enfrentará esses desafios, e
será um mandato de legados.

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