Valor Econômico
Mesmo com esforço fiscal, o elevado custo financeiro continua impulsionando a expansão da dívida
O discurso dominante entre economistas ligados
ao mercado diz que os recentes aumentos da dívida pública são consequência
direta do excesso de gastos públicos. Há controvérsias. Outros economistas, da
área acadêmica, sustentam que essa tendência decorre da elevação exagerada das
taxas de juros e da estrutura do sistema financeiro brasileiro.
Um trabalho acadêmico do professor da PUCSP
Ernesto A. Moura, mestre em economia política, propõe interpretação alternativa
à visão fiscalista tradicional. Ele entende que a dinâmica fiscal brasileira
exige analisar conjuntamente política monetária, estrutura bancária, composição
da dívida pública e mecanismos de financiamento do desenvolvimento.
Moura observa que a elevação da dívida bruta de 71,7% do PIB em 2022 para 78,7% em 2025 e 81,9% em junho último ocorreu principalmente pelo custo do serviço da dívida, fortemente influenciado pelas altas taxas de juros e pela estrutura do sistema financeiro.
De 2022 a 2025, as despesas com juros
cresceram de 5,8% do PIB para quase 8% do PIB, tornando-se o principal
componente do déficit nominal. Em junho, atingiram 8,8%. Entre 85% e 90% do
déficit nominal e da expansão líquida da dívida decorrem diretamente da Selic
(além do impacto dos swaps), e não do gasto social ou do custeio.
Em contraste, os déficits primários
permaneceram relativamente reduzidos. Em 2022, houve superávit primário, mas o
pagamento de juros foi suficiente para produzir déficit nominal e elevar o
endividamento. Nos anos seguintes, mesmo com déficits primários moderados
(2,29% do PIB em 2023, 0,40% em 2024, 0,42% em 2025 e 1,19% em 12 meses até
junho), o peso dos juros continuou predominando sobre a evolução das contas
públicas (6,61% do PIB em 2023, 8,05% em 2024, 7,91% em 2025 e 8,8% em junho
último).
A análise baseada exclusivamente no resultado
primário ignora, diz Moura, fatores estruturais que influenciam decisivamente o
comportamento da dívida, especialmente a política monetária e a remuneração dos
títulos públicos. Durante o período analisado, os juros responderam pela maior
parte do déficit nominal. Em alguns anos, sua contribuição superou 90% do
déficit total e, em 2022, ultrapassou 100%, por causa do superávit primário.
Assim, mesmo com esforço fiscal, o elevado custo financeiro continua
impulsionando a expansão da dívida.
Moura observa que esse movimento é reforçado
pela composição da dívida, já que cerca de 50% dos títulos federais são
remunerados pela Selic. Os aumentos da taxa básica elevam imediatamente o custo
de carregamento da dívida e criam um mecanismo cumulativo: juros maiores
ampliam o déficit nominal, o estoque da dívida e os gastos futuros com juros.
Além da política monetária, a estrutura do
sistema financeiro tem papel relevante. Mesmo com o avanço de fintechs e bancos
digitais, o mercado permanece altamente concentrado. Os cinco maiores bancos
respondem por 58% das operações de crédito, mais da metade dos ativos do
sistema financeiro e parcela ainda maior em segmentos como o crédito
habitacional.
A concentração favorece a cobrança de spreads
bancários situados entre os mais altos do mundo. No Brasil, a média varia entre
26% e 27%, enquanto em países como Chile, México, Colômbia, Índia e África do
Sul não ultrapassa 8%. Essa diferença, segundo Moura, não pode ser atribuída
apenas à inadimplência.
O economista contesta o discurso que coloca
Previdência e Bolsa Família no centro do debate fiscal, enquanto o custo dos
juros, embora represente parcela semelhante ou superior do PIB, recebe menor
atenção. Lembra que benefícios previdenciários e programas de transferência de
renda sustentam o consumo das famílias e têm elevado efeito multiplicador na
economia, ao passo que os pagamentos de juros concentram renda entre
instituições financeiras, fundos de investimento e detentores de ativos
financeiros.
Outro aspecto discutido é o tratamento
institucional dado ao pagamento da dívida pública. A legislação brasileira
protege o serviço da dívida durante contingenciamentos orçamentários, fazendo
com que os ajustes fiscais recaiam principalmente sobre despesas primárias,
como investimentos, saúde, educação e outras políticas públicas. Isso estaria
reforçando a predominância da lógica financeira sobre outras prioridades do
Orçamento.
O trabalho sugere ajustes baseados em
estratégia que articule políticas fiscal, monetária, financeira e cambial.
Entre as medidas propostas, estão a redução gradual da taxa estrutural de
juros, a ampliação da concorrência bancária, maior transparência na formação
dos spreads, expansão do crédito ao investimento produtivo, aperfeiçoamento da
regulação financeira e adoção de instrumentos prudenciais para reduzir a
volatilidade dos fluxos internacionais de capitais.
Moura conclui que, sem o equacionamento da política monetária e dos juros nominais, nenhuma regra de contenção de gastos primários conseguirá estancar a trajetória do endividamento. Observa que o debate público se concentra no corte de gastos sociais e de custeio, enquanto ignora o impacto da taxa de juros. E faz duas perguntas: “Por que se omite o custo financeiro avassalador da Selic incidindo sobre o estoque da dívida pública? A quem interessa manter invisível essa sangria (R$ 1,2 trilhão por ano) aos olhos do público?”.

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